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“Vamos pra cima”, entrevista com Carina Vitral, presidenta da UNE

16/04/2016 às 21:12, por Rafael Minoro.

Segundo a estudante da PUC-SP, os movimentos sociais já viraram o jogo do impeachment nas ruas, o pedido não passará e a juventude continuará mobilizada

Há um ano atrás, ela estava na rotina noturna do metrô de São Paulo, mochila nas costas, voltando das aulas no curso de Economia na PUC-SP e liderando os estudantes daquele estado na União Estadual dos Estudantes (UEE-SP). As reivindicações eram o Passe Livre na cidade, a qualidade de ensino nas universidades privadas, a desmilitarização da PM.

Os compromissos já tinham aumentado um pouco a partir de junho, quando foi eleita para conduzir a União Nacional dos Estudantes em um cenário de grande polarização da política nacional. Dali, o destino levou a santista Carina Vitral, 26 anos, até aqui: ser a presidenta da UNE no momento histórico da tentativa de um golpe de estado no país, com a interrupção irregular do mandato da presidenta Dilma Rousseff.

A UNE marca presença em todos momentos decisivos do Brasil e este é mais um deles”, afirma nesta entrevista ao site da entidade. Segundo ela, a responsabilidade pesa pela necessidade de honrar a história do movimento estudantil e de seus líderes, alguns deles perseguidos e mortos justamente na defesa da democracia. No entanto, se diz “inspirada” pelo novo perfil da militância, formada por estudantes das classes pobres que chegaram à universidade na última década por meio das cotas e de programas como o Prouni e o Fies.

Ela afirma que os movimentos sociais já viraram o jogo do impeachment na rua e que os deputados já sabem que há uma base de apoio popular muito grande à democracia e contra o golpe. Porém, afirma que o dia seguinte será nas ruas, mesmo com o fim do processo de impedimento. “A garantia da democracia é a nossa maior bandeira, mas não encerra a nossa pauta de reivindicações”, explica.

Leia abaixo a entrevista na íntegra:

Como é ser presidenta da UNE nesse momento ?

Nossa. A pergunta é tão direta, mas quando realmente paro pra pensar, vejo o tamanho enorme de tudo que está envolvido nisso. A UNE é uma fiadora da democracia brasileira, é um nome recorrente nos livros de história em diversos períodos do século XX pra cá, é uma força, um símbolo que marca presença em todos momentos decisivos do Brasil e este é mais um deles. Por isso, acho que ser a presidenta nesse momento de ameaça de um golpe no país é saber a necessidade de honrar o nosso passado, inclusive o de líderes estudantis mortos na luta pela democracia como Honestino Guimarães, Helenira Resende, Alexandre Vanuchi, Édson Luis. Ao mesmo tempo, o peso de toda essa história fica leve quando vejo quem está ao meu lado na UNE hoje. O movimento estudantil de 2016 vai brigar pela democracia tendo a legitimidade dos prounisstas, dos cotistas, dos negros, das mulheres, dos gays, lésbicas, trans, da juventude das favelas, do campo, dos que chegaram à universidade vindo muito de baixo. São jovens lutadoras e lutadores que eu conheço diariamente, que me emocionam, me inspiram, que me fazem tentar ter mais sabedoria e motivação. Ao olhar pra essa base, fica muito mais fácil presidir a UNE pra qualquer batalha. Estamos prontas e prontos.

Qual será o resultado desse impeachment?

Não vai passar. Isso já sabemos desde muito tempo, tínhamos certeza de que as manobras para inventar um crime de responsabilidade falso para uma presidenta honesta iria tumultuar o processo e levantar os setores democráticos da sociedade. Todos os deputados sabem que essa encenação do golpismo é motivada pelo desespero do presidente da Câmara e de outros investigados na operação Lava-Jato em escaparem dos holofotes e tentarem salvar a própria pele. Mas a opinião pública sabe que há algo de errado, algo contaminado nesse processo, sabe que, por mais críticas que existam a esse governo, não há como passar por cima da democracia e entregar o poder justamente para esse tipo de pessoas. Os estudantes e os movimentos sociais viraram o jogo do impeachment nas ruas, com mais manifestações, mais atos públicos, mobilização de artistas, intelectuais, das universidades. O movimento Universidade pela Democracia, por exemplo, lançou dezenas de comitês contra o golpe em pouco mais de dez dias, uma mobilização histórica e sabemos que está sendo assim em diversos outros setores da sociedade. Quando o povo se levanta pela democracia não há quem possa detê-lo. Não vai ter golpe.

Como será o dia seguinte?

Será como foi o dia anterior e como têm sido todos: muita luta e cada vez mais unidade dos movimentos sociais. A garantia da democracia é a nossa maior bandeira, mas não encerra a nossa pauta de reivindicações. Vamos pressionar o governo e o Congresso ininterruptamente para uma nova agenda que priorize os mais pobres, os jovens, a população vulnerável e não somente o capital financeiro, o rentismo, os bancos e outros tubarões que estão lucrando com a crise. Somos radicalmente contra os cortes na área da educação, queremos a implantação urgente do Plano Nacional de Educação, mais assistência estudantil nas universidades, valorização do Prouni, do Fies, políticas públicas de juventude, o combate à proposta de redução da maioridade penal, o fim do massacre da juventude negra nas periferias do país. Além disso tudo, queremos o fim da corrupção com a mudança definitiva desse sistema de financiamento privado de campanhas eleitorais, que demonstrou ser a principal raiz das denúncias que temos visto, por exemplo, na operação Lava Jato. O dia seguinte é de luta e o outros seguintes também, nosso lugar é esse, não tem arrego.

Qual o recado para a juventude do país?

O recado é: vamos pra cima, porque estamos do lado certo da história, lutando pelas coisas certas, querendo um Brasil pra todo mundo e não apenas pros poucos de sempre. Mudar a realidade é muito difícil, construir a democracia real é muito difícil, mas já temos conquistas importantes, temos mais vagas nas universidades, temos coletivos de jovens na cultura, na comunicação, temos a organização por redes, o ativismo na luta contra o machismo, contra a homofobia, estamos emplacando as nossas demandas, a nossa agenda, mostrando que nosso país não vai andar para trás. Essa unidade faz da juventude brasileira um movimento inabalável, energético, criativo, orgânico, com muita personalidade pra fazer a diferença. Sabemos que, na hora de um momento crítico como esse que o Brasil atravessa, podemos contar uns com os outros para vencer qualquer desafio. Enquanto alguns outros setores da sociedade criam movimentos de fachadas, fakes para defender o conservadorismo, nós estamos na ocupação das escolas, na luta pela tarifa zero dos transportes, na construção da verdadeira nova política. Lembrei do verso de uma música do Renegado, rapper de Minas Gerais, que manda essa ideia: “Sei quem é amigo,sei quem é inimigo. Sei quem vai correr, quem vai fica comigo. E na hora do perigo,quando a casa cai. Os guerreiro fica, os comédia sai”. O recado é esse: guerreiras e guerreiros, vamos brigar pelo que é nosso porque já estamos nessa estrada há muito tempo. Vai ter luta.

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