Evento reforça compromisso com a luta pela democracia e justiça para vítimas da ditadura
A 14ª Bienal da UNE reservou um momento para homenagear seus líderes que tombaram na luta pela democracia. Um ato emocionante reuniu parentes de estudantes e ativistas assassinados durante a ditadura militar no Teatro Guararapes, em Olinda, nesta sexta-feira (31/1).
O evento teve início com um jogral, que destacou os nomes dos homenageados e contou um pouco sobre suas trajetórias. Entre eles, estavam o ex-presidente da UNE, Honestino Guimarães (UnB); os ex-vices Helenira Resende (USP) e José da Mata Machado (UFMG); além de Candido Pinto (UFPE), Manoel Lisboa (UFAL), João Carlos Haas Sobrinho, o Dr. Juca, Sueli Nakaywama (USP), o secundarista Edson Luís, Idalísio Aranha (UFMG), Marilena Vilas Boas Pinto e Berguson Gurjão (UFC).
“A UNE surgiu na luta contra o fascismo, o autoritarismo e sempre lutou pela liberdade. Muitos passaram por aqui e tiveram a sua vida ceifada, mas, como disse Honestino: ‘Podem nos prender, podem nos matar, mas voltaremos e seremos milhões’”, afirmou a presidenta da UNE, Manuella Mirella.
A secretária-geral da entidade, Julia Kpof, reforçou o compromisso da UNE com a luta por justiça, citando os versos de Milton Nascimento: “Quem cala sobre o teu corpo, consente sobre a tua morte, e a UNE, nestas quase nove décadas de existência, não consente a morte de quem morreu e viveu lutando pelo nosso Brasil”.
Nos últimos anos, a UNE tem pressionado e acompanhado a diplomação pós-mortem de muitos desses líderes. A cerimônia de posse da atual gestão, por exemplo, empossou simbolicamente Honestino Guimarães e Helenira Resende.

“Por Honestino, é sem perdão: eu quero ver os golpistas na prisão!”
A vice-presidenta da UNE, Daiane Araújo, destacou que a luta por memória, verdade e justiça não é apenas sobre o passado, mas também sobre o presente. “Assumimos um compromisso com essa pauta sabendo que ela continua atual, enquanto existirem aqueles que ainda ousam atacar a democracia e os direitos do povo”, afirmou.
Ubirajara Guimarães lembrou do sofrimento das mães dos desaparecidos políticos, citando o exemplo de Maria Rosa, mãe de Honestino Guimarães. “Ela, além de perder o filho, perdeu o marido e sofreu muito em decorrência da ditadura. A UNE tem um papel fundamental em mobilizar a sociedade para que não se anistie golpistas”, ressaltou.
O primeiro presidente da UNE após a redemocratização, em 1984, o atual deputado federal Renildo Calheiros (PCdoB), destacou que a experiência no movimento estudantil é uma marca para toda a vida. “A luta une todos nós. Por isso, a UNE tem tanta força, pois é uma entidade histórica sempre em defesa da democracia”, afirmou.

Mesa diretora da UNE, Júlia Kopf, Manuella Mirella e Daiane Araújo
Uma espera de vinte anos por justiça
Maria do Amparo Almeida, que integrou o movimento estudantil secundarista no interior de Alagoas durante o golpe, aproveitou o momento para compartilhar uma conquista recente na luta por justiça pelo assassinato de seu marido, Luiz José da Cunha, conhecido como Luizinho de Beberibe, em Recife.
Depois de vinte anos de batalha, ela conseguiu provar que Luizinho foi preso ferido pelo DOPS em 1973 e faleceu por anemia. Sem mais possibilidades de justiça no Brasil, o caso foi levado à Comissão Interamericana de Direitos Humanos e será julgado. “Eu não me importo de esperar mais vinte anos, e espero contar com a força de vocês nessa nova caminhada”, declarou.

Almeida denunciou ainda o racismo e a intolerância religiosa das instituições de justiça, apontando que seu marido era negro, pobre e adepto de religião de matriz africana. Finalmente, ela conquistou o direito à retificação da certidão de óbito pela Comissão de Mortos e Desaparecidos. “Possivelmente virá um pedido de desculpas que eu não vou aceitar. Em 2005, depois de muita luta, consegui localizar os restos mortais dele em uma vala clandestina no Cemitério Dom Bosco, em Perus. Me entregaram a ossada só do pescoço para baixo, porque é tradição nesse país decapitar os revolucionários e quem luta pela liberdade”, relatou.
Edval Nunes Cajá, último estudante preso pelo DOI-CODI, reforçou que todos os companheiros assassinados compartilhavam um grande sonho e ergueram a mesma bandeira em defesa da justiça e do socialismo. Convicto, afirmou: “Pode demorar, mas os assassinos dos heróis brasileiros vão pagar”.

Texto: Cristiane Tada