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“Querem acabar com nossas conquistas: o golpe é contra nós!”

Alef

Diretor de Combate ao Racismo da UEE-Livre, Aleff Fernando, faz uma reflexão sobre como a ruptura do mandato da presidenta Dilma Rousseff afeta diretamente a juventude negra

 

“A casa grande surta quando a senzala aprende a ler!”

Em período de turbulência política, sobretudo quando retrocessos aos trabalhadores e trabalhadoras, à população negra, à juventude, aos setores marginalizados da nossa sociedade, tornam-se pautas desejáveis por parte da elite brasileira, dirigida por partidos políticos conservadores, aliados a grande mídia que historicamente influenciou e palpitou nos rumos da administração do Estado, é fundamental nossa reflexão e posicionamento.

Nós estudantes negros e negras de universidades públicas e privadas, precisamos resgatar nossa história e com muita responsabilidade direcionar nossa posição referente ao cenário político que vivenciamos no Brasil.

A tentativa de ruptura do mandato conferido democraticamente, por voto popular à presidenta Dilma Rousseff, pelo processo de impeachment sem base jurídica, pois não há indícios de crime de responsabilidade ou qualquer envolvimento em casos de corrupção, deve ser entendido pela população como golpe à democracia e soberania brasileira. A figura política responsável pelo trâmite do processo o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, diferentemente de Dilma, têm seu nome citado em escândalos de ‘lavagem de dinheiro’, contas milionárias não declaradas no exterior, entre outros processos de favorecimento pessoal com dinheiro público.

O procedimento em curso afeta diretamente a classe trabalhadora, também a juventude negra, estudantes universitários, entre outros setores da sociedade. A maioria da população brasileira elegeu em 2014, a continuidade de um projeto que trouxe ao país mais inclusão social, pela garantia de direitos fundamentais, desde o combate a fome até a inserção de negros e negras nas universidades.

Querem acabar com nossas conquistas: o golpe é contra nós!

Ao analisarmos as votações na sessão referente ao processo de admissibilidade do impeachment no dia de ontem (17), vamos constatar a motivação pela qual 367 deputados e deputadas se posicionaram favoráveis ao golpe. Na sua maioria, os golpistas tem perfis em comum, salva raras exceções, os votos ‘sim’ traziam consigo, setores elitistas e/ou financiados pelo capital privado, majoritariamente homens e héteros e, esmagadoramente pessoas brancas. Os defensores da ‘família tradicional’, de torturadores, da polícia com caráter genocida e da religião cristã, fizeram da Câmara dos Deputados um palco teatral, onde ensaiavam uma peça baseada na vida real, de ódio, intolerância, preconceito e discriminação.

Foram precisos 252 votantes para vermos o primeiro deputado negro votando, Vicentinho (PT-SP). Sua intervenção foi para ressaltar as conquistas que o movimento negro obteve com a democracia do nosso país. Num universo de 513 parlamentares, apenas 81 se consideram pretos e pardos, desses, principalmente os que reivindicam a pauta racial, reconheceram os avanços, fizeram a leitura da estagnação em algumas das demandas e principalmente, justificaram seus votos ao povo que lutaram pela liberdade, democracia e justiça social. O posicionamento não poderia ser diferente, sabemos de que lado estão nossos adversários, eles agrupam junto aos usurpadores de sonhos, representando a ‘Casa Grande’. Porém tivemos também figuras como a Deputada baiana Tia Eron, que utilizou discurso meritocrata para justificar o voto favorável ao processo que fere a constituição, dizendo que “não aceitaria migalhas do governo”. Não é a primeira vez na nossa história que negros/negras ficam ao lado de opressores, nossa memória jamais esquecerá os capitães do mato (alguns negros livre, utilizados como caçadores de escravizados fugitivos, servindo aos senhores de engenho).

Os negros e negras no Brasil, historicamente foram sujeitados as piores condições de sobrevivência, independente do regime vivido, porém sempre estiveram em defesa da liberdade do nosso povo. No país colonial, Zumbi e Dandara no século XVII, lutaram contra o regime escravagista, sustentando a ‘República Quilombos dos Palmares’. Nossos avôs/avós, muitos de nossos pais/mães foram à campo contra o regime totalitário, derrubaram a Ditadura Militar, construíram e nos ofereceram a democracia.

Portanto, conhecendo o processo de constituição da nossa ancestralidade e a sua contribuição para a liberdade da população brasileira. Cabe a nós, estudantes negros e negras de todas as universidades tomar as ruas em defesa da nossa história e pela permanência e aprofundamento da democracia e disputar a agenda política deste governo.

Radicalizar a democracia para sobreviver, é garantir que nossos jovens não sejam exterminados nas vielas das periferias, devemos construir uma política diferenciada em relação à atual política de drogas, pois a guerras às drogas está criminalizando e matando seletivamente a nossa juventude. Alterar o modelo da polícia, combatendo a repressão dessa instituição racista. Pautar a radicalização no sistema democrático, é fundamental para que possamos romper os limites impostos ao regime de representatividade para nós pretos, pobres e de periferia, modificando a lógica do Estado burguês, para direcionar o mandato da presidenta Dilma, para mais direitos, mais avanços.

*Aleff Fernando é estudante da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e diretor de Combate ao Racismo da UEE-Livre.

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