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A Unicamp se “pintou de povo”?, por Cris Grazina

 

cris grazinaDados divulgados recentemente pela COMVEST (Comissão Permanente para os Vestibulares da Unicamp) apontam que metade dos calouros deste ano é proveniente do sistema público de ensino. No curso de medicina, o mais concorrido, a percentagem foi ainda mais alta. Mas, enfim, há o que comemorar?

Em parte, sim. Os números divulgados com relação aos aprovados no vestibular da Unicamp, onde 50% desses teriam cursado o ensino médio em escolas públicas, causaram alvoroço nas redes sociais. No curso de medicina, o mais concorrido, a proporção é ainda maior, alcançando os surpreendentes 88,2% de novos alunos nessa condição. Uns comemoram a notícia, outros, desconfiam que os dados estejam maquiados de modo a superestimar a popularização da universidade.

De fato, alguns questionamentos são pertinentes, como, por exemplo: Estão contabilizados, entre os tais estudantes da rede pública, aqueles oriundos de escolas modelo como CotucaEtecap, enfim, que possuem uma qualidade bem acima da verificada na realidade geral do ensino oferecido pelo estado? Se assim for, estaríamos fazendo uma “popularização selecionada” da Unicamp. Também é preciso saber se entre os considerados estudantes de escola pública ingressantes, estão os alunos do PROFIS, programa da universidade onde estudantes de Campinas frequentam uma espécie de curso preparatório que os encaminha para vagas disponíveis, sem a necessidade do vestibular.

Contudo, seria excesso de ceticismo considerar que a novidade seja motivo para lamento. Afinal, os anúncios recentes não deixam de ser um avanço, ainda que gradual e insuficiente, resultante da luta e pressão de estudantes, trabalhadores e docentes interessados na democratização da universidade. Inclusive, onde se destaca a militância pedagógica de educadores da rede pública, que heroicamente buscam melhorar o ensino nessas unidades, criando condições para que seus alunos sejam competitivos nos vestibulares, sem contar a existência dos cursinhos populares oferecidos pelos próprios estudantes da Unicamp, entre outra iniciativas, que forçam de fora para dentro as portas da universidade, promovendo sua popularização, mesmo considerando entraves institucionais ainda existentes. 

Levando em conta o gancho, para o conjunto dos movimentos sociais relacionados ao tema, onde se insere a UNE (União Nacional dos Estudantes), certamente, não só a Unicamp, mas, todas as estaduais paulistas só se pintarão totalmente de povo quando aderirem ao sistema de cotas raciais e sociais, com recorte étnico. Isso não acontece devido à resistência interna de alguns setores da universidade a esse modelo de inclusão. A não implantação das cotas, a meu ver, se dá em face de uma visão estreita que impede parte da comunidade acadêmica da Unicamp de tolerar e admitir a adoção de um sistema que deu certo nas federais. Dessa forma, se vê uma objeção enraizada na universidade, permeada por motivações de natureza política (as vezes sectária), social, bem como por um sentimento característico da Unicamp de preferencialmente buscar soluções próprias e internas para seus problemas.  

Porém, a resistência à política de cotas é também nitidamente ideológica. Embora sua aplicação e eficácia possam ser comprovadas tecnicamente, haja vista os exemplos das mencionadas federais brasileiras, a adoção das mesmas é uma bandeira social e representa um discurso de empoderamento e apropriação, por parte do povo, dos espaços de privilégio. Digo isso pois, na forma como foram anunciados os números da composição dos calouros da Unicamp, pareceu-me implícita a narrativa de que “é possível popularizar a universidade sem a adoção de cotas”. Vê-se, nesse caso, um discurso que se pauta na lógica da meritocracia, do bônus, da conquista pelo próprio esforço e não pela justiça social levando em conta o passivo histórico que a sociedade tem com as classes desfavorecidas deste país. 

Escrevo com entusiasmo sobre o assunto pois, durante o período em que ocupei a Coordenação Geral do DCE da Unicamp, durante o ano de 2015, esse foi um dos temas mais recorrentes em nossas discussões e ações. No início da nossa gestão, identificávamos essa pressão das ruas pela democratização da universidade. Lembro que à época, fomos criticados por fazer uma calourada na “Estação Cultura”, espaço no centro da cidade que cotidianamente recebe eventos de hip-hop e funk, isso por termos nos ‘afastado da Unicamp’. Em contraponto, no dia do evento, fomos saudados por dezenas de estudantes da cidade que afirmaram estar maravilhados com o fato da universidade ter ido às ruas, permitindo aquele contato. Por fim, o público da calourada foi composto em sua maioria por estudantes do ensino médio da periferia, do que propriamente de calouros. Fico feliz em imaginar que, talvez, aquela experiência possa ter nutrido os sonhos daqueles que hoje estão comemorando a aprovação no vestibular. 

Concluindo, é preciso pensar um pouco além, quando há outros elementos conectados à popularização da universidade. Afinal, quantos desses estudantes oriundos de escola pública terão condições de concluir o seu curso? Os altos custos para se prosseguir na graduação (moradia, alimentação, materiais, transporte) são um fator excludente para aqueles com renda mais restrita. Nesse sentido, a Unicamp deve ampliar urgentemente, seus investimentos para permanência e assistência estudantil, afim de que aqueles que entrem possam também ficar. Além disso, há uma condição indispensável para que a universidade pública deixe de ser um privilégio e vire um direito: a sua ampliação! Afinal, o número reduzido de vagas nas estaduais paulistas já é, na origem, excludente¹. Tendo em vista que atualmente, levando-se em conta só no estado de São Paulo, milhares de jovens se formam no ensino médio e depois não dispõem de perspectivas para continuar sua formação, por não encontrem vagas suficientes nas universidades públicas para os mesmos, e nem tampouco possuírem condições de arcar com os custos do ensino superior privado. 

 *Cris Grazina é vice-presidente da UNE-SP. Foi Coordenador Geral do DCE-Unicamp durante o ano de 2015.

¹ Somando-se as todas as vagas de graduação, incluindo as já preenchidas, das estaduais paulistas, chegamos ao número de aproximadamente 156 mil estudantes (Unicamp: 18 mil, Unesp: 46 mil e USP: 92 mil). Um dado que revela o quão restrita é a capacidade das estaduais, e o quanto somente uma pequena parte da juventude tem acesso ao ensino público paulista de excelência. Se levarmos em conta somente o número de vagas disponíveis a serem disputadas todos os anos nos vestibulares, o número é mais ínfimo ainda comparado a grande massa de milhões de jovens somente paulistas que saem do ensino médio todos os anos. 

 

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