Abertura da mostra de Artes Visuais apresentou os 34 trabalhos selecionados com abordagens urgentes do atual cenário de retrocessos no país

A seleção das obras inscritas na mostra de artes visuais da 11ª Bienal dos Estudantes, que acontece até 10 de fevereiro, na Universidade Federal da Bahia (UFBA) em Salvador, foi apresentada ao público pela primeira vez na noite da última quinta-feira (6), com a presença do homenageado Paulo Bruscky, do ex-coordenador do Cuca Luís Parras e do fotógrafo Bruno Bou em uma grande roda de conversa sobre as diferentes gerações das artes no movimento estudantil e da cultura no Brasil.

A estreia foi bastante apreciada pelos estudantes e abordou temas caros ao atual contexto político nacional, a exemplo da resistência necessária frente aos discursos de ódio e preconceito que parecem levar o país novamente para 1964.

”Chegou uma fase em que eu saia de casa e tinham dois homens do exército na minha porta. Quando eu chegava no trabalho, os mesmos homens já estavam lá me vigiando. Um dia me reuni com amigos e falei que se acontecesse um acidente, seria na verdade algo planejado para a minha morte”, contou o pernambucano Paulo Bruscky, que, durante a ditadura, foi duramente perseguido pelo seu trabalho com arte conceitual e por grafitar muros expondo a inconformação com o regime.

Inconformação, aliás, que esteve estampada nos 34 trabalhos selecionados para a mostra. Nas fotografias, instalações, intervenções e pinturas, o que se viu foi a exposição de temas historicamente relegados: religiões de matriz africana, relacionamentos homoafetivos, questões raciais e da mulher.

Para a coordenadora da mostra Rebeca Belchior ver a exposição finalmente montada é motivo de enorme orgulho. ”Trabalhamos muito para construir essa Bienal num momento muito difícil do nosso país, sem investimento na cultura, sem investimento na educação e com a criminalização dos movimentos sociais e estudantis cada vez mais latente. Por isso, ver essa exposição aqui é um sonho realizado. Foram muitos perrengues, mas a gente conseguiu realizar tudo o que a gente se propôs. É um filho nascendo”, brincou.

Laboratório de ideias

Pâmela Couto, estudante da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) foi uma das selecionadas com sua intervenção urbana intitulada ”Ouvidoria”. A obra consiste em diversos moldes de orelhas humanas espalhados por muros, ou por uma tela, no caso da exposição.

”Tive a ideia dessa obra ao escutar uma frase de um desconhecido nas ruas de Porto Alegre. ”Eu me drogo porque ninguém me escuta”, ele disse. Fiquei pensando muito tempo sobre isso e então resolvi fazer a obra por refletir na falta de escuta que a gente percebe no ambiente urbano”, explicou.

A estudante Carol Machado da Universidade Estadual de Santa Catarina (Unesc) também teve sua obra selecionada. A intervenção urbana ainda sem título tem feito sucesso na Bienal por seu caráter feminista, o que deixou a autora ainda mais orgulhosa.

”É muito bom poder expor meu trabalho e ver o clima, estudantes de todo o Brasil unidos prestando atenção nesse tema tão importante que é o da mulher. A Bienal me parece um grande laboratório de ideias”, disse.