Leia o artigo da presidenta da UNE no dia do aniversário da entidade, 11 de agosto, data em que comemoramos também o Dia do Estudante

“Eu espero a festa do mundo

mas também eu a construo

anônimo entre tantos mas ligado a todos

porque a festa do mundo que vai chegar

é a festa da manhã geral.”

Honestino Guimarães

O 11 de Agosto nunca foi apenas uma data no calendário. É Dia do Estudante, marco da criação dos primeiros cursos superiores do Brasil, aniversário da Organização Continental Latino-Americana e Caribenha dos Estudantes (OCLAE) e, há 89 anos, é também o dia em que celebramos a história da União Nacional dos Estudantes.

Celebrar a UNE é celebrar uma história que nunca coube apenas dentro das salas de aula. Uma história que se entrelaça às grandes lutas do povo brasileiro e atravessa gerações porque, em cada uma delas, os estudantes compreenderam os desafios do seu tempo e escolheram tomar posição diante da história.

Foi assim quando a juventude brasileira ocupou as ruas contra o nazifascismo. Foi assim na campanha “O Petróleo é Nosso”, na resistência à ditadura militar, na luta pela Anistia e nas Diretas Já. Foi assim no Fora Collor, na resistência às privatizações dos anos 1990, nas grandes jornadas em defesa da educação, no Tsunami da Educação e na defesa da democracia diante daqueles que tentaram destruí-la.

Ao longo dessa trajetória, o movimento estudantil brasileiro aprendeu que defender a educação é também disputar os rumos do Brasil.

Não existe educação emancipadora sem soberania nacional. Não existe educação democrática em uma sociedade marcada por desigualdades tão profundas. E não existe futuro para a juventude sem democracia, direitos e um projeto de país capaz de colocar as necessidades do povo acima dos interesses do mercado.

Foi com muita luta que transformamos as universidades brasileiras. Abrimos suas portas para milhões de jovens que, durante séculos, foram impedidos até mesmo de sonhar com esse espaço. Hoje, nossas universidades têm mais a cara do Brasil: são mais negras, indígenas, femininas, periféricas e populares.

Essa transformação está entre as maiores conquistas das últimas gerações. Mas sabemos que democratizar o acesso não basta se não garantirmos condições para permanecer, estudar e se formar.

Por isso, nossa luta continua.

Por mais investimentos nas universidades públicas e na assistência estudantil. Por restaurantes universitários, moradia, bolsas e condições dignas para que nenhum estudante precise abandonar seu curso porque não tem dinheiro para comer, morar ou chegar à universidade.

Também é nossa tarefa enfrentar a desnacionalização e a mercantilização do ensino superior privado e garantir que a educação seja tratada como direito, e não como mercadoria. Construir uma reforma universitária popular e transformadora, capaz de derrubar os muros que ainda separam a universidade do povo, integrar ensino, pesquisa e extensão, enfrentar todas as formas de opressão e colocar a produção de ciência, tecnologia, cultura e conhecimento a serviço dos grandes problemas nacionais.

Porque a educação nunca foi, para nós, apenas uma ferramenta de ascensão individual – ainda que seja fundamental para romper desigualdades. É parte imprescindível do projeto de país que defendemos.

Anísio Teixeira enunciou como poucos que não há democracia plena sem uma educação capaz de formar um povo livre. Essa tarefa permanece profundamente contemporânea: colocar a educação no centro do desenvolvimento nacional é também escolher que Brasil queremos construir.

Um Brasil soberano precisa produzir sua própria ciência e tecnologia, valorizar seus pesquisadores, proteger suas riquezas, reindustrializar sua economia e oferecer oportunidades para que sua juventude possa construir aqui o futuro que deseja viver. Educação, desenvolvimento e soberania são partes inseparáveis de um mesmo horizonte.

É esse futuro que atravessa gerações e que agora cabe à nossa construir.

Nossa geração tem diante de si a tarefa de enfrentar uma extrema-direita que transforma o ódio em projeto político, defender a democracia das ameaças autoritárias, impedir retrocessos e devolver perspectiva a uma juventude que tem direito a muito mais do que precarização e ausência de futuro.

Há 89 anos, cada geração encontra a UNE que recebeu e constrói a UNE que seu tempo exige.

Foi assim com aqueles que vieram antes de nós. É assim conosco. E será assim com aqueles que virão depois.

Como escreveu Honestino, que sigamos construindo a festa do mundo.

A UNE não é apenas aquilo que já fizemos. É aquilo que ainda somos capazes de fazer.

A luta por um Brasil soberano e democrático sempre nos uniu.

E até hoje nos UNE.

*Bianca Borges é presidenta da União Nacional dos Estudantes.