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“É tempo de contar a história da negritude do Amazonas”, por Maick Soares

mayke SoaresPresidente do DCE da Universidade Estadual do Amazonas faz uma reflexão sobre a invisibilidade étnica dos negros em seu estado

Novembro é um dos meses mais simbólicos para o seguimento negro. Pelo Brasil inteiro, organizações realizam eventos comemorativos que resgatem e/ou retratem a história dos Afrodescendentes. A capital amazonense não se difere das demais e nesse oportuno momento trazemos alguns questionamentos sobre o tema. Por que celebrar a data do mês da Consciência Negra em Manaus se não tivemos presença negra nessa localidade?

Para início de conversa, vamos a uma breve reflexão. Se não houve pretos em terras de Ajuricaba, o porquê da existência de bairros concentrando grande quantidade populacional negra como Praça 14 de Janeiro e Morro da Liberdade, inclusive que cultivam culturas e costumes dos seus antecessores? Como explicar a grande concentração de Terreiros das mais variadas nações, oriundos de casas tradicionais? Onde está Joana Galante e Mae Zulmira? Quem foi o Governador negro que tivemos? Eduardo Ribeiro? Quem foi Nestor Nascimento? Como, quem, quando, onde? Essas são algumas perguntas que faço quando passeio pela bela “Paris dos Trópicos” e agora divido com você.

Um tempo atrás me deparei com a seguinte noticia: “Governo reconhece 5 comunidades Remanescente de Quilombo em Barreirinha”. Se nunca existiram negros nessa região, como temos remanescente de quilombo? Se existe remanescente não é pelo fato de ter existido Quilombo? E Quilombos não são comunidades de resistência? Têm-se focos de resistência, não seria pelo fato de num tempo passado existir opressão e submissão de certo modo?

Na verdade muitos se questionam e/ou até mesmo afirmam que o Amazonas não teve e, de certa forma não tem contribuição negra na formação deste povo. Talvez seja pela grande concentração de etnias indígenas na região, nos fazendo pensar que o amazonense descende apenas de índios assim dizendo. Por outro lado, a falta de mais estudos e pesquisas para desmistificar tal afirmação ainda é reduzida, do ponto de vista acadêmico – apesar de considerar os avanços nos últimos anos. Como bem coloca a professora Patrícia Sampaio no Livro O fim do Silêncio, “Contudo, em se tratando de Amazônia e, mais particularmente, do Amazonas, estamos diante de um tema muito pouco frequentado pelos estudiosos. Um silêncio persistente que insiste em apagar memórias, histórias e trajetórias de populações muito diversificadas que fizeram desta região seu espaço de luta e sobrevivência. Esta é uma divida de muitas gerações que ainda reclama a sua paga…”.

A presença negra na capital amazonense pode ser traduzida a partir da concentração no alto Seringal Mirim, que maciçamente é habitada por afrodescendentes e retirantes nordestinos, que enriqueceram a construção da cultura e povo manauara. O que fortalece essas ideias, são as manifestações religiosas e culturais, como rodas de samba e agremiações, podendo observar alguns bairros como morro da liberdade, aparecida, cachoeirinha, etc.

Ocorre que ainda vivemos um processo de invisibilidade étnica dos afros em nosso estado. Comprovado historicamente, o Amazonas foi um dos pioneiros a abolir a escravidão, junto com o Ceará.  Nesse sentido, vale ressaltar a presença de escravizados na área e a concentração de remanescentes de quilombo em 15 municípios do interior do estado, onde oito se encontram certificados pelo Governo Federal e Fundação Palmares, podemos citar: Itacoatiara, 5 comunidades de Barreirinha, Novo Airão com o Quilombo do Tambor e o Quilombo do Barranco no bairro da Pça 14 de Janeiro em Manaus.
Após a relação escravagista no estado, negros e negras acabam colaborando com a construção da história. Esse processo continua com os movimentos sociais e figuras que se destacaram em defesa das lutas e dos direitos civis, um deles foi Nestor nascimento, comunista, atuou e fundou o Movimento Alma Negra – MOAN, presidente do Instituto dos Direitos Civis – AM, onde recebeu diploma de honra ao mérito pelo Instituto Brasileiro.

Para além de Nestor, tivemos outras personalidades importantes que contribuíram para luta de resistência em nosso estado, são elas Mãe Zulmira e Joana Galante, essas mantiveram as tradições e crenças populares de maneira efetiva e sólida.

Portanto, é tempo de contar e escrever uma nova história. Não a esquecida, mas aquela que esteve apagada. É tempo de romper a barreira do silêncio e fazer ecoar o grito daqueles que até então estavam calados. É preciso dar um urro de liberdade e quebrar as correntes que ainda prendem e negam o saber da sua origem. É tempo de contar o que os ancestrais nos ensinaram através da oralidade, repassados aos filhos, netos e assim por diante.

É preciso falar de Luiz Fernando, de Mãe Emília, de Gláucio da Gama, de Arlete Anchieta, de Elizangela Almeida, de Cristiano Correa, de Juarez Silva, de Nonata Freitas, de Emanuel Medeiros, de Cristiane Floriza, de Sidney Barata, de Nonata Correa e de outros Zumbis e Dandaras que se mantêm fortes e firmes, para que acordemos com manhãs escritas e pintadas com a cor da liberdade.

São por essas razões, que Manaus tem muito a dizer. Não somente nesse novembro, mas todos os dias sobre “os invisíveis numa terra de gente morena”.

“Até que os leões tenham suas histórias, os contos de caça glorificarão sempre o caçador”. Provérbio Africano

*Maick Soares é presidente do Diretório Central dos Estudantes da Universidade Estadual do Amazonas – DCE UEA

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