Festival chega ao seu penúltimo dia e discussão ressaltou necessidade de regulação da mídia para fortalecer a democracia
Nem o dia mais quente do ano no Rio de Janeiro, nem o cansaço pós-show de Baiana System tiraram a empolgação da militância estudantil de acompanhar o debate sobre comunicação, na manhã deste sábado (4), no Palco São Sebastião da Fundição Progresso.
Fazendo conexão com a atual conjuntura política, o tema prendeu a atenção dos jovens que participam da 13ª Bienal da UNE, realizada até domingo (5), no Rio de Janeiro.
Nomes de peso foram convidados para debater estratégias em meio a um cenário onde fake news e monopolização de meios ainda são significativas, num país onde extrema direita cresceu consideravelmente no últimos anos.
Mediada pela diretora da UNE, Isis Mustafa, a mesa recebeu o deputado federal André Janones (Avante), a jornalista editora do Brasil de Fato, Monyse Ravena, o historiador e youtuber, Jones Manoel; o subsecretário de Direitos Humanos do Espírito Santo, Renan Cadais e a jornalista representante do Fórum Nacional de comunicação (FNDC), Renata Mielli.
Os desafios apresentados pelos convidados ao longo da conversa foram elevando o nível do debate. Foram sugeridas propostas para se pensar numa comunicação mais plural, ampla, diversa e democrática. A começar pela editora do Brasil de Fato, Monyse Ravena: “A gente precisa fazer a luta ideológica na comunicação”, pontuou.
Segundo a jornalista, parte do fortalecimento das ideias conservadoras têm a ver com a disseminação de certos preconceitos, que são fruto de narrativas construídas e disseminadas ao longo da história, pelos conglomerados de comunicação.
“Não podemos esquecer a responsbailidade desses grandes grupos de comunicação, que contribuíram para manter esses esteriótipos”, explicou Monyse.

Deputado André Janones Foto: Vangli Fiqueireido
Um dos principais articuladores nas redes sociais da campanha do presidente Lula, o deputado mineiro André Janones apontou alguns erros ainda cometidos pela militância progressista no meio virtual. “O Bolsonarismo percebeu que tinha um grupo de pessoas que não se comunicava com ele”, alertou o parlamentar.
Janones entende que o campo progressista precisa compreender melhor o momento de priorizar pautas prioritárias ante as ideológicas, reconhecer a potência de algumas redes consideradas obsoletas por algumas ‘bolhas’ (a exemplo do Facebook), e promover inclusão nos debates.
“Felizmente, a democracia atual não comporta mais que alguns sejam alijados da discussão”, comentou Janones, ao especificar que o problema não está na existência das bolhas, mas na falta de percepção e reconhecimento de quando se está em uma.
No entanto, o deputado reconhece que algumas dessas estratégias de guerrilha para a comunicação devem ser direcionadas apenas ao campo das discussões e não como um projeto de governo para encarar problemas sociais. “Isso funciona enquanto modelo de campanha, mas não funciona como modelo de sociedade”, enfatiza.
O subsecretário de Direitos Humanos do Espírito Santo, Renan Cadais, também ressaltou a necessidade de pensar numa comunicação cada vez mais inclusiva, a qual considere o direito de ser informado e se informar, de falar e de se expressar. “Essa comunicação tem que ser plural e acessível. Uma comunicação como direito humano”, observou.
Medidas mais efetivas: regulação e lei de meios
Na medida em que a mesa avançava, as proposições para derrotar a extrema direita na comunicação, ficavam cada vez mais contundentes. André Janones não se absteve a expor medidas refutadas pelas elites.
“O grande desafio é achar a solução. Mas um ponto que a gente precisa passar por ele é: o endurecimento das penas para quem ataca a democracia, as instituições e promove fake news”, afirmou.
O historiador e youtuber Jones Manoel foi além nas suas propostas. Ele defendeu a regulação das verbas publicitários de governo, o cumprimento de princípios constitucionais para meios de comunicação, a recriação da Telebras, além de uma específica Lei de Meios.
Jones ainda propôes a criação e desenvolvimento de redes sociais nacionais, próprias, para que não haja mais uma apropriação de dados por gigantes globais da comunicação, como Facebook, Google e Youtube.
“Quando a gente fala de cadeia de comunicação, a gente fala de um setor hipermonopolizado”, relembra. O historiador elencou suas críticas às gestões passadas do PT, por entender que houve um derramamento de receitas públicas para grupos de comunicação conservadores. “A gente não teve uma TV para dizer que teve golpe [em 2016]”, analisa.
Representando o FNDC, a jornalista Renata Mielli destacou a relevância de manter a pressão e participação popular nos debates sobre a comunicação, colocando-os na linha de frente para enfraquecer o bolsonarismo. “Precisamos incluir no nosso dia a dia a luta pela regulação dos meios de comunicação no Brasil”.

Isis Mustafá media o debate Foto: Vangli Figueiredo
Para Mielli, a sabedoria e maturidade política de construir uma ampla frente democrática para vencer as últimas eleições pode servir de inspiração para planejar e viabilizar transformações concretas no pensamento social, a partir de uma comunicação cada vez mais pública.
“Se comunicação é poder, como nós vamos enfrentar esse grande monopólio que dita a agenda pública de debates? Nós precisamos fortalecer a comunicação pública no país’, classificou.