No dia da Visibilidade Trans, 29 de Janeiro, os diretores da UNE Nay Aviz e Lê Magalhães falam sobre a luta de reparação ao histórico transfóbico do Brasil. Leia o artigo:

Visibilidade. Substantivo feminino. Qualidade ou estado do que é visível. Para as pessoas trans, por muito tempo, foi a manchete do jornal que indicava um assassinato com resquícios de crueldade, a esquina da rua pouco iluminada, ou o subemprego em salões de beleza. Hoje, queremos que essa palavra tenha outro significado. Queremos falar de existência, de acesso, de direito e de decisão política em todos os espaços. Hoje, a ordem do dia precisa ser direta: cotas trans já nas universidades brasileiras. Quando olhamos para os dados, fica evidente que o ensino superior nunca foi pensado para nós. Dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) indicam que mais de 70% das pessoas trans não concluíram o ensino médio, e uma parcela muito pequena consegue acessar o ensino superior. Não por falta de capacidade, mas porque a transfobia expulsa, adoece e mata sonhos desde cedo. A escola que violenta, a família que não acolhe, o mercado de trabalho que fecha portas. Tudo isso constrói um funil que nos impede de chegar à “inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”, conforme prevê a Constituição Federal.

Falar em cotas trans não é criar privilégios, é reconhecer desigualdades estruturais e construir respostas concretas para superá-las. Assim como as políticas de ações afirmativas raciais e sociais que transformaram o perfil das universidades brasileiras ao longo das últimas décadas, as cotas trans são um passo necessário para que o ensino superior deixe de ser um espaço sistematicamente inacessível para travestis, homens e mulheres trans, transmasculinos, transfemininas e pessoas não binárias. E é preciso estar atento e forte. 38 são as universidades brasileiras que até então aprovaram as cotas trans para a graduação, mas não sem resistência. Nas assembleias legislativas, nos tribunais e dentro das universidades, o conservadorismo reage às recentes conquistas porque não consegue conviver com o avanço na democratização do ensino. E a história já nos avisava: as cotas étnico-raciais não foram conquistadas sem antagonismo; sem as queixas daqueles que rejeitavam o papel de opressões estruturais como o racismo e a transfobia como firmes obstáculos para conquistar um diploma. Nós aprendemos com o movimento negro. Nós aprendemos com a UNE e a luta estudantil. Foi preciso defender com unhas e dentes (e dentro dos receios do próprio movimento estudantil) que as cotas étnico-raciais poderiam transformar estruturas, que elas faziam parte da reparação histórica com um passado de opressões. Foi preciso vencer cortinas de fumaça daqueles que diziam que somente a renda justificava uma reserva de vaga, enquanto pessoas negras da classe trabalhadora continuavam do lado de fora do ensino superior. Foi preciso desmentir falsas
polêmicas sobre índices de fraudes que até hoje são pequenos se comparados a quantidade de vidas que mudaram com a política de cotas. Foi preciso eleger um presidente negro da UNE, aproximar o debate estudantil dos movimentos sociais que estavam fora da universidade. É esse percurso que queremos percorrer rumo às cotas trans. Vencer barreiras ideológicas, com a disputa de ideias por uma educação que seja para todas as pessoas.

E queremos as cotas trans com um robusto conteúdo político. Queremos pela reparação ao histórico transfóbico do Brasil, pelos dados alarmantes que foram mencionados, mas também queremos porque é preciso que a ciência e o ensino sejam vistos através dos nossos olhos. Porque a cara das universidades brasileiras também deve ser trans e travesti. Porque nossa perspectiva de mundo também conta. Queremos porque diante do crescimento da extrema-direita que nos elege como alvo, reafirmar o papel da universidade como uma instituição social que defende a democracia, a diversidade e nossas vidas é uma vitória política no combate aos agentes do neofascismo. Queremos cotas trans que respeitem a diversidade das identidades trans. Cotas trans que abram portas para uma política de permanência estudantil nas universidades. Com direito ao nosso nome, assistência estudantil, acompanhamento social, letramento de gênero entre professores e servidores. Cotas trans que fortaleçam nos cursinhos populares, na EJA e nas escolas o combate à transfobia. Queremos cotas trans que amplifiquem o debate de gênero, raça e classe no ensino superior.

Se houve um tempo em que as discussões sobre nossas vidas somente chegavam como lei a ser seguida, hoje sentamos à mesa para formulá-la. Prova disso é a histórica atual gestão da UNE que, pela primeira vez, conta com pessoas trans em sua direção executiva; além da maior quantidade de pessoas trans na diretoria plena da história. Para nós, esse é um marco fundamental que prova cada vez mais que nossa comunidade segue, não apenas representando um setor, mas dirigindo projetos de toda juventude brasileira. Com a mesma força das traviarcas que um dia ocuparam o Congresso Nacional para lutar por mais
dignidade para pessoas trans e para afirmar que já estava na hora de Travesti e Respeito serem vistos juntos, hoje seguimos ocupando as ruas, universidades, casas legislativas, e a própria UNE para reivindicar um projeto de educação que pense as pessoas trans.

A ordem do dia está posta, e seguiremos lutando para que os Conselhos Universitários deliberem, o Congresso Nacional paute e o Estado assuma sua responsabilidade. Seguimos lutando por uma visibilidade trans que, de fato, nos caiba e dê conta da nossa grandeza!

* Nay Aviz é diretora e de Movimentos Sociais da UNE e Lê Magalhães é diretor de Políticas Públicas e Acesso à Universidade da UNE.