Confira o artigo da presidenta da UNE sobre a sua história com o Boi Caprichoso
Eu lembro que estava lá. Em frente a um rio de gente, naquela Avenida Paulista, centro político e econômico desse país. O microfone na mão esquerda. Era um protesto pela democracia e pela vida, naquele doloroso ano de 2021, quando voltávamos às ruas após a pior fase da tragédia da Covid-19 e de um governo de graves negligências com a vida do nosso povo, principalmente na região Norte. E foi ali que, no meu primeiro discurso de uma grande manifestação como presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE), as palavras que me chegaram foram a do meu Boi Caprichoso e da cultura popular do nosso estado. E inspirada pela letra de “Sensibilidade”, disse que a juventude do nosso Brasil tem a força do Rio Amazonas.
Tenho a honra de ter sido a primeira estudante negra e da região Norte eleita para presidir a UNE, a maior e mais antiga organização jovem do país. Após 80 anos de uma história com enfrentamento às ditaduras, conquista das Diretas Já, lutas incansáveis pela educação pública, gratuita e de qualidade pra todo mundo, cheguei à UNE quando o Brasil estava arrasado por mais de 500 mil mortes da pandemia e também por um grave período de devastação ambiental, destruição dos nossos ecossistemas e insegurança para os povos da floresta. E foi o Boi Caprichoso que me inspirou a levar a Amazônia, nossas lutas e mobilizações para o centro dos debates dessa entidade.
Eu me apaixonei ainda criança pela estrela de azul e branco. Menina, não tinha a mínima ideia que seria líder estudantil, mas sonhava mesmo era em ser cunhã-poranga do Caprichoso quando crescesse. Nas ruas do bairro Petrópolis, periferia de Manaus, a brincadeira era a de ser Icamiaba, guerreira defensora das matas, com muiraquitã no pescoço. São símbolos e valores da nossa cultura que muitas crianças aprendem a partir das toadas, das fantasias, das histórias e folclores do festival de Parintins. Por isso, é fato que o Boi Caprichoso é um grande agente de transformação social e de conscientização política da nossa gente.
A primeira toada que me conquistou e que me converteu foi “Viva a Cultura Popular”, de Guto Kawakami, Geovane Bastos e Adriano Aguiar. E foi com o aprendizado do boi-bumbá que me inspirei e entendi que a cultura popular e as letras do Caprichoso são muito mais do que uma expressão artística. São ferramentas para reconhecermos nossa identidade, nossas formas de existência e de resistência. São uma forma de sabermos de onde viemos e o que precisamos proteger.
E no último álbum, lançado neste ano de 2023, o Caprichoso se volta ainda mais à principal luta da nossa atual geração de amazonenses. A defesa dos direitos e da dignidade dos povos originários, vítimas de uma política de genocídio por parte da última gestão do governo federal e de ameaças correntes como a tese do Marco Temporal, que pode isolar e massacrar ainda mais a população indígena não só do Norte mas de todo o país.
Na canção Hutukara Yanomami, dedicada a Davi Kopenawa, o Caprichoso denuncia a fome, o abandono e a dor que se abateram sobre esse povo recentemente, mas não tiraram a sua voz e a sua essência de vida. Muito se passou nesse país para que possamos gritar que vidas indígenas importam e que essas tradições e culturas já ocupavam o nosso território muito antes dessa civilização brasileira que conhecemos hoje. Como diz a nossa companheira e representante de lutas Célia Xakriabá, deputada eleita pelo estado de Minas Gerais, antes da coroa, já existia um cocar. E é por meio dessa bancada do cocar no Congresso Nacional e pela ministra dos Povos Indígenas Sônia Guajajara que esses povos têm hoje seu lugar também na política institucional.
Na UNE, uma organização que historicamente defende a educação e tem protagonismo junto às principais pautas do nosso país, tomei a decisão de também ocupar esse espaço de luta da nossa região amazônica. Como uma das principais ações da minha gestão, fiz questão de levar a festa de Parintins pela primeira vez na história para o palco da Bienal da UNE, no Rio de Janeiro, o maior festival estudantil da América Latina. E foi lá, em janeiro de 2023, que milhares de estudantes de todo o Brasil puderam conhecer um pouco das nossas lendas, tradições e da nossa força.
As cores da UNE também são o azul e branco, como as do Caprichoso. Cores da sensibilidade e dos nossos rios que me atravessam para buscar a sabedoria nessa jornada em defesa da juventude brasileira. Temos grandes urgências nesse país como promover o acesso de todas e todos à universidade, garantir a vida dos jovens das periferias, o acesso ao trabalho, ao lazer, à cultura, lutar pelo fim dos preconceitos e das opressões estruturais, vencer o ódio e germinar uma nação realmente diversa, popular, democrática e solidária neste generoso pedaço de terra da América do Sul. Essa é a estrada da minha vida daqui por diante. E a seguirei, evidentemente, com capricho.