Leia o artigo de Lucas Marçal e Magu Haddad sobre a mobilização no próximo dia 17 de março pela redução da taxa de juros no Brasil

Desde o governo neoliberal de Fernando Henrique Cardoso, o Brasil é refém de um modelo econômico que privilegia os interesses do capital financeiro em detrimento do povo. Os persistentes juros altos, drenam quase metade do orçamento público na forma de juros da dívida pública e sufocam investimentos produtivos, tanto do setor público quanto do setor privado. Na ponta, as famílias arcam com crédito encarecido e consumo limitado para encher o bolso dos banqueiros.

Mesmo na conjuntura atual, convivemos com oito meses de juros nas alturas, 15% a.a, uma das maiores do mundo, sob a gestão de Gabriel Galípolo no Banco Central (BC). A cada rodada de reuniões do Comitê de Política Monetária (COPOM), órgão do BC que define a taxa básica de juros da economia brasileira (Selic), a manutenção dos juros no patamar em que está torna-se mais inaceitável, tendo em vista suas consequências perversas travando o desenvolvimento nacional.

Somente em janeiro, foram gastos R$ 63,3 bilhões apenas com juros da dívida. Em 2025, foram destinados mais de R$ 1 trilhão aos bancos, enquanto na educação e outros ministérios essenciais vimos cortes e sucateamento, realizado pela ala da extrema-direita no Congresso Nacional. Galípolo deveria ter vergonha de deixar que o nosso povo, que trabalha e estuda, pague a conta do privilégio dos rentistas. Nós, da União Nacional dos Estudantes, carregamos pautas históricas em defesa dos estudantes, da educação e de um Brasil soberano. Hoje, muitas delas encontram dificuldade de se concretizar por esbarrarem no discurso falacioso de que “o país não tem dinheiro”. Dinheiro para quem? A retórica da austeridade serve apenas para gastos sociais e essa contradição é, por excelência, política – nunca foi, nem será, técnica.
Estamos vindo de diversas mobilizações por mais orçamento para as universidades.

Sabemos que, para produzir pesquisa, garantir ensino de qualidade, assegurar políticas de permanência estudantil e fortalecer as extensões voltadas à sociedade, é necessário um financiamento justo. É verdade que temos um Congresso recheado de deputados da extrema-direita, inclusive, que foram os responsáveis por aprovar um orçamento menor para as Universidades e os Institutos Federais na LOA (Lei Orçamentária Anual). Por isso, foi necessário que o presidente Lula realizasse a recomposição dos orçamentos das universidades. Entretanto, o valor destinado aos bancos em juros no ano de 2025 representa quatro vezes mais do que o orçamento da Educação. O país não tem dinheiro ou estamos enviando tudo para banqueiro?!

Sabemos que muitos estudantes precisam mudar de cidade para cursar a universidade, e as despesas aumentam: aluguel, luz, água, internet, alimentação e transporte. Muitos, inclusive, acabam precisando recorrer ao cartão de crédito para conseguir se manter. Uma pesquisa realizada pela Serasa, com os estudantes endividados, revela que 55% dos universitários possuem dívidas com cartão de crédito e 32% com empréstimos pessoais. Com a Selic em 15% a.a, o crédito fica mais caro e a conta não fecha. O juros do cartão de crédito sobem e a dívida vira uma bola de neve. Para os estudantes que precisam recorrer
ao crédito para sobreviver na universidade ou até para financiar a própria graduação, a política de juros altos não é um número abstrato que aparece no aplicativo do celular, é mais aperto no fim do mês, mais ansiedade, desespero e evasão.

BASTA DE BOLSA BANQUEIRO! OS ESTUDANTES QUEREM BOLSA ESTUDANTIL!

E esse não é um problema que aflige apenas os estudantes. Segundo a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), em janeiro de 2026, 73,3 milhões de brasileiros estavam inadimplentes, o que representa 43,88% da população adulta do país. Se a população brasileira não consegue pagar o cartão de crédito pelo acúmulo de juros, quem dirá financiar uma casa própria ou um carro. A UNE defende um país soberano e, para isso, é fundamental fortalecer uma indústria nacional que esteja a serviço do povo, gerando emprego, renda e desenvolvimento econômico. Com juros altos, os investimentos produtivos e todos seus impactos positivos são desestimulados em prol de ganhos especulativos com o capital financeiro.

Segundo o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), “o ano de 2025 terminou com a indústria brasileira de volta ao vermelho no último trimestre, freada sobretudo pelos ramos produtores de bens de capital e de consumo duráveis, refletindo claramente o peso da conjuntura de elevadas taxas de juros sobre o setor”. Além disso, ao final do ano, a indústria brasileira registrou queda de 1,2%, segundo dados do IBGE. A desindustrialização em curso é catalisada, e por isso não será revertida, pela política de juros altos. A disputa que está posta coloca de um lado aqueles que defendem geração de emprego e renda para o povo brasileiro e aqueles que priorizam o lucro dos banqueiros. Sob esse prisma, é preciso também rechaçar a retórica neoliberal que ventila no Congresso Nacional acerca da “independência” do Banco Central. Tal suposta independência busca afastar a atuação do BC da atuação do governo, à deriva dos interesses democráticos da agenda econômica escolhida nas eleições.

Enquanto isso, os banqueiros e financistas fazem a festa com sua influência no BC, cuja maior expressão é o Boletim Focus, baliza das previsões (e auto-realização) da taxa de juros. Ademais, o fenômeno da “porta-giratória” traz à luz os interesses escusos entre esses atores, que migram comumente do setor público para o privado – o mais absurdo, nos últimos tempos, foi do ex-presidente do BC, Roberto Campos Neto, e seu novo emprego na Nubank. Dada a dimensão e capacidade de interferir nos rumos da economia do país, é inadmissível que uma instituição como o Banco Central esteja à deriva dos interesses democraticamente eleitos e siga minando o desenvolvimento nacional.

A União Nacional dos Estudantes nunca fugiu das batalhas mais essenciais em defesa do povo brasileiro. Por isso, o conjunto do movimento estudantil convoca um dia de luta pela redução da taxa de juros, no dia 17 de março, data da próxima reunião do COPOM Estaremos na linha de frente por menos juros e mais investimento! Ou o BC abaixa o juros, ou paramos o Brasil!

*Lucas Marçal é doutorando e mestre em Ciência Econômica (UNICAMP), economista (UNESP) e coordenador geral da Associação de Pós-Graduandos da UNICAMP (APG-UNICAMP).

* Magu Haddad é estudante de licenciatura em química na UNESP, diretora de Ciência e tecnologia da UNE.