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Você sabe o que é a cultura do estupro?

31/05/2016 às 12:40, por Redação.

Culpar a vítima ou achar que a situação poderia ter sido evitada é um dos principais enganos reproduzidos por essa cultura cruel

O caso da garota carioca estuprada por mais de 30 homens chocou a opinião pública e tem repercutido internacionalmente sobre o machismo e a cultura do estupro no Brasil.

Mas na real, o que é a cultura do estupro? O nome parece bastante forte, mas quer dizer exatamente isso: uma série de atitudes que faz com que este ato hediondo seja banalizado e até mesmo melhor aceito, com se a situação ( quem, onde, fazendo o que, vestida como, por que) realmente importasse nesse tipo de violência.
Levantamos uma série de questões para exemplificar como essa ‘cultura’ está enraizada no nosso cotidiano. O texto original é do Buzzfeed News.
> Achar que estuprador é só aquele cara desconhecido que ataca uma mulher no meio de uma rua escura, às 2h da madrugada. A maioria dos estupros ocorre entre familiares e amigos. Embebedar uma amiga ou amigo e depois fazer sexo com ela ou com ele é estupro. Estupradores não são doentes mentais. Não são somente aqueles homens vistos como maus. Podem ser pessoas que admiramos, pessoas próximas. Não entender isso é uma armadilha que ajuda a perpetuar a impunidade e a cegueira em relação ao problema.

> Achar que existe um meio-termo quando se trata de estupro. Em inglês, isso seria chamado de ‘grey rape’, um meio caminho entre negação e consentimento. Não há. Esse termo é uma fantasia, pois quando se trata de violência sexual, não há como se falar em estereótipos. Aí voltamos à primeira atitude. Se não há consentimento expresso, é estupro. Ponto.

Romantizar a conquista a qualquer preço e achar que um ‘não’ pode significar um ‘sim’ se ele não é dito com ênfase. Nem todo mundo irá dizer não com convicção. Por outro lado, só há consentimento se o sim é dito com convicção. Todo o resto é um sinal de que não se deve avançar o sinal. Por isso, não basta trabalhar em prol do ‘não é não’, mas sim do ‘só ó sim quer dizer sim’.

> Culpar a vítima. Dizer que as vítimas têm responsabilidade pelo próprio estupro é cruel, mas muita gente parece não se importar. Comparar essas pessoas às mesmas pessoas que foram roubadas porque não trancaram a porta de casa é transformar pessoas em objetos e desumanizá-las. O mesmo vale pra quem compartilha vídeos e fotos de meninas em situações íntimas, ri delas e as trata como vagabundas. Quer dizer que uma vida sexualmente livre te faz merecedora de um crime cruel? Qual é a lógica?

> Cantadas de rua também ajudam a perpetuar a cultura do estupro. Como? Simples: ao tratá-las como algo normal, você passa o recado de que é OK um homem dizer a uma mulher o que ele gostaria de fazer com ela sem o consentimento dela, afinal, ela não pediu a opinião dele e não está disponível. Se um homem continua avançando sexualmente em relação a uma mulher, seja com palavras ou ações, sem que ela deseje fazer parte disso, isso quer dizer o quê?

> O mito de que a vítima pode evitar o estupro. Estupros acontecem porque estupradores cometem estupro. Porque veem uma mulher como objeto, esteja ela de saia curta ou de burca. Se ele não mudar o seu comportamento, e se a sociedade não fizer o mesmo, de que adiantam todas as precauções dela? Além disso, estupros acontecem tanto na rua quanto em casa, com mulheres jovens e idosas. Vamos ensinar os homens a não estuprar, ou vamos prender todas as mulheres em casa? Você prenderia tua mãe ou irmã em casa por que há homens que podem estuprá-las?

> Roupas e acessórios anti-estupro (e em alguns lugares, iniciativas de segregação como ônibus e vagões de metrô exclusivos para mulheres) são parte do problema. Além de passarem a mensagem de que a mulher é responsável pela atitude desumana de um homem, sabe-se que isso é ineficaz na hora do estupro – e pode levar a vítima à morte. No caso dos espaços exclusivos, segregam as mulheres enquanto os homens continuam livres para atacar as que estão nos espaços mistos – e em outros lugares, pois nos demais espaços, homens e mulheres continuarão a conviver, certo?

> Piadas de estupro. Desumano. Mostra a imbecilidade de quem sai por aí fazendo isso. É um atestado de insensibilidade e imaturidade. Se até muitos criminosos repudiam tal comportamento e a apologia a ele, o que dizer de quem conta piada de estupro e ainda se sente perseguido por receber advertência? Quando você conta uma piada, você passa a mensagem de que é normal você e seus amigos rirem de quem tem a vida destruída por isso. Bonito, né? E pra quem diz que isso não influencia nos índices de estupro: realmente, o estuprador vive em uma bolha, em uma redoma de vidro, e não é influenciado por nenhum tipo de discurso (sejam campanhas publicitárias ou piadas) a respeito de seu comportamento.

> Medo de denunciar é algo normal numa sociedade que culpa as vítimas, não acredita nelas ou vê o estupro delas como algo menor – desde a polícia e o médico legista até a família, amigos e jornalistas. Mas é preciso romper o silêncio. Não cometer as atitudes acima é uma boa forma de ajudá-las. Ninguém é culpado até prova contrária, mas simplesmente não levar a sério uma denúncia de crime é um absurdo que deve ser combatido incessantemente.

> Falsas acusações de estupro também contribuem pra isso, pois invisibilizam e causam desconfiança em relação a quem realmente é vítima. Isso não é algo comum, mas é algo nefasto.

> Minimizar quando o estuprador é famoso. E ainda ajudá-lo com seu apoio. É impossível separar uma coisa da outra. Claro que uma pessoa pode ser um estuprador e também um brilhante cineasta ou esportista. Mas você quer ajudar a enriquecer e a dar visibilidade social e até política a alguém que abusa de outras pessoas?

> Minimizar o estupro quando ele acontece com minorias. Estupro é estupro, e transexuais, travestis, prostitutas e mulheres casadas também podem ser vítimas. No caso de menores de idade, saiba que crianças e adolescentes não podem se prostituir, e sim são vítimas de exploração sexual. Não importa o quanto as pessoas berrem que eles sabiam o que estavam fazendo, eles não poderiam fazer essa opção conscientemente. E o mesmo vale para negras e indígenas, que sofrem duas vezes com o problemas, pelo machismo aliado ao racismo que as objetifica ainda mais e fazem com que fiquem mais vulneráveis aos crimes sexuais.

> Limitar direitos das mulheres das mulheres em casos de estupro com justificativas religiosas e conservadoras. O projeto de lei 5069/2013, aprovado em outubro de 2015 na Comissão de Constituição e Justiça do Câmara dos Deputados, encabeçado pelo deputado afastado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) dificulta a realização de aborto em caso de estupro e penaliza qualquer pessoa que oriente a mulher sobre as possibilidades legais de um aborto.

Além disso, exige que a vítima faça Boletim de Ocorrência e exame de corpo de delito para comprovar o estupro e então ter direito à profilaxia do estupro, que inclui procedimentos como a pílula do dia seguinte, para evitar que a vítima engravide do estuprador, orientações psicológicas e remédios que evitam ou diminuem as chances de contaminação por DSTs. Como no Brasil as delegacias não estão preparadas para acolher as vítimas e investigar esse tipo de denúncia, a Lei só dificulta o apoio a vítima.

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