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Filhas da luta, mulheres da UFRRJ e USP se levantam contra violência

06/04/2016 às 19:23, por Cristiane Tada.

Estudantes mulheres criam página nas redes para denunciar omissão e silenciamento por parte das universidades

Esta semana, as estudantes da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) se levantaram. Indignadas com os casos de violência contra as mulheres na instituição e em Seropédica, na Baixada Fluminense, onde fica o campus, elas pararam a universidade e chamaram a atenção dos principais veículos de comunicação do país.

Reunidas em grupo do whatsapp em que trocavam denúncias, alardes e cuidado, elas ampliaram a voz no Facebook e a página  “Me avisa quando chegar”, criada no dia 1º de abril, já tem 12 mil curtidas.

Estamos recebendo apoio do país todo, de universidades de lá de Santa Maria (RS), daqui de perto como a UFF, coletivos, e entidades”, destaca a estudante de Comunicação Pamela Machado, uma das moderadoras da página.

Para ela, a internet encoraja as denúncias, facilita os desabafos e é canal de apoio psicológico e emocional para quem sofreu violência. “Cerca de 80, 90% da nossa mobilização é feita na rede”, afirma.

Na segunda-feira (4/4), elas ocuparam o prédio principal (P1) do Campus de Seropédica da UFRRJ. O vídeo da mobilização correu a internet.

Desde então, todo dia alguma mobilização tem sido feita e parece que este é só o começo. Nesta quinta-feira (7/4), ocorre uma assembleia geral dos estudantes que deve ter este como um dos principais assuntos. Entre as reivindicações das mulheres estudantes estão medidas básicas como melhor iluminação e a poda frequente do mato no entorno da instituição.

Omissão das universidades

UFRRJ-estupro_2Protesto de mulheres contra violência na UFFRJ

As denúncias das estudantes são graves contra a reitoria: falta de respeito, omissão e silenciamento.

A história não vem de hoje. Desde 2013, a página “Abusos Cotidianos – UFRRJ” tem mais de 10 mil curtidas e já coletou quase 700 relatos.

A luta também é antiga. A última coordenadora geral do DCE da gestão de 2015, Vanessa Rochstroks, do CA de Ciências Sociais, afirma que entidade tentou por meio de vários atos, cartas e assembleias diálogo com a reitoria para buscar soluções para o problema da violência contra as estudantes. Conseguiram a abertura de arquivos dos casos relatados e constaram que nem 10% ia para a frente.

A reitoria não assume que temos casos de violência”, afirma. E continua: “Temos uma ouvidoria que nada faz e que não ouve, não adianta ser do DCE, ou conselheiro do Consu [órgão máximo de consulta e deliberação coletiva na Universidade] ”.

Por exemplo, Vanessa conta que já partiram mais de 10 denúncias de abuso realizados por um técnico da UFRRJ e ele continua trabalhando normalmente.

Este ano já existem relatos de três estupros. Após o levante das mulheres, a reitoria se pronunciou em nota reconhecendo que existem problemas de segurança e declarou que a “Administração Central vai instaurar comissões de sindicância e de processos administrativos disciplinares para a apuração imediata das ocorrências que forem encaminhadas oficialmente ao seu conhecimento”.

A reitora Ana Maria Dantas Soares é primeira mulher no cargo máximo da UFRRJ. Para a última coordenadora do DCE, falta empatia da reitoria com a causa.

“Queremos que os agressores sejam afastados da universidade, clareza no processo e apoio psicológico e jurídico para as vítimas. Queremos ação. Não é uma nota que vai nos contemplar”, ressalta.

USP já foi alvo até de CPI

A precarização da moradia estudantil e a falta de assistência das instituições submetem muitas estudantes à situações de violência cotidiana. A USP, a maior universidade do país, tem um histórico extenso de violação dos direitos humanos que foi alvo até mesmo de uma CPI na Alesp.

Nesta semana, a sede da Superintendência de Assistência Social (SAS) da USP foi ocupada após a assembleia de moradoras e moradores do CRUSP. As estudantes residentes da moradia estudantil exigem que a SAS expulse imediatamente dois homens moradores do bloco da pós-graduação, envolvidos em casos de agressão a mulheres – a última ocorrida na segunda-feira (04/04).

Os relatos são de que SAS, por meio dos seus guardas, que seriam responsáveis pela “segurança”, apenas tem protegido os agressores e um longo histórico de violência contra mulheres e LGBTs.

“E essa é a política de proteção aos agressores que a SAS utiliza para lidar com todos os casos de violência no CRUSP, sem nenhuma preocupação com o amparo, saúde psicológica e segurança das vítimas, muitas vezes obrigando-as a conviver com seus agressores”, afirma nota dos manifestantes.

Pesquisa aponta medo das mulheres estudantes

O medo de retaliação, da exposição emocional, as tentativas de silenciamento de quem deveria amparar e o descaso configuram uma violência ainda maior para quem já sofreu violação.

Pesquisa do Instituto Data Popular e Instituto Avon que contatou que 56% das estudantes já sofreram algum tipo de assédio e que 63% delas não reagiram ou denunciaram.

A presidenta da UNE, Carina Vitral, garantiu a responsabilidade da entidade em uma campanha de enfrentamento e conscientização à violência das mulheres estudantes no último EME da UNE, realizado em março em Niterói (RJ).

“Porque falar sobre isso é deixar de sentir medo. Muito porque não existe espaço de denúncia dentro da universidade. Precisamos de um código de conduta para punir agressores e assediadores, ter uma ouvidoria que faça um acompanhamento às vítimas também”.

Os números da pesquisa mostraram ainda 42% das mulheres tem medo de estar na universidade.

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