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“O autoritarismo mostra as caras”, por Carina Vitral

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Em sua coluna no site Conversa Afiada, do jornalista Paulo Henrique Amorim, a presidenta da UNE afirma que a regra da violência sobre o diálogo dá demonstrações de que o caminho tomado pelo Brasil é o do retrocesso

Uma sucessão de acontecimentos dos últimos dias mostra que parte das sementes lançadas pelos derrotados das eleições de 2014, infelizmente, vingou e apresenta seus ramos. O objetivo de incendiar o país, fomentando a intolerância e o discurso de ódio junto aos protestos pelo impeachment de uma presidenta democraticamente eleita, se cumpriu em uma parcela preocupante da população. Nas redes sociais, nas ruas e até mesmo no Congresso Nacional a regra da violência sobre o diálogo dá demonstrações de que o caminho tomado pelo Brasil é o do retrocesso.

No último dia 15, sentimos juntos a dor e o choque da tragédia ocorrida com Guilherme Silva Neto, estudante de 20 anos que ocupava sua universidade contra a PEC 55 na cidade de Goiânia. Guilherme foi brutalmente assassinado pelo próprio pai, após divergências políticas.

Cabe a tristeza enorme de acompanhar, cinquenta anos depois, um golpe de Estado seguido dos ataques, justamente, aos jovens que se mobilizam pela democracia. Não queremos repetir esse filme. Guilherme está presente, assim como os meninos e as meninas de outras eras que cederam suas vidas à luta. Guilherme será inspiração exatamente para aumentarmos nossa mobilização e fazer frente à intolerância que o atingiu.

O autoritarismo deu suas caras, também, um dia depois, na grotesca ação de alguns grupos da direita ao tomarem a Câmara dos Deputados com a reivindicação de uma intervenção militar, exigência do fechamento do parlamento, o contato com um general e outras besteiras perigosas que não podem ser ignoradas. Foi a expressão física de indivíduos que já se organizam em torno desses temas pela internet e que foram estimulados pela campanha de perseguição política no país e o rompimento da ordem democrática na deposição ilegítima da chefe de estado. Há quem diga que foram poucos os manifestantes e que sua movimentação é insignificante. Mas para quem conhece a história dos anos de chumbo no Brasil, os assassinatos, torturas e demais sofrimentos causados pela ditadura, a imagem da mesa diretora da Câmara tomada por esse discurso tem uma dimensão assustadora.

Ao mesmo tempo, segue a espetacularização das atividades do judiciário, as prisões cinematográficas e até mesmo a exploração midiática de uma pessoa hospitalizada, ainda sobre a maca, como na prisão do ex-governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho. Algo que, inclusive, se repete diariamente com o linchamento televisivo da população negra, pobre e jovem quando infringe a lei e é perseguida pelo discurso sensacionalista dos programas policiais. Potencializar esse sentimento de ódio pela prisão de um político não é melhorar a justiça no país e, sim, ampliar a mesma intolerância que pesa, infelizmente, sempre para o lado mais fraco da corda, para os que estão socialmente desfavorecidos.

A reação ao sensacionalismo e ao golpismo da grande mídia não pode atingir, como alvo, a integridade física dos profissionais da imprensa, como ocorreu com o repórter Caco Barcelos, da Rede Globo, agredido durante manifestação legítima dos servidores públicos do Rio de Janeiro. São episódios que somente servem para colaborar com a narrativa desses veículos, ao criminalizar os movimentos sociais e buscar jogar a população contra os manifestantes.

Não se pode colaborar com justificativas que possam gerar ainda mais violência e repressão, sendo necessário, na verdade, organizar e ampliar cada vez mais a resistência política e as coberturas independentes do midialivrismo.

A ascensão do conservadorismo requer maturidade e sobriedade das forças democráticas para superar esse momento, a intolerância e intransigência só levará ao caos e isso não favorece avanço do país. A luta será árdua, mas sabemos que é o caminho certo.

Na nossa parte, seguimos lutando contra os retrocessos impostos pelo governo, com bandeiras amplas que dialogam com a população. É o exemplo dado, pelas mais de mil ocupações nas escolas secundaristas e quase trezentas nas universidades de norte a sul, contra a PEC 55, o congelamento de duas décadas na educação, saúde e nas políticas sociais. Há um horizonte de novas disputas a serem feitas nos próximos meses, precisaremos de fôlego e criatividade. O autoritarismo não virará moda. Seguiremos.

* Artigo originalmente publicado no site Conversa Afiada dia 23/11/2016.

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