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“Ocupações estudantis abrem alas à nova política brasileira”

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A diretora de Mulheres da UNE, Bruna Rocha, e a diretora da UEE-RJ Marianna Lopes, refletem como as ocupações: feministas, coloridas e enegrecidas têm cumprido um papel fundamental de formular, na prática, metodologias possíveis para se fazer política de um outro jeito neste país

Junho de 2013 foi um marco importante de nossa geração e ainda está em curso. As redes e ruas das grandes e pequenas cidades foram palco para o desabrochar de uma diversidade de lutas há muito represadas pelas burocracias da velha cultura política, mas que já eram travadas com muita resistência nos territórios mais subalternos de nosso país. Lutas cheias de vida, sentimentos, divergências, conflitos, dúvidas e a certeza de que não era só por 20 centavos, mas que a pauta da mobilidade urbana era o estopim da inviabilidade de todo um sistema político excludente de valores, sujeitos e ideias. A luta pelos direitos era ali também um grito de socorro das subjetividades soterradas pelo concreto da vida capitalista, que precariza e adoece corpos, comunidades, territórios e junto com eles os sonhos de um outro mundo possível.

De lá para cá, o paradoxo da política brasileira só se aprofundou. A eleição do programa mais avançado dos últimos períodos para o poder Executivo, representado na reeleição da primeira mulher eleita Presidenta da República, Dilma Rousseff, veio junto à eleição do Congresso mais conservador desde o golpe militar de 64, e uma onda de projetos reacionários sobre os direitos conquistados pelo povo brasileiro. A governabilidade prevista já era catastrófica e, mais uma vez, a população entra em momento histórico de retrocessos, que se consolida com o golpe parlamentar que destitui a presidenta e empossa Michel Temer e seu programa de governo privatista e autoritário.

A juventude brasileira tem sido linha de frente da resistência à ofensiva intermitente dos setores hegemônicos do país inconformados com a conquista de cidadania pela maioria da população brasileira, diga-se: maioria negra e composta por mulheres. É sempre bom lembrar que tudo que está colocado tem a ver com uma disputa feroz de poder, tem a ver com uma elite que não suporta ver negros e negras nas universidades, nos aeroportos, nos programas de intercâmbio, tem nojo de médicos cubanos, de sertanejos e ribeirinhas, não toleraram se submeter à um governo liderado por uma mulher que, ainda por cima, foi guerrilheira contra a ditadura. Essa juventude ávida por direitos se coloca como linha de frente dos processos pela manutenção da nossa frágil e jovem democracia.

Primavera e inverno em um permanente cabo de força, no qual o objetivo final é a vitória de um ou outro projeto de país. De um lado, os lindos movimentos de resistência que eclodiram nos últimos períodos: as primaveras feministas e secundaristas, as marchas do empoderamento crespo, a revolução informacional e a consolidação da internet como uma esfera importante de disputa de opiniões, os movimentos de cultura periférica, ocupação urbana, a luta pela terra e pelas águas que resiste e deixa sementes de esperança para o futuro. Do outro, a atualização do fascismo, o crescimento do fundamentalismo religioso, a exacerbação dos casos de misoginia, racismo e lgbtfobia, o aprofundamento da violência institucional do Estado punitivo: crescimento do genocídio e encarceramento do povo negro, estupros coletivos, intolerância religiosa.

Neste cenário árido, no qual o horizonte ainda está tomado por uma nuvem turva de incertezas, sem dúvida alguma, as ocupações estudantis despontam como a experiência que tem aglutinado mais forças para a sobrevivência de nossas primaveras. A luta contra a PEC 55 (antiga 241) serviu para articular uma impressionante rede com mais de mil escolas, cem universidades e diversas secretarias de estado ocupadas em todo o Brasil.

As ocupações não apenas se organizam para barrar esta que é a medida mais brutal contra os direitos do povo brasileiro, que congela gastos em educação e saúde por 20 anos, que ameaça o futuro de muitas gerações; elas têm cumprido um papel fundamental de formular, na prática, quais metodologias possíveis para se fazer política de um outro jeito neste país. Esse outro jeito já começa por uma outra cara: negra, feminista, colorida e popular. As ocupações têm a cara da nova composição social da universidade brasileira e não podia ser diferente: a cara de quem lutou muito para conquistar esses espaços e está disposto e disposta a dar a vida para não perder direitos. Esta nova cara também traz à tona novas práticas de solidariedade, sustentabilidade e democracia.

As ocupações dão uma lição de organização e cidadania, dão o exemplo de construção de uma nova cultura política, dando espaço para a pluralidade de pensamentos e ideias. As ocupações possibilitam formular até mesmo um novo modelo de aprendizagem dentro das universidades e escolas, permitem a implementação na prática de uma pedagogia não opressiva e horizontal, em que a troca de conhecimento e conteúdos se transfira de maneira não hierarquizada, desbancando os modelos eurocêntricos presentes nas instituições de ensino. Os aulões públicos, rodas de conversa, saraus, rodas de poesia, música e cultura, tendo como tema central a PEC55, mas também o combate as opressões, exemplificam possibilidade da implementação de uma educação não sexista e antirracista.

Ocupar nos trás desde conhecimentos acadêmicos, através da vivência de outras formas de ensino e aprendizagem, mas também aprofunda noções de convivência e respeito, buscando eliminar a divisão sexual e racial do trabalho e tarefas, humaniza e torna visíveis os e as trabalhadoras terceirizadas dentro da universidades, exercitando métodos mais democráticos e horizontais de deliberação. Possibilita de forma real a interdisciplinaridade entre os cursos universitários, torna o conhecimento e as práticas mais acessíveis. Ocupar é lutar por gerações futuras.

A polarização de projetos para o país, nos deixa nítido tanto o avanço do conservadorismo, e o fascismo, mas em contrapartida evidencia a organização de mulheres, negros e negras através dos espaços auto-organizados dentro das ocupações que estão se espalhando pelas universidades a fora, transmitindo de que forma esses retrocessos atinge essa grande parcela da população. Nossa luta não é apenas sobre a “ponte para o abismo”que simboliza a PEC 55, mas é sobre o pacote de maldades que deverá levar o pais a uma situação política, econômica e social pior do que na crise dos anos 90: redução da maioridade penal, que está próxima de ser votada, flexibilização da CLT que irá precarizado ainda mais o trabalho, reforma previdenciária que atingirá diretamente a qualidade de vida da população idosa e acabará com a seguridade social, além do ataque à educação que simboliza a reforma reacionária do ensino médio e ao projeto da escola sem Partido, que institucionalizara um modelo educacional mais autoritário do que o regime militar. Sendo assim, tratar da PEC é entender que o projeto neoliberal que tenta ser implementado atinge de forma contundente mulheres, negros e negras. O silenciamento e o apagamento não cabe mais a essa parcela da população, somos donos e donas de nossa trajetória e dos rumos do país. Encher os pulmões de ar e gritar: “OCUPAR E RESISTIR” é tomar as rédeas da situação.

A votação da PEC 55 no Congresso Nacional se aproxima e é hora de ocuparmos Brasília, mostrando toda a resistência da juventude, é momento de pressionar os senadores e senadoras, demonstrando o descontentamento da população em frente a esses retrocessos. Organize sua caravana rumo à Brasília, dia 29 é dia de luta!

*Bruna Rocha é diretora de Mulheres da UNE e Marianna Lopes é diretora de Combate ao Racismo da UEE do Rio de Janeiro.

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