Artista mescla linguagens e técnicas, trazendo referências do movimento armorial, carnaval e ocupação da rua no cartaz do festival estudantil de 2025
Por trás da vibrante identidade visual da 14ª Bienal da União Nacional dos Estudantes (UNE), encontra-se a ilustradora e designer Amanda Lobos que transformou o carnaval pernambucano e a cultura de rua em uma celebração de arte e resistência. Capixaba, formada em Design pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), aos 25 anos a artista já construiu uma trajetória de sucesso em grandes festivais e marcas.
Ela conta que a passagem pelos cursos de Artes Plásticas e Publicidade inicialmente a enriqueceu com um repertório variado, uma ponte entre o poético e o técnico. “No meio dessa mistura de artes, design e publicidade, eu me encontrei na ilustração. Acredito que o contato com artes plásticas me trouxe abertura para uma variedade de estilos e técnicas, contato com a poética da construção de um conceito, enquanto o design me apresentou tecnologias que eu podia mesclar nessa arte”.
Falamos com ela sobre o processo de trabalho para a composição da arte do maior festival estudantil da América Latina, que já teve cartazes de edições assinadas por grandes nomes como J.Borges (2003) e Elifas Andreato (2019).
A pesquisa por trás do cartaz
Para a 14ª Bienal da UNE, que traz como tema “A rua é nosso palco principal”, e fala do direito à ocupação das ruas, a artista mergulhou em uma pesquisa que dialogava tanto com sua bagagem pessoal quanto ao que propunha o evento e sua relação com lugar que será realizado. “Usei referências como bordados têxteis de Benin, murais decorativos, pôsteres de festivais, mas também busquei elementos específicos do carnaval pernambucano, a cultura de rua, simbologias, texturas, cores e padronagens de fantasias”.
Os ícones do carnaval pernambucano – o caboclo de lança, la ursa, o homem da meia-noite, o caranguejo, o galo – estão presentes no cartaz, reinterpretados em um contexto que vai além da festa. “Eles participam como símbolos da ocupação das ruas de forma ativa e de resistência. Também são bem ricos em detalhes e contam da profundidade do feitio manual dessa cultura”, explica. O resultado foi um cartaz que não apenas celebra o carnaval, mas também incorpora símbolos do movimento estudantil e da ocupação urbana, como skates, pinturas e estandartes.
O papel do movimento armorial
O movimento armorial, iniciativa artística da década de 70 liderada pelo escritor e dramaturgo Ariano Suassuna cujo objetivo seria criar uma arte erudita a partir de elementos da cultura popular do Nordeste brasileiro também é uma referência constante no trabalho da artista.
A manifestação abarcou a literatura, música, dança, teatro, artes plásticas, arquitetura, cinema, etc. E a literatura de cordel foi o elemento propulsor do movimento que se utiliza de símbolos e grafismos criando uma tipografia influenciada pela marcação de gado e com criação de um “alfabeto” próprio.
“Trago o movimento armorial como referência em todos os meus trabalhos. Acredito que ele fez bastante parte da construção do meu ‘estilo’ e segue sendo importante. Com certeza a composição faz referência a isso, mas não tão diretamente, até porque essa honra já foi muito cumprida pelo cartaz do J. Borges”, explicou.
O processo criativo e a força das cores
O processo criativo começa no papel, com rascunhos que depois ganham forma no aplicativo Procreate, onde a composição é refinada. Por fim, o trabalho é finalizado no Illustrator, garantindo flexibilidade para desmembrar elementos que possam ser reutilizados em diferentes formatos.
Uma característica inconfundível do trabalho de Amanda é o uso audacioso de cores. Segundo ela, a transição do papel para a ilustração digital foi crucial para descobrir sua afinidade com paletas ricas e contrastantes. “Eu fazia pontilhismo em preto e branco, e o digital abriu um mundo novo. As cores me permitem adentrar no fantástico, fantasioso, não-realista”, declarou.
Uma paleta rica na mão, bastante contraste e várias ideias na cabeça. “Para além disso, obviamente o carnaval de Pernambuco e as referências que queríamos trazer já eram muito coloridas por si só, então foi uma oportunidade de dar mais sentido ainda para essas cores e composições maximalistas, estampadas, como o Galo da Madrugada, rico em detalhes.”
Personagens fantásticos
Um elemento curioso em suas criações são as figuras com dois pares de olhos, uma assinatura que ela descreve como quase acidental. “Foi uma forma de criar personagens mais próximos do fantástico do que do humano literal. Gosto que eles carreguem informações a mais do que o necessário, algo que nem sempre é confortável ou comum.”
Assim, bem distante do comum, e mais perto do extraordinário, a assinatura de Amanda, que nasceu no mesmo ano da primeira Bienal da UNE, entra para a história da entidade.
Uma fusão entre tradição, inovação e o poder da arte como ferramenta de expressão cultural e política. Em 2025 exaltando a rua como palco principal, e a arte como uma forma de ocupá-la. Tudo que a Bienal da UNE celebra há 25 anos de realização do festival.
Por Cristiane Tada
