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“Até 2023 graduação online será maioria no Brasil. Estamos preparados?”

Ergon Cugler, diretor de Universidades Públicas da UEE-SP fala sobre Ensino a distância, disciplina online em cursos presenciais e a questão do EaD nos cursos de saúde

Desde o último decreto (9.057/17) publicado pelo Planalto que trata sobre adequações ao sistema de ensino à distância, a preocupação acerca da qualidade do EaD tem aumentado, tanto em relação à expansão da modalidade que, como se apresenta como ágil e dinâmica, corre enorme risco de se realizar de forma irresponsável e precária, mas também à abrangência da modalidade aos cursos da área de saúde, por exemplo, que precisa ser debatida com maior responsabilidade e atenção aos dados do EaD no Brasil.
Mas afinal, qual rumo toma o ensino à distância hoje no Brasil?

Segundo a Educa Insights, em apenas 6 anos a graduação no Brasil será maioria à distância (EaD), contando com 9,2 milhões de graduandos em universidades privadas (51% destes na modalidade EaD), onde tal projeção leva em conta o histórico de crescimento dos últimos cinco anos, mas também considera a entrada de instituições privadas renomadas no mercado de graduação on­line como FGV e PUC, e universidades públicas como USP e a Federal Fluminense, que já conta com cerca de 10 mil inscritos.

Hoje 3,8 mil polos de ensino a distância operam no Brasil, concentrando 1,5 mil desses polos sob administração da Kroton, maior grupo de ensino privado do país, tendo Unip e Uninter em seguida, com 1 mil unidades cada. Segundo o MEC, o processo de abertura de polos deverá não precisar mais de aval do ministério, gerando mais autonomia às universidades e acelerando o processo de enraizamento da rede de ensino a distância.

É preciso, acima de tudo, compreender o papel fundamental que a modalidade EaD oferece no processo de interiorização e alcance de formação para regiões que não possuem grande acesso à polos presenciais de cursos específicos, ou mesmo para aqueles que possuem rotina mais intensa e apenas possibilidade de acompanhar um curso à distância. Negar tal papel fundamental do EaD é inviabilizar a formação de diversos estudantes que dependem, de fato, deste modelo, para garantir sua conclusão no ensino superior.

Por outro lado vive o crescimento desordenado do EaD, ou pior, a inclusão de cursos online obrigatórios em modalidades presenciais, que segundo o MEC é permitida a flexibilização de até 20% da grade total para a modalidade EaD. Quanto a estes precisamos ter firmeza e garantir que a lógica mercadológica do ensino jamais sobreponha o projeto de educação de qualidade com interiorização e enraizamento.

Em outras palavras, se o EaD vem para atingir mais pessoas e garantir formação de qualidade, deve ser acompanhado e assegurado, no entanto se este se manifesta em curso presencial como forma de apenas reduzir custeios da instituição de ensino, sem consulta dos estudantes e da comunidade acadêmica, deve ser fortemente combatido.

Outra atenção que precisamos reforçar está na área da saúde, onde hoje apenas 3 dos 14 cursos não são oferecidos na modalidade, sendo Medicina, Odontologia e Psicologia. Ao caso da farmácia, como exemplo, hoje o Brasil é o país que mais forma profissionais na área em todo planeta, correspondendo a um terço do total de farmacêuticos no mercado.

Compreender o tamanho do impacto do Brasil não somente no cenário internacional, mas também na qualidade da formação dos cursos da área da saúde quando colocados à mercê do EaD anda lado a lado de compreender o desejo de tais mega grupos educacionais que visam aumentar seus lucros em território brasileiro sem preocupação profunda com o futuro do país.

Alguns projetos de Lei, tal como o PL2891/15 que trata do curso de enfermagem, já recorrem à obrigatoriedade de aulas presenciais durante o curso de forma a preservar sua qualidade durante o processo de formação. Quanto a este nos resta adequar à necessidade já debatida acerca do enraizamento, mas pressionar por assegurar sua qualidade.

Aos cursos já oferecidos na modalidade EaD, nos é necessário estabelecer parâmetro para oferta do ensino, de modo a garantir ao menos 30% do currículo na modalidade semipresencial, qualificando de forma mais aproximada o futuro profissional. Aos cursos oferecidos na modalidade à distância, mas que hoje contam com brecha de sofrerem modificações de 20% em sua grade para à distância, em desacordo com o ofertado ao estudante quando visa ingressar na universidade presencial, precisamos garantir a restrição de disciplinas à distância somente em disciplinas eletivas, de forma a não prejudicar a grade.

Ao contexto, elaborar lista de carreiras profissionais que podem ser realizadas a distância, de modo a preservar a qualidade do ensino, elencando disciplinas e eixos com necessidades específicas com técnicas de suas áreas. Devemos, também, tomar atenção ao avanço do EaD nas universidades públicas, tendo como exemplo a relação recém vinculada entre FATEC e UNIVESP, onde os cursos da maior faculdade de tecnologia do país devem migrar em breve para administração da UNIVESP, que conta com margem de aplicação de apenas 27 milhões de reais ao ano, podendo não suprir todas demandas e necessidades da gama de estudantes que hoje a FATEC já atende.

De forma a sintetizar, e sem tornar a situação simplista ou genérica, o avanço do EaD é um fato dado não somente no Brasil, mas em todo mundo – fato, este, que se relaciona com interesses financeiros de grupos norte-americanos – no entanto, não nos cabe apenas uma posição de denuncismo do fato, mas de cunho para conduzir tal processo ao interesse do desenvolvimento nacional, onde o avanço de tais tecnologias possam garantir maior formação de mão-de-obra, no entanto, de forma responsável, de qualidade e produtiva.

Por fim, EaD não deve significar apenas mais profissionais formados – o que por si só já possuí valoroso potencial ao país – mas a possibilidade de se alcançar sonhos que, dadas as condições do sistema em que vivemos, de exploração do trabalho e do elevado custo do tempo, de brasileiros e brasileiras que têm esperança de um futuro melhor.

*Ergon Cugler é diretor de Universidades Públicas da UEE-SP e estudante de gestão empresarial da FATEC-Praia Grande.

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