Diretor de Políticas Educacionais da UNE, Diego Ferreira, fala sobre a necessidade de reinstalação da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos e ações de preservação da memória. Leia o artigo:
No dia 31 de março de 1964, o Brasil foi palco de um dos momentos mais sombrios de sua história: o golpe empresarial-militar que derrubou João Goulart. Esse evento marcou o início de uma ditadura que durou 21 anos, deixando um legado de repressão, censura e violações dos direitos humanos. Sob uma falsa justificativa de conter a ameaça comunista e garantir a ordem e a estabilidade do país, o tempo deixou nítido que o verdadeiro objetivo dos militares era consolidar seu poder no sistema. Além dos nossos que foram vítimas, o país passou por um período de desenvolvimento econômico desigual, com políticas que privilegiavam os interesses das elites e deixavam de lado as necessidades da maioria da população. Grandes obras foram realizadas, mas muitas vezes à custa de deslocamentos forçados de comunidades e devastação ambiental.
Passados 60 anos do início do golpe, tivemos algumas políticas públicas de memória, com mais ênfase na reparação econômica e de forma mais tímida as que preservam a verdade sobre o debate social, fazendo com que muito desse período fosse se perdendo com o passar do tempo. Fato é que as políticas públicas de memória têm um impacto transformador na construção de uma cultura de respeito aos direitos humanos e na promoção da justiça social. Ao reconhecer e confrontar os erros do passado, as sociedades podem fortalecer seus valores democráticos e criar um ambiente propício para a defesa dos direitos de todos os cidadãos.
No Brasil, um dos tímidos avanços foi a instalação da Comissão Nacional da Verdade, em 2011, que teve um papel crucial na preservação da verdade histórica, que por muitos anos esteve sob ataque na tentativa de manipulação da memória coletiva. As vítimas que por muitos anos foram silenciadas puderam ter suas histórias narradas por si mesmo, sem distorções e revisionismos. Acontece que a memória não é apenas um fenômeno individual, mas também é moldada e influenciada por nossa interação com os grupos sociais dos quais fazemos parte, segundo o sociólogo Maurice Halbwachs.
Portanto, é preciso avançar cada vez mais na aplicação de políticas que sejam capazes de deixar viva a verdade e preservar a história de uma ferida ainda aberta no país. Muito do discurso que escutamos nos últimos 6 anos de defesa dos militares, de seu regime, de ataques à democracia e da tentativa de golpe no dia 8 de janeiro de 2023, é fruto de uma impunidade pública aos golpistas, torturadores e assassinos do passado e do presente.
Temos a importante tarefa no próximo período de dar voz aos nossos que se foram. É tarefa central da juventude manter viva a memória de Idalísio Aranha, Osvaldão, Helenira Resende, Dr. Juca, Telma Regina, Maurício Grabois, Dinalva Oliveira e tantos outros que deram suas vidas por este país. Não é hora de nos acovardarmos, não poderá ser a nossa geração responsável por cometer os mesmos erros do passado e apenas cobrir com a peneira a ferida aberta de um sombrio período no Brasil; devemos ser nós a jogar luz sobre ele e ajudar em sua cicatrização. Por isso, é necessário a reivindicação pela reinstalação da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, e a criação de outras políticas públicas de preservação da memória, como museus da resistência.
*Diego Carlos Ferreira é diretor de Políticas Educacionais da UNE e estudante de História da UFV.