“Eu não vou sucumbir
Eu não vou sucumbir
Avisa na hora que tremer o chão
Amiga, é agora, segura a minha mão
Eu não vou sucumbir.”

Elza Soares

Não é segredo para ninguém que a cultura é um dos pilares fundamentais na construção identitária de um país. Quando pensamos no Brasil, nosso maior bem emerge quando educação e cultura se cruzam. Existe algo que é nato da nossa gente, que só brota aqui nessa terra e difere de tudo que o mundo produz. A brasilidade que encanta é fruto de um quê incerto e genuíno, matéria-prima que bebe de si mesma e que chama para o embate, artista após artista, geração após geração. Uma vontade de quantificar, tipificar, de certa maneira tenta entender, tenta definir, o indefinível. Obras que marcam a história do mundo nasceram, fundamentalmente, desse desejo de nos vermos em cena, e denunciar as dores e sabores de viver um tempo sendo brasileiro. Somos ontem, hoje e sempre, tradição e futurismo, amor e caos expandido. O Brasil tece contos e encantos que jamais surgirão em outros lugares, e isso tudo, o que fomos, somos e seremos: está sob ataque.

Viajem comigo ao início dos anos 2000 e encontraremos um Brasil em plena ascensão. Aquela beleza que internacionalmente começava a cegar outras potências mundiais, irradiava de dentro. Descobrimos que um Estado focado no fortalecimento interno e na emancipação da nação era capaz de abrir caminhos sem volta rumo à nós mesmos, e é nesse ponto que surgem as primeiras fissuras na estrutura que há tempos não nos cabia mais. Tínhamos à frente do Ministério da Cultura um gigante emergente, Gilberto Gil. Se antes para se constituir no contexto cultural você precisava estar no eixo Rio de Janeiro – São Paulo, com a chegada de Gil e a consequente priorização de Políticas Culturais, à exemplo o Programa Cultura Viva, democratizamos e revolucionamos ao criar meios do recurso chegar até a ponta. Tornou-se possível investir em projetos locais e fortalecer territórios de modo pulverizado no solo nacional, o foco principal era a consolidação de uma cultura efervescente e perene, com a cara do Brasil. Encontramos ritmos que iam do funk ao carimbó, e palavras que iam do cordel à literatura marginal. Subvertemos o significado de riqueza, descobrimos que esta não existe sem diversidade, e que por assim dizer: não há riqueza sem Brasil.

Para viajarmos ao exato momento da ruptura dessa crescente, teríamos de saber onde e quando exatamente ela aconteceu. Nós que aqui escrevemos ainda vivemos esse processo, e guardamos para as gerações futuras a missão de refletir e repensar meios de não deixar que isso aconteça novamente. O fato é que em meados de 2016 houve um golpe de estado no Brasil, Dilma é deposta e seu vice Michel Temer assume a presidência. Sua primeira ação, e nada mais simbólico que isso, foi extinguir o Ministério da Cultura, o que gerou revolta generalizada no meio artístico brasileiro e como efeito colateral, grandes ocupações nos MINCs Brasil afora começam a acontecer. Foi através de muita pressão popular que brevemente resgatamos a existência do Ministério da Cultura. 2018 chega e com ele novas eleições, mas já era tarde. Quando percebemos que o tecido social havia mudado drasticamente, elegemos Bolsonaro. Um presidente sem projeto algum para o país, para o povo e para com o legado artístico e cultural irreverente que temos no mundo. Nesse momento o Ministério da Cultura transforma-se em Secretaria Especial e vive um sucateamento desde então, que gradativamente acaba com projetos visionários antes idealizados.

O primeiro escândalo na Secretaria foi o fatídico vídeo de seu porta-voz, Roberto Alvim. Através de uma escolha estética característica do período nazista ele apresenta a sua visão de cultura, única e exclusiva, que em nada fazia referência ao Brasil, e condenava tudo que destoasse dessa cartilha. O governo rapidamente o retira e para encobrir a polêmica anuncia o nome de Regina Duarte. Não demora muito e em uma entrevista concedida à um grande veículo de comunicação ela faz pouco caso das mortes do período da ditadura, e ao gerar mais uma polêmica para a conta do governo, também é descartada. Chegamos ao terceiro e atual porta-voz Mario Frias, conhecido por interpretar alguns galãs na TV, mas que também não apresenta projeto algum para o setor.

Desgastados e enfraquecidos chegamos à 2020, não bastasse a imensidão dessa crise identitária no país, o mundo como um todo é surpreendido por uma pandemia que nos devasta mais a cada momento. O primeiro setor a ser afetado pelas mudanças necessárias na contenção do coronavírus foi o Cultural, e será o último a enxergar perspectivas de pleno funcionamento. O horror foi naturalizado e saídas não foram apresentadas. Mas então um respiro. Imensurável a energia envolta na maior conquista deste período, a Lei Aldir Blanc de relatoria da Deputada Federal pelo PCdoB/RJ Jandira Feghali, que prevê assistência mensal para artistas, coletivos e trabalhadores da cultura enquanto dure a pandemia, utiliza-se de recursos oriundos do Fundo Nacional de Cultura e passou pela aprovação do Congresso Nacional, do Senado Federal e através de – mais uma vez – ampla mobilização e pressão popular, pelo Presidente da República. Agora precisamos de cada um e cada uma, para garantir que os recursos cumpram sua função. Eis que aqui chegamos, e nesse ponto algo importante deve ser trazido: se existe um esfarelamento de direitos em curso, é curioso que somente o setor mais afetado, mais desassistido, mais negligenciado enquanto gerador de renda e emprego, tenha sido o único capaz de efetivar a aclamada – e necessária – unidade. Não há mais espaço para estratégias que não coloquem a Cultura no centro, e mais uma vez somente a arte foi capaz de manejar o quebra-cabeça dos egos.

Quando falamos que cabe às gerações futuras a reflexão constante quanto às lutas que estamos travando hoje, é porque entendemos que sem esse exercício nada somos. Se o CUCA possui a irreverência e gingado para se reinventar a cada novo passo e desafio, é porque percorre e conhece, conhece porque percorre, a estrada longa e sinuosa trilhada por tantos pés que vieram antes dos nossos. Carregamos em nossa história a sobrevivência nata. Não andamos só, não começamos ontem e já sobrevivemos uma vez. Que venham as novas ferramentas e tecnologias. Interfaces, roupagens e linguagens. O momento é difícil, sabemos. Exige coragem, criatividade e determinação, que o CUCA da UNE tem de sobra. Seguimos na luta, o Brasil, a arte e a cultura valem a pena.

*Manuella Mirella é diretora de Cultura da UNE e Coordenadora-Geral do CUCA.