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“Precisamos muito mais que um novembro negro!”

Leia artigo da diretora de Combate ao Racismo da UNE, Dara Sant’Anna e da Coordenadora de Comunicação do CACO/UFRJ, Luisa Caminha

As crises políticas no Brasil acompanham historicamente o ciclo de crises do capitalismo no mundo. Em um processo de deterioração das democracias latino-americanas, a instabilidade política brasileira posta, passa a ser sinalizada com relevância considerável em 2014, logo após a divulgação do resultado das Eleições Gerais, estendendo a gestão de Dilma por mais um mandato.

O aprofundamento da crise política foi protagonizada por Aécio Neves, ao contestar o resultado das eleições legítimas, e por Eduardo Cunha, ao aprovar pautas bomba no Congresso. O marco da quebra Constitucional ocorre em 2016, com a positivação do impeachment da presidenta eleita, entregando a faixa presidencial para seu vice, Michel Temer, que não titubeou em implementar seu projeto de Brasil:o ataque ao SUS, à previdência, o desmonte da educação pública, a flexibilização das relações trabalhistas e Intervenção Federal Militar. Esse conjunto de medidas apontou o alvo principal do Estado: a população trabalhadora, negra, pobre e periférica.

Nunca foi um segredo que o golpe de 2016 se encerraria com o resultado das eleições de 2018. E, após um processo eleitoral em que o medo e a violência ditaram o ritmo das campanhas, acompanhamos mais uma quebra do Estado Democrático de Direito.
Nós, negros e negras, fomos historicamente excluídos dos espaços de poder, criminalizados e marginalizados. Tutelados em currais eleitorais e completamente privados do desenvolvimento de uma intervenção política critica, o sistema político fala por nós ao mesmo tempo em que nos mata e impõe derrotas.

Contudo, os moldes da Democracia Representativa, ainda que falhos, nos possibilita uma via pelos caminhos de disputa e é nossa tarefa ocupa-los. Entender isso, é compreender que não se trata apenas da nossa participação nos processos eleitorais e com o voto em urna, mas a importância de nossa presença em Conselhos construídos junto da sociedade civil, dos movimentos sociais, debatendo políticas públicas para a população com o Governo Federal.
Nesse sentido, a defesa da Democracia tange muito mais que a manutenção da ordem constitucional, mas sim a garantia à autonomia de nossos corpos e de nossas vidas.      A defesa pela democracia e por sua radicalização é assegurar maior participação popular na política.
Bolsonaro foi contra a garantia de direitos trabalhistas às empregadas domésticas, a favor da Emenda Constitucional n. 95/2016, que congelou o investimento em saúde, educação e assistência social pelos próximos 20 anos, também foi a favor da reforma trabalhista e de uma reforma previdenciária que prejudica em muito a classe trabalhadora.
Em janeiro de 2019, tomará posse como presidente do Brasil o homem que historicamente  desvalorizou a Democracia e defendeu uma possível volta da Ditadura Militar, além de se orgulhar de suas posturas racistas, machistas, lgbtfóbicas e fascistas.

Essa eleição traz para uma parcela da população a sensação de incerteza e medo por ter sido ameaçada por Jair inúmeras vezes.

E, nós, negros e negras somos parte disso.

Precisamos entender que a Guerra Civil como saída da crise que Bolsonaro louvou em meados dos anos 90 já existe, e tem nome e cor: a guerra às drogas, a qual já fez mais de 30 mil vítimas, em sua ampla maioria negras e negros oriundos de regiões periféricas.

Não se enganem, os corpos que sempre tombaram nas terras desse país foi de carne negra, e mais do que nunca a sociedade, partidos políticos, movimentos sociais e militantes, precisam entender que como já demonstrado com a morte de Marielle Franco – ainda sem respostas – e do mestre Moa, serão os nossos corpos o alvo da precarização do trabalho, do fim dos serviços públicos, pelo aumento da violência por parte do Estado.

O povo negro é a maior vítima da violência, do desemprego e subemprego, da evasão estudantil, da precarização da saúde, educação e assistência social públicas. São os corpos negros que sofrem o primeiro impacto de qualquer crise do sistema capitalista.

O capitalismo, que se estruturou com base na acumulação de riquezas através da exploração e mercantilização dos nossos corpos, nosso conhecimento, nossa cultura, através do processo escravagista. O Estado brasileiro, sequestrou, estuprou, assoitou, matou, vendeu e permitiu que a sociedade naturalizadas que esse é o tratamento que deve ser dispensado ao povo negro. Nossa tortura e exclusão é enraizada na cultura brasileira, ao mesmo tempo em que nosso sangue serviu e serve de pilar para o país se manter de pé.

Após o processo de abolição que nos libertou e nos condenou a um futuro de miséria e violência, a preocupação  do Estado Brasileiro foi com as famílias dos nossos assassinos. Foi paga indenização aos torturadores, sequestradores, estupradores, chamados nos livros de história como senhores de escravos. O dinheiro do Estado Brasileiro foi para as famílias ricas que escravizaram outros seres humanos.Enquanto nossa alternativa foi a submissão e venda dos corpos de nossas mulheres, a ocupação das ruas como nossa única alternativa de lar, e o completa negação a direitos básicos como moradia, educação e saúde.

A reparação histórica não é um favor, é direito!

O Estado Brasileiro, em tomada de medida inédita, após anos de lutas, aprovou a Lei de Cotas, que possibilitou entrada ampla de negros e negras nas Universidades Públicas Brasileiras.   Hoje, com a mudança do perfil de aluno dessas instituições de ensino, somada a ofensiva fascista, estas são alvo de rejeição, e com a Eleição de Jair Bolsonaro estão sob ameaça.

Nesse sentido, negros e negras serão as maiores vítimas das políticas neoliberais e neofascistas de Jair Bolsonaro. Assim como, já se mostram enquanto bastião de resistência nesse processo.

Sendo então uma política anti-racista a única possível, um olhar sobre os processos de resistência dos negros e negras a única forma. Parafraseando Raphão Alaafin, “tentar nos derrubar é secular / Hoje chegam pelas avenidas, mas já vieram pelo mar”.

A tentativa de extermínio do povo negro dura 130 anos e, mesmo com a dura conjuntura, as mulheres negras de todo país marcharam em 2015, enfrentando os fascistas que chegaram a atirar, o povo negro aumentou em número de representantes no legislativo, as mulheres negras organizam o II Encontro Nacional de Mulheres Negras após 30 anos do primeiro.

O povo negro resiste neste país desde seu sequestro de África e é o maior exemplo de luta e resistência. Por isso, precisamos fortalecer os nossos e estar entre nós mais do que nunca. Construir nossos quilombos de resistência, como Aqualtune, Ganga Zumba, Dandara, Zumbi! Precisamos proteger-nos e proteger os nossos, para organizar a resistência.

Resistência aos processos de retiradas de direito organizados pelo capitalismo, resistência ao extermínio, resistência aos ataques racistas que tem ocorrido cada vez com mais frequência e menos pudor em universidades por todo o país!

E para resistir precisamos estar unidos e fortes, para construção de um projeto de nação anti-racista, para poder terminar a graduação e também sonhar com uma pós, para prosseguir com nossas pesquisas, para não perder a fé nos nossos sonhos.

Isso posto, a UNE colocou-se na rua e na luta durante esse período em defesa da educação pública, do bem viver para todos e todas, denunciando o Golpe e todos os retrocessos que se seguiram. Não podia agir diferente durante esse ano, tendo apresentado sua plataforma eleitoral e partido na dianteira da luta contra o fascismo que tomou conta das universidades por todo o Brasil.
A UNE tem um compromisso histórico pela defesa da democracia, tendo sido perseguida durante a ditadura e levado seu funcionamento à ilegalidade, sem nunca deixar de cumprir seu papel com os e as estudantes.

É momento de luta e o anti-racismo é bandeira indispensável, a defesa da política de cotas, a luta contra a redução da maioridade penal, por um currículo que atenda a lei 11645/2008 e insira o estudo da história da África, dos afrodescendentes e indígenas, pela existência das políticas de permanência e assistência estudantil, pelo fim do extermínio da população negra.

A UNE nunca se calou e não será calada!

Viva Aqualtune!Viva Zumbi!

Viva Dandara!

Viva Luisa Mahin!

Viva Luiz Gama!

Viva Lélia Gonzalez!

Viva Marielle Franco!

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