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“O papel da UNE na defesa da democracia brasileira”, por Iago Montalvão

iago

Leia o artigo do estudante de história da UFG sobre a história de luta da entidade 

Neste momento de tanta tensão na política e tentativas golpistas de atacar à democracia, escrevo este texto para contribuir nas discussões. Valorizando o debate com base em ideias e argumentação e considerando a fundamental importância da consciência histórica.

Tem se tornado cada vez mais nítido que vivemos um momento turbulento na política de nosso país. Para os jovens da nossa geração, que nasceram ou cresceram já envoltos por uma democracia, que apesar de nova teve na última década sinais de uma sólida ascensão, o cenário atual pode parecer inédito, e ainda, pela confiança que se criou diante do desenvolvimento das relações democráticas, as conjecturas que apontam uma séria preocupação com os próximos episódios da política brasileira podem também, na mentalidade de muitos, soar como uma mera ilusão ou exagero.

Pois bem, uma das funções fundamentais que a história exerce para o indivíduo que vive em sociedade é a de, refletindo sobre seu passado, esse sujeito tenha condições de orientar-se no presente, compreender como as relações sociais se formaram, e como chegaram a ser o que são hoje. No mundo material nada é estático, eterno ou “a-histórico”. Somos, portanto, frutos de processos, de acúmulos, de experiências, que no desenrolar do tempo constroem, e continuam a construir a cada momento, as nossas relações materiais, econômicas, sociais e também políticas. E nesse sentido, torna-se impossível a avaliação de qualquer fenômeno presente (que é por si só é tempo contínuo) ou mesmo de um passado mais recente, sem antes considerarmos os seus antecedentes.

Os constantes ataques e tentativas de desestabilização da democracia e de um governo legal e constitucionalmente estabelecido que vemos hoje no Brasil não são novidade, tampouco surgiram espontaneamente num momento recente. O exemplo mais simbólico disso, e é uma lástima que um número ainda insuficiente de brasileiros tenha o conhecimento desses fatos, é o Golpe Militar de 1964, que através do protagonismo das forças militares colocou abaixo o estado democrático de direito e instalou uma terrível e sangrenta ditadura por duas décadas. Mas eu poderia também citar os eventos que precederam e levaram ao suicídio de Getúlio Vargas em 1954, pressionado por oposicionistas que articulavam um golpe para derrubá-lo.

De lá pra cá outros momentos geraram instabilidade na política brasileira, seja através de crises econômicas ou articulações golpistas de setores oposicionistas e com apoio midiático. Mas um dos elementos que cria uma intrínseca relação entre esses fatídicos episódios é, ao mesmo tempo, por um lado a defesa irrefutável que entidades históricas dos movimentos sociais fazem da democracia, e por outro a tentativa dos setores golpistas ou de seus sustentadores de enfraquecê-las ou deslegitimá-las. Não atoa recentemente quem ocupa um dos mais importantes postos de poder da democracia brasileira tem proferido ataques infundados e ameaças à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), uma das organizações da sociedade civil que mais tem páginas em seu currículo quando se trata de defesa do povo e da democracia brasileira.

Assim, quero aqui me deter a avaliação de uma outra entidade, que nesse mesmo sentido não poderia escapar das pechas e ataques de golpistas, porque também apresenta uma história de comprometimento com a luta do povo e a defesa da democracia em nosso país. A União Nacional dos Estudantes, que completa nesse ano 78 anos desde sua fundação, esteve, nesse tempo, presente em períodos importantes da história do Brasil sob as marcas da organização e da luta dos estudantes e da juventude, categorias que estarão sempre, e inevitavelmente, nos fronts das batalhas políticas em qualquer lugar do mundo, e a UNE é justamente uma prova disso.

Em qualquer momento, em que minimamente tentassem questionar a importância da democracia e da soberania nacional, lá estava a UNE, munida de seu caráter jovial e seu espírito revolucionário a defender nossa nação, com convicção e sem nenhum receio. É este o fim que lhe importa. Dessa maneira, lancemos nossos olhares ao inicio da década de 1960, quando João Goulart tornara-se Presidente da República, numa difícil e turbulenta conjuntura que o amaldiçoaria por todo seu – incompleto – mandato. Seria impossível fazer referência ao desenrolar dos acontecimentos que marcaram esse processo sem falar na União Nacional dos Estudantes, em todo seu conjunto – suas bases e entidades, bem como os estudantes que a compunham – e em nome de dois presidentes que acompanharam com mais proximidade os abalos que a democracia brasileira sofreria nesses anos, Aldo Arantes e José Serra.

Ambos continuam sendo personagens importantes na política nacional dos dias presentes em suas respectivas atribuições, ainda que sob matizes ideológicos e posturas bem diferentes. Ambos escreveram recentemente auto-biografias¹ onde contam, dentre outros passos de suas trajetórias, o momento ao qual me reservo aqui comentar: o governo de João Goulart e o pré-golpe. Apesar das diferenças, o que se nota é que em qualquer uma das duas descrições fica evidente o repúdio ao golpismo naquele momento e a articulação com participação fundamental da União Nacional dos Estudantes na tentativa de impedir que aquela tragédia se consolidasse. Aldo participou da cadeia da legalidade, ao lado de Brizola percorreu o Brasil para enfrentar a pecha golpista e dar suporte às políticas progressistas defendidas por Jango. Serra, já mais próximo ao golpe militar em vias de fato, esteve também em inúmeras situações ao lado do presidente constitucionalmente eleito, de Brizola, de outras figuras políticas de esquerda, da CGT e outros movimentos sociais.

Ainda que a UNE tivesse a simpatia e o apoio irrestrito de muitas figuras políticas notórias e movimentos sociais, inclusive do Presidente da República, não escapou dos ataques fascistas advindo sobretudo de grupos reacionários e conservadores da política brasileira e dos militares, mas também de um sentimento anti-esquerdista que havia se disseminado pelas massas – em especial da classe média – através do senso comum. Não por coincidência a UNE teve vários de seus congressos invadidos por militares, muitos de seus diretores ameaçados e logo no primeiro dia do golpe teve sua sede incendiada, numa ação que também contava com apoio de civis.

Na história da humanidade nada se repete de maneira idêntica, entretanto, nada pode ser completamente inédito, porque o tempo presente carrega em si o pesado fardo das experiências passadas. No mesmo sentido, pode se dizer que os homens e mulheres, apesar de construírem sua própria história, não a fazem como querem, senão dentro das determinações históricas. Essas são reflexões necessárias para se traçar qualquer comparação que se pretenda fazer com os dias atuais, afinal é no mínimo intrigante quando colocamos entrepostos o desenrolar da conjuntura política, econômica, social dos anos pré-golpe militar e o que acompanhamos hoje no Brasil. Mas que tenhamos claras as distinções das propriedades e particularidades de cada tempo.

Dentro desses aspectos devemos considerar que o que está acontecendo na política brasileira é: 1°- fruto de outras esferas determinantes da sociedade que são também, dialeticamente, influenciadas pela política, como a economia e a disseminação de certos valores morais; 2°- resultado de processos históricos que constituem o desenvolvimento da nação brasileira em suas várias faces, logo, tanto não pode ser inédito, como se assemelha a outros momentos de sua história por estar imerso em contextos globais com alguns elementos parecidos.

Em outras palavras, o que vivemos hoje no Brasil está muito próximo daquilo que viveram no inicio da década de 1960, ainda que o desfecho não seja o mesmo, posto que inúmeras outras condições interpõem essa possibilidade, como o próprio avanço da tecnologia, uma democracia mais sólida, forças armadas mais respeitosas. Todas essas condições porém, ainda assim não tiram por completo a demarcação golpista feita pelos setores conservadores e reacionários, que insistem em se opor à um projeto progressista, aliado aos consórcio de uma imprensa também golpista, que dissemina a desinformação, cria factoides e constrói acusações seletivas, além de alimentar os discursos de ódio e o senso comum que também embebem a população de um forte sentimento anti-esquerdista , embasados por anedotas e argumentações infundadas que não fazem o mínimo de sentido.

A União Nacional dos Estudantes, assim como em toda sua trajetória e no inicio da década de 1960, continua em defesa da democracia e da soberania nacional. Infelizmente temos que levantar hoje bandeiras que já eram erguidas há 50 anos, mas talvez isso se faça ainda mais necessário. Como os estudantes defenderam o monopólio da exploração do petróleo pela Petrobras, lutaremos contra as tentativas de sua privatização; como quando Aldo Arantes percorreu o Brasil em defesa do mandato de Jango, diremos que a presidenta Dilma Rousseff foi eleita nas urnas e tem seu mandato garantido legal e constitucionalmente; ou como quando José Serra falou à milhares sobre a importância das Reformas de Base dentro dos marcos da democracia, iremos às ruas lutar pela Reforma Política, pela Democratização da Mídia, pela Reforma Tributária, e tantas outras. A UNE como sempre, e talvez ainda mais do que nunca, tem um papel fundamental para nosso país, e segue a risca honrando sua tradição, não abaixaremos a cabeça jamais, nem para os golpistas e nem para os oportunistas, com convicção seguiremos defendendo nosso povo e nossa nação.
*Iago Montalvão é estudante de História da UFG. 

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