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IBIÚNA GUARDA MARCAS DO 30º CONGRESSO CLANDESTINO DA UNE CONTRA A DITADURA

 Ibiúna, que completa hoje 158 anos, é uma das cidades que estão na história recente do Brasil. Foi lá, na Fazenda Mucuru, no bairro de Apiaí, na estrada que liga o centro da cidade à Cachoeira da Fumaça, que ocorreu o trigésimo congresso clandestino da União Nacional dos Estudantes (UNE). Naquele 12 de outubro de 1968, cerca de mil estudantes, que participaram do movimento contra a ditadura, foram presos.

Depois de 46 anos daquele fato histórico, algumas lembranças ainda vivem na cidade e na memória de quem participou do congresso de alguma forma, como o ex-estudante Osvaldo Francisco Noce, 71 anos, preso naquela data; o ex-jornalista do Cruzeiro do Sul, José Carlos Amaral, 72, que informou com exclusividade o local onde seria realizado o encontro e presenciou as prisões dos estudantes; e o ex-sargento da Polícia Militar de Ibiúna, Benedito de Paulo Pacheco, 84, que participou da operação. Na praça da Matriz há um monumento com o nome de parte dos estudantes presos e a fazenda virou uma residência.

O congresso

 Por causa do regime militar, as reuniões da UNE estavam proibidas e o 30º congresso seria realizado de forma clandestina. Segundo o ex-estudante Osvaldo Francisco Noce, alguns líderes do movimento estudantil gostariam que o congresso fosse realizado no Crusp (conjunto residencial da Universidade de São Paulo (USP), mas a maioria votou para que a sede fosse num sítio afastado, no interior de São Paulo. “Eu desconfiava (que poderia ser descoberto) porque ninguém esconde mil, mil e duzentas pessoas em um lugar como aquele”, disse.

A descoberta

A presença dos estudantes em Ibiúna, que na época tinha cerca de seis mil habitantes, logo foi percebida. “Eles (os estudantes) que chamaram a atenção. Eles esgotaram tudo que tinha no comércio: não tinha pão, chocolate, nada. Eles compraram tudo”, contou o ex-sargento Pacheco. A versão do policial é reforçada pelo ex-estudante. “Um pessoal mais desavisado ia ao centro de Ibiúna e pedia mil pães na panificadora, o movimento naquelas rodovias era anormal. Foi por aí que nós fomos denunciados.”

Essas mesmas informações chegaram ao jornalista José Carlos Amaral, que dias antes do congresso foi fazer uma reportagem em Ibiúna sobre abrigo de crianças. “Conversei com uma senhora, que sabia tudo de Ibiúna. Zulmira era o nome dela”, recordou. “Naquele tempo você tinha que tomar o máximo de cuidado. Telefone, nem pensar. Então, eu disse para ela que se faltasse algo na cidade, como carne e pão, era para ela pegar um ônibus na cidade e ir para Sorocaba para conversar comigo, sem passar nada por telefone. Todo cuidado era pouco. Aí, de repente, começou a faltar até escova de dente. Era um plano tão português. Começou a chegar gente de todos os cantos e ela falou para mim. Vieram do Brasil todo, até da América Latina”, afirmou.

Invasão

Com essas informações, os batalhões da PM de Sorocaba e Ibiúna e o Departamento de Ordem Política e Social (Dops) trabalharam para invadir a Fazenda Mucuru.

O jornalista conta que ligou para o coronel da PM de Sorocaba, Divo Barsotti, para falar sobre o congresso. “Eu falei: Quando vamos prender os estudantes?” E ele: “pelo amor de Deus, desliga isso aí”, disse rindo. “Ele tinha a informação de que eram de 400 estudantes. Ele mandou eu desligar o telefone e dez minutos depois, veio um japonês, que era o capitão de relações públicas dele, o capitão Qiochi. Estava na porta do Cruzeiro, ele disse que o coronel queria falar comigo e eu falei que não queria falar com ele. Ele (Qiochi) disse para eu levá-lo com ele e eu fui para Ibiúna”, relatou.

Pensando que estavam apenas 400 pessoas na Fazenda, o coronel requisitou apenas dez ônibus. Mas, ao chegar ao local, percebeu que o número era superior e brigou com os chefes do Dops. “Ele começou a xingar o pessoal do Dops: “vocês tem um serviço de espionagem que é uma merda, tem mais de mil moleques aqui”. Chamou o Qiochi e pediu para que ele providenciasse mais 80 ônibus e meteu a boca no Dops. Ele podia”, recordou o jornalista.

Este não foi o único erro dos policiais. “Estava aquela movimentação danada e eu falei para o coronel (Divo) Barsotti, que comandava a tropa de Sorocaba: “coronel, e a delegacia fica sem ninguém?”. Ele: “você lembrou bem, fica com 30 homens aí”. Aí eu fiquei e voltei lá no dia seguinte”, contou o ex-sargento Pacheco.

Com os novos ônibus requisitados nas estradas, os policiais cercaram a fazenda, deram tiros de metralhadoras para o alto e prenderam os estudantes. “Fomos preso, tivemos que caminhar até a estrada, alugaram ônibus para levar a gente”, relembrou Noce.

Entre os presos, estavam os líderes do movimento: José Dirceu, presidente da UEE, Luís Travassos, presidente da UNE, e Vladimir Ribas, presidente da União Paulista de Estudantes Secundários.

As prisões

Os estudantes foram levados de ônibus até o Presídio Tiradentes e depois foram transferidos para o Carandiru. “Era uma prisão light. Não havia o que hoje acontece nas prisões. As lideranças foram separadas: Zé Dirceu e Travassos. Nós em bloco, mais a liderança média, fomos todos para o Carandiru. Primeiro, o presídio Tiradentes, que não deu certo porque não tinha acomodações suficientes. Nós nos rebelamos lá e as famílias também. E mudaram a gente pro Carandiru, onde tinham acomodações. Fiquei quase um mês lá”, contou o ex-estudante.

O jornalista José Carlos acompanhou as prisões e presenciou um fato curioso. “Lá na prisão aconteciam coisas engraçadas. Tinha um moleque cabeludo de Bauru com uma empregada que parecia desenho animado. Essa mulher estava esbofeteando o menino cabeludo: “festinha de aniversário, né, seu vagabundo? Você me botou na cadeia”, dizia enquanto batia nele. Pediram para ela parar de bater. Era empregada da mãe dele e o estudante disse para a mãe que ele estava viajando para uma festa de confraternização”, relembrou.

O dia seguinte

O sargento Pacheco, que ficou cuidando da delegacia de Ibiúna durante a operação, foi ao local no dia seguinte para recolher os objetos. “Coube a mim a tarefa de voltar lá no sítio e fazer a coleta de materiais. Coletei bastante coisas: livros, panfletos, material cirúrgico, camisinhas. Requisitei um caminhão”, contou.

Além destes materiais, Pacheco conta que foram encontrados dólares na fazenda. “Choveu muito no sertão e eu pisei numa terra solta, quando eu ia adivinhar que eu estava pisando no que eu estava pisando?”, disse. “Escaparam dois estudantes e voltaram depois. Eles desenterraram um saco plástico e falaram: “os trouxas não acharam isso”. Era dinheiro de Cuba. Mas não posso provar nada (que era de Cuba). Mas a continuidade eu não sei”, complementou.

Hoje

Quem vai para Ibiúna com o objetivo de encontrar lembranças do 30º congresso clandestino da UNE, vê um monumento na praça da matriz com nomes de alguns estudantes que participaram do movimento e uma breve história contada. A fazenda Mucuru é ocupada por uma família, que não estava quando a reportagem visitou o local, e não há indicações que orientem que foi ali foi “realizado o congresso que não aconteceu.”

Do Jornal Cruzeiro do Sul 

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