Pular para o conteúdo Pular para o Mapa do Site

Notícias

“A militância salva vidas: o que adoece é o capitalismo”, por Bruna Rocha

bruna_rocha_une

Diretora de Mulheres da UNE faz uma reflexão sobre os modos de luta política coletiva e a necessidade de organização

Não, isso não é um manifesto fundamentalista. É uma modesta tentativa de problematizar uma narrativa que tem ganhado peso, sobretudo nas redes sociais, de que “a militância adoece”. Vamos lá, esse não é um debate simples e, portanto, seria leviano de minha parte tratá-lo de maneira simplista. Não estou aqui para afirmar dogmas, tampouco me interessa uma perspectiva religiosa da política.

Sou forjada em uma tradição marxista crítica, mas também no que há de mais orgânico da luta popular, negra e feminista. Desde o início da vida política, preservo minha autonomia, minha capacidade reflexiva, num contrafluxo constante aos processos automatizantes que algumas vezes os coletivos impõem, e isso foi importante para que eu me colocasse enquanto sujeito que influencia o todo e também se deixa influenciar. As organizações políticas, enquanto parte de um tecido social, reproduzem, em maior ou menor escala, a lógica que organiza a sociedade capitalista: o machismo, o racismo, a meritocracia, a deslealdade, a competitividade. Nossa contradição primordial é disputar um Poder que foi feito para nos destruir: o Estado. Não é tarefa fácil, trocar pneu com o carro andando, ou mudar os rumos do trilho com o trem em movimento: mas quem disse que seria?

O que nos adoece

Primeiramente, Fora Temer (risos). Segundamente, quero falar um pouco sobre o que eu acho que realmente nos adoece: o capitalismo. Não é premissa da organização política o estado pleno de tensão e disputa que, de fato, é adoecedor; mas sim das condições materiais e simbólicas através das quais esta luta se realiza. Para nós, mulheres e povo negro, o negócio ainda é mais difícil. Não é brincadeira sair de casa duas horas antes, pegar ônibus lotado, correr da aula na faculdade para ir para a fila do bandejão, correr para o ponto pra não perder o ônibus que nos leva aos balcões de telemarketing, e ainda no final do expediente se reunir num coletivo para se organizar politicamente; e ainda disputar opinião no centro acadêmico, disputar vaga num Diretório Central de Estudantes ou disputar um projeto de cidade através de eleições municipais. De toda essa rotina, será mesmo que o que mais nos adoece é a luta política?

Vivemos um estado permanente de violência. A violência da invisibilidade, do assédio, da ausência de políticas públicas de prevenção social, violência policial, violência doméstica, violência midiática, violência afetiva. Será mesmo que o que nos adoece são os processos que organizamos para enfrentar essas violências e manter vivo a nossa ancestral utopia de liberdade?

Nosso tempo histórico é adoecedor

A revolução industrial trouxe um tantão de coisas importantes para a humanidade; as novas tecnologias da informação diluiu fronteiras, ampliaram o acesso à produção de conhecimento, democratizou o mínimo poder de fala; mas trouxeram também uma dose importante de depressão ao nosso tempo, e acho que ainda não conseguimos decodificar esse fenômeno, essa doença social. Eu tenho observado que as gerações posteriores à minha já vêm sobrecarregadas de dúvidas, angústias e pressões, mesmo que estas pessoas tenham “menos experiência” de classe trabalhadora. Parece que vivemos a geração da ansiedade: ansiedade por não saber o que fazer com o que já foi, ansiedade por não conseguir prever o que está por vir.

Acredito que a efemeridade característica desse tempo, tem abalado muito as referências necessárias para manter a mente sóbria numa estrutura de loucura que é a forma como se organiza a sociedade. É preocupante que esta falta de referências mais sólidas, fragilize muito o processo de construção desses sujeitos, cuja responsabilidade histórica é muito grande diante da conjuntura política de polarização internacional e crise do capital.

Não estou sendo pessimista diante das novas ferramentas de luta, como as redes sociais, tampouco com os processos de interculturalidade que a globalização nos proporcionou. Sou uma entusiasta na construção de outras metodologias de luta, cada dia mais humanizadas, no processo de construção do socialismo. Sim, o socialismo é uma utopia que me orienta, mesmo tendo críticas à forma como foi experimentado até hoje.

Foucault me ensinou a não ser dogmática, Lélia Gonzalez me ensinou a olhar além do óbvio, Bell Hooks me ensinou que o amor é importante. Sou uma defensora convicta da atualização das formas de luta, sobretudo na esquerda, porque a direita serve para conservar, mas nós estamos aqui para transformar. Se não tivermos capacidade de transformar nossos instrumentos de luta, dificilmente conseguiremos transformar a sociedade.

Isso significa que a esquerda precisa sim incorporar novos sujeitos, enegrecer suas epistemologias, ter direções políticas mais feministas e coloridas, repensar seus métodos, horizontalizar cada dia mais sua construção cotidiana. Mas vamo lá, né gente, não vamos jogar a água do balde com o menino dentro! Não dá pra sairmos da crítica construtiva que contribui para a luta da classe trabalhadora, dar dois passos e cair numa perspectiva totalmente liberal de ativismo, onde o “bem-estar” individual é o pressuposto absoluto para organizar os tensionamentos coletivos. Esta é uma estratégia perigosíssima que, ao meu ver, reforça a tática capitalista de recuperar fôlego se apropriando de nossas pautas a partir de valores neoliberais. Num mundo onde a atomização dos sujeitos é a estratégia central para desorganizar o povo, revolucionário é conseguir juntar gente, pois estamos em guerra e de fato, quem está em paz, deve estar bastante alheio ao mundo aqui fora.

“A tirania das organizações sem estrutura”

O subtítulo acima se refere a um texto de Jo Freeman, que tenho minhas discordâncias, mas que, de todo, serve muito para pensarmos as novas facetas de ativismo liberal no nosso tempo. Nos últimos anos, com o advento da popularização da internet e, sobretudo, pós junho de 2013, um conjunto de “novas organizações” surgiram e polarizaram concepções de luta com a esquerda tradicional, organizada em partidos, sindicados, entidades. Não gosto dessa polarização e acho que ambas formas podem coexistir num bloco político que busca instituir novos marcos democráticos no país e no mundo. No entanto, quero aqui apontar algumas incongruências e contradições nessas “novas formas” também. Primeiro, a maioria delas nega o centralismo democrático e se sustentam publicamente enquanto organizações extremamente horizontais, mas são representadas em todos os espaços por uma pessoa só. Essa mesma pessoa articula, organiza, formula, aparece. Não há rotatividade, não há alternância, há sim uma puta centralização de poder, muitas vezes pautada no personalismo e no estrelismo.

Muitas dessas organizações negam a lógica de representatividade eleitoral, mas se comportam de forma igual ou pior, pois na maioria das vezes suas lideranças não foram eleitas para estar naquela posição, muito menos consensuadas, são apenas naturalizadas. Com isso não quero dizer que estas figuras, necessariamente, cumpram um papel contrarrevolucionário: só quero trazer à tona as fragilidades de uma formulação que muitas vezes ataca a organização coletiva e apresenta uma alternativa ainda mais recuada do ponto de vista da distribuição de poder.

A autora citada fala: “a estrutura informal de deliberação será como uma “irmandade” , na qual se escuta as pessoas porque se gosta delas e não porque dizem algo significativo. Enquanto o movimento não faz coisas significativas, isso não importa muito. Mas para que seu desenvolvimento não pare numa etapa preliminar, ele deve alterar essa tendência. A segunda consequência é que as estruturas informais não têm obrigação de ser responsáveis pelo grupo como um todo. Seu poder não lhes foi dado; não pode ser tirado. Sua influência não se baseia no que fazem pelo grupo; portanto elas não podem ser diretamente influenciadas pelo grupo”.

As organizações políticas tradicionais nos preparam para a disputa de hegemonia com o Capital. Outras experiências de organização social, como ONGs, coletivos pulverizados ou até mesmo lideranças individuais, têm pouca capacidade de disputar hegemonia, o que não significam que não possam contribuir: mas o fazem de maneira isolada, mesmo quando articuladas em rede. Ainda assim, estas redes precisam seguir um método de funcionamento, que de algum modo, irá centralizar estes agentes esparsos. Eu acredito que num mundo onde a atomização dos sujeitos é a estratégia central do capitalismo para a desorganização da classe trabalhadora e manutenção da opressão sobre os povos, é revolucionário se centralizar por uma estratégia coletiva. Há uma linha tênue entre o liberalismo e o autonomismo: individualismo e luta política é uma conta difícil de se fazer na nossa tradição. Organizações muito fluidas, sem estrutura nítida, exercem uma espécie de poder anônimo, o que pode ser mais tirano do que o poder autoritário da organização mais centralizada.

Não acho que devamos reforçar nenhum tipo de maniqueísmo entre as diversas táticas no campo progressista da sociedade, devemos avançar sobre o que realmente nos mata e nos adoece permanentemente: esse sistema de coisas triturante e desigual do capitalismo. Mas precisamos fazer esse debate, com muita tranquilidade e franqueza.

É um desafio produzir consensos entre formas diferentes de organização política, mas é exatamente esse o exercício da democracia plena que precisamos construir. É uma equação dificílima conciliar interesses individuais com a luta política coletiva, com ações coordenadas, estratégias macropolíticas: mas essa é nossa tarefa e devemos fazê-la.

Não me identifico com uma práxis política militarizada, disciplinadora, monolítica, vertical; mas também não acredito em grandes processos revolucionários sem compromisso, disciplina, responsabilidades, direção política, e isso tudo implica em sacrifícios. A justa medida entre o que cada sujeito pode dar e o que cada organização demanda de cada sujeito, precisa ser feita. Não dá para o coletivo invisibilizar as demandas individuais dos sujeitos, tampouco os indivíduos travarem processos coletivos em torno de suas próprias demandas. É uma dialética permanente, que precisa ser aperfeiçoada, mas jamais abandonada.

Estar numa organização política, na minha opinião, é um processo mais curativo do que adoecedor. Sobretudo nos espaços de auto-organização negra e feminista, aprendemos a fazer política de um jeito diferente, a partir da colaboração, da pluralidade de opiniões, das concessões individuais em busca do que, coletivamente, mais acrescenta em cada uma e cada um. Esta experiência pode não nos livrar das doenças de nosso século, provocadas sobretudo pela péssima qualidade de vida que o sistema capitalista organiza, mas certamente nos cura de algumas doenças sociais, como, por exemplo, a baixa autoestima de setores marginalizados, a insegurança, o medo de se colocar diante da sociedade. Quantos pessoas assumiram sua sexualidade, sua identidade racial ou saíram de situações de violência, a partir da experiência em organizações coletivas? Isso não é pouca coisa, não são poucas vidas salvas.

É óbvio, que, como cito lá em cima, existem organizações que praticam relações abusivas com sua base social e até mesmo entre dirigentes, mas daí precisamos debater métodos, cultura política, práxis revolucionária, e não afirmar uma falsa incompatibilidade entre subjetividades e organização política. Não topo o debate de criminalização das organizações sociais, nem vindo da direita, nem vindo de ativistas que fizeram a opção de trilhar carreira solo.

Há um senso comum que não compreende muito bem a opção de dedicar a vida a um projeto coletivo. Nos indagam sobre nossa saúde (como se fossem pessoas ultra saudáveis), sobre nossa vida afetiva, nossa felicidade. Fico pensando: qual conceito de afetividade, saúde e felicidade têm essas pessoas? Devemos respeitar a diversidade de opinião e inclusive a orientação política de cada um e cada uma, sobre o que acha que é prioritário pra sua própria vida. Na militância, a construção dos laços deve ir para além do humor diário, das vaidades, das preferências culturais, dos ciclos, do território. Laços de ideologia, de um sonho em comum, de um caminho trilhado por passos que veem de longe. E isso não passa necessariamente por amar todo mundo, ser amiga de todo mundo, querer todas essas pessoas no ciclo pessoal ou na vida afetiva: é política, e política é o caminho alternativo à barbárie. Solidariedade pra nós não é uma prática de caridade: é uma forma organizativa, é uma tecnologia social.

Pra uns, felicidade é casar, ter uma família, viver de momentos leves e serenos. Pra outros, viajar pelo mundo, não estabelecer vínculos e nem compromissos. Pra nós, militantes organizadas e organizados, felicidade é fazer luta política, e isso traz alegrias, mas também muitas pressões, tensões, adrenalina, desgastes. Não foi fácil pros nossos antepassados, não foi fácil pra nossa família, não haveria de ser para nós. Lutamos para que seja menos difícil para quem vem daqui por diante. Quanto mais gente envolvida nesta luta, menos gente se sobrecarrega: nosso inimigo é um sistema internacional e é preciso ter coragem, disposição e ESTRATÉGIA COLETIVA para enfrentá-lo. Às vezes vamos deixar de ir à praia, outras vamos perder uma grande viagem ou festa, mas é isso: mudar o mundo nos interessa muito mais.

*Bruna Rocha é estudante da Universidade Federal da Bahia e diretora de Mulheres da União Nacional dos Estudantes.

Pular para o Conteúdo Pular para o Topo