Leia o artigo da secretária-geral da UNE, Camila Moraes, sobre o que significa defender a soberania nacional
“Ou os estudantes se identificam com o destino do seu povo, com ele sofrendo a mesma luta, ou se dissociam do seu povo, e nesse caso, serão aliados daqueles que exploram o povo”.
Florestan Fernandes
Em um contexto histórico de combinação de crises do sistema capitalista e de ameaças à hegemonia imperialista norte-americana, o Brasil – devido ao seu tamanho, diversidade, potencial econômico e de reservas de recursos naturais – pode e deve adotar um papel destacado diante dos conflitos e contradições que emergem de um mundo em transição à multipolaridade. É certo que a ascensão do fascismo e da extrema-direita no nosso país expressam uma tentativa das classes dominantes em dar respostas às mudanças que acompanhamos na geopolítica internacional. Sem pudor em condenar o povo brasileiro à uma agenda política conservadora e de retirada de direitos da classe trabalhadora, a extrema-direita chegou ao poder e elegeu Bolsonaro, seu principal representante, em 2018.
Hoje, o mesmo povo que resistiu e derrotou Bolsonaro nas urnas, elegendo Lula em 2022 e interrompendo um ciclo de derrotas da classe trabalhadora, segue sendo convocado a tomar em suas mãos os rumos da história. Os ataques de Donald Trump (Presidente dos Estados Unidos) ao Brasil representam mais do que intervenções comerciais. São verdadeiras tentativas de, mais uma vez, açoitar o nosso país e nos deixar passivos diante do mundo. Ao apostar na defesa de Bolsonaro, sua família e dos golpistas do 8 de janeiro, Trump dá um claro recado: proteger a extrema-direita é fundamental para uma relação dependente e submissa do Brasil aos Estados Unidos.
Por outro lado, a importante reação do Governo Lula – denunciando publicamente os ataques de Trump e reafirmando o Brasil enquanto Nação soberana – e a rápida resposta das organizações populares em defesa da soberania nacional, alargaram os horizontes da disputa política. O Brasil de agora precisa apostar na diversificação das nossas relações comerciais e econômicas, tendo os BRICS como alternativa ao dólar e à hegemonia norte-americana. Precisa dar respostas concretas às condições de vida do povo brasileiro, combatendo as desigualdades sociais, a violência, as opressões do mundo do trabalho e a crescente exploração desenfreada dos recursos naturais. O Brasil de agora precisa apontar para um projeto de desenvolvimento nacional que tenha no centro a educação pública e o fortalecimento do papel das universidades.
A conjuntura nos apresenta um conjunto de desafios e as lutas do nosso tempo dependem, fundamentalmente, da nossa capacidade em retomar os símbolos nacionais sob a insígnia da defesa da soberania; de uma soberania verdadeira. A União Nacional dos Estudantes, em seus 88 anos de história, foi uma entidade protagonista nas lutas em defesa do Brasil e, agora, possui a tarefa de, mais uma vez, assumir o compromisso em dar continuidade ao seu legado e ser ponta de lança na construção de um projeto de país soberano e popular. Mais uma vez, a história da UNE deve se entrelaçar com a história do povo brasileiro!
Diante de tantos desafios, é necessário preencher de conteúdo e de sonhos o sentido de soberania. Então, o que deve significar a defesa da soberania para nós, estudantes brasileiros? Em primeiro lugar, a defesa inegociável da educação pública como eixo central do desenvolvimento, queremos universidades à serviço do Brasil. A defesa da democracia e da participação, pois é o povo quem precisa decidir o futuro. A realização plena da autonomia nacional, com respeito às instituições democráticas e suas decisões, exigindo prisão para Bolsonaro e todos os golpistas. Defender a soberania precisa significar derrubar os muros das universidades e aproximá-las dos Movimentos Sociais e Populares, fazendo das universidades e das lutas sociais um único instrumento de transformação radical da sociedade. Por fim, defender a soberania deve significar avançar em justiça social e tributária, taxar os super-ricos e colocar fim à escala 6×1.
Somos provocados a assumir as responsabilidades do agora, construindo as lutas do presente e conectando, cada vez mais, o Movimento Estudantil ao povo brasileiro. Tarefas e desafios não nos faltam e o calendário de lutas da UNE deve potencializar a atuação e a organização do Movimento Estudantil. Por isso, no dia 7 de setembro, Dia da Independência do Brasil, vamos ocupar as ruas em defesa da soberania. Cada entidade estudantil, cada estudante organizado, tem em suas mãos a tarefa de mobilizar as suas universidades e incendiar as ruas com a luta dos estudantes no dia 7 de setembro, colorindo o Brasil de norte a sul com a nossa bandeira. É hora de construir o Brasil que nós queremos!
*Camila Moraes é secretária-geral da União Nacional dos Estudantes.