“É hora do verde e amarelo por todas as partes”, afirma nova presidenta da UNE. Aluna de Letras no IFSP e formada em Direito pela USP, ela é filha de nordestinos, veio da escola pública e nos últimos dois anos enfrentou a gestão de Tarcísio de Freitas diante dos retrocessos na área da educação
Desde 2023, os enfrentamentos entre os movimentos sociais e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, contam com uma personagem que, à primeira vista, talvez não seria confundida pelo senso comum como uma líder de massas. Bianca Borges, que liderou a União Estadual dos Estudantes (UEE-SP), é extremamente calma, fala baixo e escuta muito, com inteligência naturalmente observadora, está em seu segundo curso superior, domina três idiomas, visitou 14 países e, por grande parte da vida, foi a primeira aluna da turma.
Mas é exatamente com o microfone nas mãos e com a capacidade política de agregar ideias, unir e construir a resistência da juventude paulista, que ela se revela. Apesar da difícil conjuntura para as lutas populares em São Paulo, Bianca se destacou nacionalmente pela organização dos estudantes do estado e, agora, chega à liderança da União Nacional dos Estudantes (UNE), uma entidade política que completa 88 anos de atuação e representa quase 10 milhões de universitários e universitárias, a maior organização de juventude da América Latina.
A paixão pelos estudos e a visão crítica sobre a sociedade teve a influência de seus pais. Nascida e crescida na periferia da grande São Paulo, Bianca teve uma infância levada com o esforço de Sônia e José Juviano, migrantes da Bahia e de Alagoas, respectivamente, que vieram para o sudeste, se conheceram em Carapicuíba (SP) . Com uma infância de dificuldades, Bianca lembra que a mãe, faxineira e porteira, conseguia alguns dos livros didáticos da filha na própria lixeira dos edifícios em que trabalhava. A família também chegou a morar por um ano no povoado do pai, Pimenteiras (AL), o que marcou Bianca em sua passagem pela escola de lá e na descoberta das enormes desigualdades sociais entre as regiões do país.
Na volta de Alagoas e fixando-se em Praia Grande, Bianca atuou no grêmio estudantil da sua Etec, primeiramente, reivindicando mais estrutura: “Não tínhamos lanchonete e nem um microondas para o lanche que os alunos levavam”, lembra. Em pouco tempo, Bianca conheceu lutas muito maiores e já estava envolvida com a reconstrução da União Municipal dos Estudantes (UMES) de Praia Grande. O desejo inicial de ser médica migrou para a área do Direito. A menina, estudiosa e apelidada pelos colegas de “Bianca Enem”, realmente conseguiu o que queria e ingressou para o ensino superior na histórica faculdade do Largo de São Francisco, da Universidade de São Paulo (USP).

Foto: @vitolivr_ v
Desde o início da sua primeira graduação, Bianca participou ativamente da UNE. Era um período de muita turbulência política no país e de calorosos debates judiciais, com o golpe sobre a presidenta Dilma Rousseff e a oposição estudantil aos ataques de Michel Temer na área da educação. Bianca foi representante da UNE no estado de São Paulo, com o cargo também conhecido como “vice-UNE” e participou da coordenação geral do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da USP. Com ascensão vigorosa no movimento universitário, foi eleita diretora geral do emblemático Centro Acadêmico 11 de agosto, o mais antigo núcleo de organização estudantil do Brasil.
Os anos de Sanfran (como é apelidada a Faculdade do Largo de São Francisco) também trouxeram ou aprofundaram outras formas de militância. Vegana desde muito jovem, Bianca ampliou seus estudos e mobilização acerca da causa animal, área em que sempre atuou também como voluntária em feiras de adoção. Ingressou em um grupo de extensão universitária sobre Direitos Humanos, com detentos do presídio Adriano Marrey, em Guarulhos (SP), buscando compreender a perspectiva de vida daqueles indivíduos após o cárcere e na sua reintegração com a sociedade.
Bianca desde cedo aprendeu e dominou o inglês e o espanhol. Ainda antes de entrar para a universidade, participou do programa Jovens Embaixadores, da embaixada dos Estados Unidos e teve a chance de sair do Brasil pela primeira vez, conhecendo as cidades de Washington, Portland e San Francisco, no país da América do Norte. A formação acadêmica e o ativismo a fizeram sonhar em ganhar o mundo. E ela ganhou mesmo, a partir do movimento estudantil. Visitou 14 países, em três continentes. Isso depois de ter sido escolhida como diretora de Relações Internacionais da UNE, em 2019, e posteriormente Secretária Executiva da Organização Caribenha e Latino Americana dos Estudantes (OCLAE), cargo de referência para a juventude de toda a região.
Formou-se em Direito aos 22 anos, ainda insatisfeita com a sua jornada na graduação. Ingressou em outra, no curso de Letras do Instituto Federal de São Paulo. O interesse pelos livros, desde aqueles trazidos com o carinho da mãe Sônia até os muitos descobertos nas bibliotecas da USP, fizeram-na optar pela área da literatura. Fã de Guimarães Rosa, especialmente de seu magnum opus “Grande Sertão Veredas”, Bianca tem, na parte interna do antebraço esquerdo, uma tatuagem inspirada no livro, com a ilustração de um cenário natural dos rincões do Brasil e alguns animais em marcha sob o céu aberto. Além de Rosa, gosta de Lygia Fagundes Telles e Clarice Lispector na prosa, Mário Quintana e Álvares de Azevedo na poesia.

Foto: @kboughoff
Em 2023, Bianca Borges foi eleita presidenta da UEE-SP. A entidade teve forte mobilização contra o governo Tarcísio em temas como a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 09/2023, que retirou mais de R$10 bilhões da educação paulista e leiloou escolas. Os estudantes também resistiram à privatização da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) e às privatizações na área dos transportes.
Em 2024, durante o marco de 60 anos do golpe militar que instaurou a ditadura brasileira, a gestão de Bianca na UEE-SP promoveu atividades de memória e homenagem a estudantes de São Paulo que perderam suas vidas e foram vítimas da brutalidade do estado, ao longo daquele período. Foi também quando a UEE-SP celebrou seus 75 anos de existência, com uma revista especial sobre seus principais personagens e momentos históricos. No último mês de abril, Bianca atuou na construção da 5ª Caminhada do Silêncio, em homenagem aos mortos e desaparecidos políticos do país. Ela também participou da diplomação simbólica da USP para os ex-alunos Alexandre Vanucchi e Helenira Resende, herói e heroína do movimento estudantil brasileiro, mortos pelo regime militar.
E foi como presidenta da UEE-SP que Bianca endossou o movimento “sem anistia”, frente às graves revelações da ameaça de golpe de estado, no final do governo Jair Bolsonaro, envolvendo a alta cúpula do executivo, as forças armadas e o plano de assassinato do presidente eleito Lula e outras autoridades. Os desdobramentos da tentativa de golpe de 2023 chegam a 2025, quando Bianca assume a UNE, em contexto de máxima turbulência, incluindo os graves ataques de Donald Trump ao Brasil e à soberania brasileira, para tentar salvar o aliado da extrema direita da condenação judicial.

“É hora do verde e amarelo por todas as partes”, diz a nova presidenta da UNE. Segundo ela, acabou o tempo em que os movimentos sociais tinham receio da associação das cores nacionais à extrema direita. Bianca defende que o movimento estudantil tenha protagonismo nessa retomada “Se você olha para a história da UNE, ela começou com um contexto de defesa do Brasil na segunda guerra mundial, ela esteve na campanha ‘O Petróleo é Nosso’, nas Diretas Já, sempre com o verde e amarelo, essas cores são nossas, não são da direita. Pelo contrário, eles que são os entreguistas e chegam a prestar continência para a bandeira dos Estados Unidos”. Quando perguntada sobre o papel da UNE nas eleições de 2026, diz que, em sua opinião, o processo eleitoral já começou: “Não podemos vacilar, o que está em jogo é o projeto de sobrevivência da democracia brasileira, representado pelo presidente Lula, contra o que há de pior no cenário político nacional e internacional”. Ela acredita que a UNE deve apoiar Lula se a outra candidatura antagonista tiver o apoio do bolsonarismo. “Mas isso deve ser definido somente no ano que vem, em um fórum democrático da UNE com todas suas lideranças”, diz.
Porém, Bianca também sustenta que a UNE não pode render-se somente à agenda da grande conjuntura e que há muito a ser cobrado, do atual governo, na questão educacional. Critica a política econômica do governo Lula, em especial nas limitações trazidas, pelo arcabouço fiscal, à área da educação. “Não podemos conceber que universidades e institutos federais sofram com menos recursos, prejudicando sua autonomia e sua própria capacidade de pagar as contas ou manter sua estrutura. A educação não pode pagar essa conta”. Bianca também cobra a regulamentação do Plano Nacional de Assistência Estudantil (PNAES), para garantir a permanência de estudantes em situação de maior vulnerabilidade nas universidades, assim como o controle mais rígido sobre os abusos do setor privado na educação superior, onde muitas vezes a mensalidade é mais prioritária que a qualidade.
Bianca Borges sabe que está chegando à condução da UNE em um momento especialmente árduo da história política brasileira. Se fosse um trecho do livro de Guimarães Rosa que inspirou a tatuagem do braço, seria como a passagem pelo Liso do Sussuarão, um pedaço ingrato e desafiador da jornada do jagunço Riobaldo e seus próximos, entre a vida e a morte. Mas o mesmo livro tem duas frases que inspiram Bianca e que ela cita como motivação para a fase que se inicia. Uma delas ensina que o real não está no início nem no fim, ele se mostra pra gente é no meio da travessia. E a outra, já usada de forma memorável pela presidenta Dilma Rousseff, explica que a vida quer da gente é coragem. Bianca tem no nome o B de Brasil e o C de Coragem. E está ansiosa pelas próximas páginas dessa história.
*Por Artênius Daniel

Nova presidenta da UNE eleita
Foto: @vitolivr_