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“Sangrando uma vez por dia e nascendo de novo””

Bruna

Confira artigo da diretora de Mulheres da UNE, Bruna Rocha, especial para o dia 08 de março 

“Liberdade é não ter medo”. Todos os dias, repito esta frase para mim mesma como um mantra, para enfrentar o mundo de violências e a permanente batalhas de valores que dá sentido à construção de um novo mundo. Um mundo livre do machismo, do racismo, da lgbtfobia, das injustiças sociais e de todos os equívocos que estruturam o modus operandi da sociedade capitalista. A frase é de uma das mais impactantes mulheres que atravessaram meu caminho: Nina Simone, mulher negra que passou por todas as dificuldades e contradições de todas as mulheres que conheci e me fizeram ser quem sou.

Nina viveu a loucura que era ter muita lucidez de seu papel político e todo o peso de sua trajetória enquanto ferramenta da identidade coletiva de um povo. Nina viveu a dor de ser mãe e não conseguir isentar sua filha de suas próprias dores. Nina viveu a prisão de amar perdidamente o homem que acabou com sua subjetividade e autonomia. Nina sangrou, sorriu, anestesiou milhões de corações com seu timbre inconfundível e sua alma revolucionária.

A história de Nina se confunde com a de muitas mulheres pelo mundo. Se confunde com a resistência de Berta Cáceres, líder indígena assassinada em Honduras na semana passada apenas por ser uma lutadora feminista por um novo modelo de desenvolvimento; se confunde com Cláudia Ferreira, arrastada por uma viatura da PM no Rio de Janeiro como uma escrava do século passado; com a de Helenira Resende, militante da UNE torturada e assassinada pela ditadura militar.

Nina não foi assassinada como elas, mas sua subjetividade foi permanentemente violentada e, certamente, se sentiu morta muitas vezes diante das tantas perversidades simbólicas que o machismo nos coloca. A história de Nina se confunde com a de Dilma, alvo do mais brutal ataque de misoginia dos setores reacionários do país; se confunde com a de todas as parlamentares silenciadas por Eduardo Cunha no Congresso Nacional e todas as estudantes secundaristas agredidas pela PM de São Paulo durante as ocupações nas escolas. Se confunde com a minha história, com a de minha mãe, de minha avó.

Mas nossa vida não é só feita de memórias tristes, somos capazes de reinventar o presente e manter acesa a esperança de um outro futuro. Somos milhares de margaridas em marcha contra o agronegócio, milhares de crespas e mulheres negras organizadas contra o racismo e o genocídio do povo negro, somos as mulheres da Vila Autódromo que vão pra frente dos tratores para barrar as remoções e gritam socorro diante do modelo de cidade excludente e mercantil, que vem sido implementado no Rio de Janeiro. Somos as flores da “Primavera Feminista” que foram para as ruas exigir que Eduardo Cunha e sua corja de aliados tirassem seus rosários dos nossos ovários, pelo direito ao nosso próprio corpo e ao aborto legal e seguro.

Sim, existem alegrias sim em ser mulher. Mas a verdade é que a vida não está nada fácil, e precisamos falar sobre isso.

A história é dialética e os marcos sociais, políticos e econômicos nos quais organizamos as empreitadas feministas é carregado de contradições e armadilhas. Digo isso porque após as conhecidas ondas do feminismo, das conquistas de alguns direitos civis e, sobretudo, após a incorporação da mão-de-obra feminina ao mercado de trabalho formal, o capitalismo patriarcal e racista organizou uma narrativa triunfalista de que já havíamos alcançado a tão famigerada igualdade de gênero. No entanto, na prática, triplicamos a nossa jornada de trabalho, ganhamos os menores salários e continuamos sofrendo com a violência que, cada vez mais, ganha novas formas de expressão. Sem falar que a divisão sexual do trabalho doméstico permanece intacta, cabendo às mulheres as tarefas do cuidado, ou seja, o trabalho reprodutivo da vida.

Se por um lado as novas tecnologia da comunicação têm sido fundamentais ferramenta de mobilização e disputa de ideias para a luta das mulheres, também observamos um crescente ódio e uma evidente cultura de intolerância tomando as redes sociais. Volta e meia somos atropeladas pela onda de misoginia e racismo que vêm muitas vezes na forma de humor que só faz rir aqueles que nos oprimem e mantém seus privilégios. É importante ressaltar que essas ferramentas (os telefones celulares, sobretudo) também são apropriadas pelo patriarcado no que tange ao controle de nossos corpos e nossas vidas: relacionamentos abusivos que se aprofundam a partir da possibilidade de investigar a vida das mulheres, perseguição, monitoramento permanente de nossos passos, invasão da nossa privacidade.

Outra contradição de nosso tempo é a apropriação de nossas pautas e narrativas por setores liberais do capitalismo pós-moderno. Um ótimo exemplo recente foi o boom de notícias que saíram na grande mídia após a “Primavera Feminista”, além de um sem número de aglomerações políticas, ONG’s, iniciativas que surgem se autodenominando “feministas”, e até mesmo empresas ligadas ao grande capital que giram seu discurso para atingir esse público de “mulheres empoderadas”. Primeiro, observamos que estes setores promovem uma espécie de pasteurização do debate que fazemos, incorporando parte de nossas pautas e esvaziando o sentido revolucionário de nossa luta permanente. Quando se trata da grande mídia, por exemplo, vemos os mesmos veículos que historicamente invisibilizaram a luta das mulheres, fazendo matérias personalistas, sugerindo que o feminismo é uma luta individual e não coletiva. É preciso estarmos atentas e fortes para não cairmos em discursos falaciosos que descaracterizam nossa construção antissistêmica e contra-hegemônica. Não pensem as empreiteirras que removem famílias, estupram nossos corpos e territórios, que vão passar a ser nossas aliadas se colocarem o termo “feminismo” em suas cartilhas de responsabilidade social. Nosso buraco é mais embaixo e queremos continuar fazendo um enfrentamento radical não só ao sexismo, mas a todo o modo de produção da sociedade capitalista, baseada na exploração dos povos.

Há algumas semanas, me deparei com um texto sobre depressão e militância; refleti o quanto esta doença, pode-se dizer, socialmente enraizada em nossa geração, atinge as mulheres, especialmente as mulheres negras. Nossa afetividade, elementos que entrecruzam o subjetivo e o objetivo do que chamamos de bem viver: relações de trabalho precarizadas, exploração de nossa potência organizativa, expropriação de nossas tecnologias sociais, a “verdade nua e crua” da violência sistêmica tão bem esquematizada por Heleieth Safiotti em Gênero, Violência e Patriarcado, são elementos objetivos da conjuntura que apontam para nós um cenário árido para as mulheres em nosso século. No entanto, as manifestações de desamor do dia-a-dia muitas vezes causam impacto tão marcante quanto os macro-problemas da sociedade, e minam nossa força vital aprofundando as possibilidades de depressão e outras doenças psicossomáticas. Mais uma forte barreira a superar!

Quando, no título, falamos que “todo dia é dia de luta para as mulheres” e invocamos a música “Nascedouro” de Nação Zumbi, queremos chamar a atenção para a cotidianidade da nossa resistência. Sangrando uma, duas, quantas vezes por dia for preciso para então nascermos de novo a cada ferida cicatrizada.

Reconhecemos o 8 de março como uma data simbólica que mobiliza milhares de mulheres no mundo, cujo fato celebrativo busca superar o crime feminicida que marcou as trabalhadoras de Nova York no século XIX. No entanto, não topamos o fetichismo que quer fazer deste dia um momento demagógico, no qual ações descontextualizadas de gentileza e respeito fingem nos homenagear. Queremos respeito, dignidade e cidadania todos os dias e não apenas uma vez no ano.

É neste sentimento que estamos construindo o 7º Encontro de Mulheres da UNE (EME), um sentimento revolucionário que nos impulsiona a transformar o Brasil. Queremos afirmar um feminismo que compreende a diversidade, que assimila as especifidades, mas que, sobretudo, organiza muita unidade nas ações concretas necessárias à superação do machismo não só na universidade, mas em todo as esferas da sociedade. Será um encontro de muitas angustias, muitas lágrimas, mas também de muita alegria, solidariedade e potência. Um encontro para olhar e ser olhada, para dar as mãos, segurar o braço, impedir a queda. Um encontro para discutir a grande política: economia, planejamento urbano, segurança pública, programação de software; mas também para conversar sobre os detalhes da vida cotidiana, fortalecer nossas subjetividades e afirmar o amor como grande motor das atitudes revolucionárias. Afinal, quem não vai torcer pro coração bater?

*Bruna Rocha é diretora de Mulheres da UNE e estudante da Universidade Federal da Bahia (UFBA)

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