Um encontro entre arte marginal, ancestralidade e expressão cotidiana
A Mostra de Artes Visuais da 14ª Bienal da UNE vai expandir o conceito de arte para muito além do que está nas galerias, ou mesmo o imaginado como ‘arte de rua’, uma vez que o tema desta edição do festival é “A rua é nosso palco principal”.
As 34 obras selecionadas estarão expostas de 30 de Janeiro a 01 de Fevereiro no Hall do Teatro Guararapes, no Centro de Convenções de Pernambuco, em Olinda.
São instalações, muitas colagens, pinturas, artes digitais, e outras expressões criativas. “Algumas coisas bem curiosas que foram até difíceis de classificar”, destaca a estudante de Artes da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) Beatriz Pires, que divide a coordenação da Mostra com Renan Couto, estudante de Ciências Sociais da Universidade Federal de Fronteira Sul (UFFS).
Para eles, os trabalhos selecionados têm muito de arte marginal, com obras que falam sobre pessoas que marcaram determinados territórios e ancestralidade como, por exemplo, o trabalho do estudante da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) Jamile Macedo que traz uma perspectiva muito diferente do orixá Exú. Ou a arte digital do estudante da Universidade Federal do Pará (UFPA) Jacks da Silva que traz uma ressignificação das lendas do Norte com personagens do universo queer.
A proposta de provocação dos coordenadores foi estender como arte visual a expressão individual e cotidiana das pessoas também. Para a dupla, o cabelo, as roupas, do comum ao subversivo, é uma forma de expressão que conecta as pessoas à rua, espaço universal e democrático onde ocorre a transgressão, o movimento e a disputa estética pelos espaços. ”Entender essa questão da estética como parte desse enfrentamento e expressão das artes visuais também, e a partir disso nos conectarmos com temas como ancestralidade e a sua relação com a tecnologia”, explicou Renan.
Homenagem a Tamikuã Txihi
A homenageada desta edição é Tamikuã Txihi, artista indígena do povo Pataxó. Multiartista, curadora e ativista, Tamikuã utiliza a arte como instrumento de luta em defesa dos povos originários. Para os coordenadores, ela representa tudo o que a Mostra busca provocar, apontar e comunicar.
Toda a Mostra de Artes Visuais, da Vernissage às Mostras convidadas, terão relação com o trabalho e a luta dela, Tamikuã é descrita como uma inspiração para o futuro no campo das artes visuais e para o Brasil. Uma de suas frases ilustra bem sua visão: “A arte são os novos arcos e flechas que vão lançar os sonhos da humanidade no futuro.”
Democratizando a Arte Visual
Uma das referências conceituais da coordenação é a obra “Os Parangolés”, de Hélio Oiticica, que transforma pessoas em obras de arte vivas. Renan destaca: “As ruas têm o papel de comunicar e as pessoas podem ser, em si mesmas, esse enfrentamento e essa comunicação.”
Beatriz conclui com entusiasmo: “Para nós, todas as linguagens se encontram aqui na Arte Visual. É uma honra apresentar esse debate para o público.”
Mostras Convidadas
Além da seleção principal, duas mostras especiais complementam o evento:
Dayana Molina, estilista da marca Nalimo, apresenta seu trabalho com o tema “Brasil Terra Indígena”, desenvolvido para o Homem da Meia-Noite no carnaval de 2024;
Francisco Mesquita, historiador e artista plástico, utiliza papelão e materiais reciclados para criar narrativas visuais que retratam a vida nas periferias.
Vivências e Oficinas
Confecção de La Ursa (30/01 e 31/01 10h-12h, Foyer do Teatro Beberibe): Criação de máscaras de rosto em papel machê, resgatando tradições populares.
Moda Subversiva (31/01, 14h-16h, Sala Petrolândia): Oficina com Abrós Barros e Yuriel Santos, transformando roupas de brechó em manifestos visuais.
Debate: Arte Pública e Democracia No dia 30 de janeiro, às 14h, no Teatro Ribeira, acontece o debate “Arte pública e democracia: quem decide o espaço visual das ruas?”, com participações de Tamikuã Txihi, Dayana Molina e Mauro Marley (Marleyducorte), artista capilar.
Serviço
Mostra de Artes Visuais: 30/01 a 01/02, Hall do Teatro Guararapes, Centro de Convenções de Pernambuco.
Vernissage: 30/01, 12h-14h, Vão externo do Centro de Convenções.
Debate: 30/01, 14h, Teatro Ribeira.
*Por Cristiane Tada