Leia o artigo da presidenta da UNE, Bianca Borges, sobre os 88 anos de aniversário da entidade:
O 11 de Agosto é muito mais que uma data no calendário. Marca, desde 1827, a criação dos primeiros cursos jurídicos no Brasil e, com eles, o surgimento do ensino superior em nosso país. É também o Dia do Estudante e, em 2025, a data de celebração dos 88 anos da União Nacional dos Estudantes (UNE), entidade que nasceu das lutas populares e foi trincheira em todas as grandes batalhas da nossa história.
Neste dia, celebramos não apenas a memória, mas a responsabilidade de continuar escrevendo, com as próprias mãos, os próximos capítulos da luta por um Brasil justo, democrático e soberano.
Vive em 11 de Agosto a lembrança de Edson Luís, estudante secundarista assassinado pela ditadura militar em 1968, dentro do restaurante estudantil Calabouço, no Rio de Janeiro, lutando por comida no prato e dignidade para estudar. Sua morte escancarou a brutalidade do regime e sua imagem se tornou símbolo da resistência estudantil. “Mataram um estudante, podia ser seu filho”, é a frase que ecoou pelas ruas e atravessou gerações.
Desde sua fundação, a UNE esteve ao lado do povo brasileiro contra o nazifascismo, na resistência à ditadura, nas Diretas Já, no Fora Collor, contra as privatizações dos anos 1990 e, mais recentemente, nas mobilizações contra o golpe de 2016, nos protestos contra Temer e Bolsonaro, no Tsunami da Educação e na virada histórica de 2022, que derrotou Bolsonaro nas urnas e abriu caminho para a reconstrução do país. A UNE é protagonista da construção do Brasil do futuro. E não há futuro sem democracia, sem soberania e sem educação.
Mais do que uma ferramenta de ascensão individual, a educação é um pilar estratégico de um projeto nacional. Nenhum país é verdadeiramente soberano se seu povo é privado do acesso ao conhecimento, à ciência, à cultura e ao pensamento crítico. Um Brasil que valorize seus pesquisadores, fortaleça suas universidades e garanta oportunidades para seus talentos será capaz de definir, com autonomia, o próprio caminho. A defesa de uma educação de qualidade é, portanto, parte inseparável da construção de um projeto nacional soberano. Só um povo consciente da sua história pode decidir os rumos do seu futuro.
Foi com muita luta que avançamos na democratização do acesso ao ensino superior. As universidades passaram a ter a cara do povo: com mais mulheres, negros e negras, indígenas, quilombolas e cidadãos da periferia, do campo e de baixa renda. Mas, se muito vale o que já foi feito, mais vale o que ainda será. A educação pública, hoje, é asfixiada por uma política econômica que coloca os lucros acima da vida, subordina os direitos sociais ao mercado e estrangula o futuro. Na educação privada, os interesses empresariais também se impõem sobre a qualidade.
Por isso, lutamos pela regulamentação do ensino superior privado e pela retirada imediata da educação do arcabouço fiscal, que inviabiliza investimentos, paralisa obras e compromete a permanência estudantil. Queremos uma política econômica que priorize os direitos do povo, financiada por medidas como a taxação dos super-ricos, proposta que levamos às ruas por meio do Plebiscito Popular, projeto que estamos construindo com estudantes, trabalhadores e movimentos sociais em prol da justiça tributária e justiça social.
Para enfrentar esse cenário, é preciso aprofundar o papel das universidades como instituições comprometidas com a transformação do país. Como defendia Anísio Teixeira, baiano e gigante do pensamento educacional, a educação deve ser instrumento de emancipação e de construção da democracia. Por isso, defendemos uma reforma universitária popular e transformadora: que integre ensino, pesquisa e extensão; que derrube os muros entre a academia e o povo; que amplie o acesso, valorize a diversidade e garanta cotas trans; que enfrente as opressões; que sirva ao Brasil e não ao mercado.
Nossa luta por uma nova universidade é inseparável do combate à extrema-direita e ao imperialismo. A educação que defendemos não será construída se o Brasil for submisso a interesses estrangeiros. Hoje, diante dos ataques econômicos de Donald Trump ao Brasil e do sequestro do Congresso Nacional por uma extrema-direita que chantageia o povo e impede avanços, reafirmamos: soberania não se negocia. Não aceitaremos anistia para Bolsonaro nem para os golpistas do 8 de janeiro, que devem pagar por sua tentativa violenta de abolir a democracia.
É por isso que não nos calamos. Neste 11 de Agosto, ocupamos as ruas e as salas de aula para dizer que o Brasil precisa de soberania, investimento público e educação de qualidade. A juventude que ontem enfrentou tanques e ditadores é a mesma que hoje enfrenta a guerra silenciosa das big techs, o autoritarismo de quem se julga dono do mundo e a desigualdade que condena milhões ao abandono.
Enquanto a extrema-direita internacionaliza a guerra, nós internacionalizamos a esperança. Uma esperança que nasce da juventude, dos estudantes, das favelas, das quebradas e do interior do país. Uma esperança que resiste, que sonha e que transforma.
E já olhamos adiante. No 7 de Setembro, Dia da Independência, vamos novamente às ruas mostrar quem são os verdadeiros defensores da pátria: os que defendem o povo brasileiro, a democracia e a soberania nacional. Contra o entreguismo, contra o golpismo e contra o Tarifaço de Trump: é hora de ocupar as ruas por um novo projeto de país.
Seguimos movidos por profundo amor ao Brasil e pela certeza de que não há futuro sem educação de qualidade e a serviço do povo. Seguimos em frente para radicalizar a democracia, construir justiça social e pintar este país com as cores da esperança.
A história já provou e o futuro exige: quando os estudantes ocupam as ruas, o Brasil avança.
*Bianca Borges é presidenta da União Nacional dos Estudantes.