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“Uma das expressões do machismo sobre as mulheres é o silenciamento”

31/05/2016 às 16:27, por Graziela Salomão do Lamparina Scope. .

Confira a entrevista da presidenta da UNE, Carina Vitral, divulgada no dia 25/05/2016 no site Lamparina Scope, um portal fundado recentemente por três jornalistas com passagens por grande veículos de imprensa para divulgar pautas que gravitam ao redor do universo feminino; a entrevista é assinada pela repórter Graziela Salomão

 

Ela comanda a maior entidade estudantil da América Latina, não reconhece o governo do presidente interino Michel Temer e afirma que o machismo na política é diário e opressor. Saiba quem é a atual presidenta da UNE (ela vai dar o que falar!)

Quem acompanhou as redes sociais nos últimos meses – em especial as manifestações dos estudantes desde o ano passado – certamente viu Carina Vitral em algum momento. Seja num debate político com Kim Kataguiri, coordenador do Movimento Brasil Livre, seja participando de atos em favor dos secundaristas de São Paulo ou em Brasília nas manifestações contra o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, a presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE) esteve presente se posicionando de forma enfática.

A santista de 27 anos tem se destacado no movimento estudantil e chamado (muito!) a atenção. Promete trilhar passos como os de Lindbergh Farias, que também foi presidente da entidade e hoje é senador pelo Partido dos Trabalhadores. Eleita em 2015, a estudante de Economia da PUC-SP é fervorosa ao dizer como o papel das mulheres em movimentos como o dos estudantes é fundamental para que eles avancem em seus debates. “Não há apenas uma voz feminina entre nós, somos muitas e estamos unidas, em pé de igualdade”, diz Carina em entrevista exclusiva ao Lamparinascope.

Igualdade não foi bem o que aconteceu em seu debate com Kim Kataguiri, no último mês de abril, em uma mesa redonda promovida pelo jornal “Folha de S. Paulo”. Com argumentos fortes e coerentes, ela simplesmente destruiu seu “adversário político”. “Me incomoda a tentativa de criação de lideranças “fake” juvenis, como se representassem um grande número de outros jovens, mas que na verdade estão ali por outros interesses”, diz.

Há ainda muito o que se percorrer. Ela sabe disso. “Ser mulher é um desafio diário em um país machista como o nosso”. Defensora do governo Dilma Rousseff, esteve nas manifestações contra o impeachment e acredita que a presidenta foi vitima de machismo sim. Sobre os escândalos das gravações de Romero Jucá e o presidente interino Michel Temer, ela é incisiva: “Agora nos resta unir os dois lados que estiveram nas ruas contra Temer”.

Anote esse nome: Carina Vitral. Se ela se mantiver atuante como tem sido, tenha certeza de que você ainda vai ouvir falar muito dela na política em alguns anos. Enquanto isso, aproveite nosso papo.

Lamparinascope: Você sempre gostou desses assuntos sociais e políticos?

Carina: Desde a minha adolescência busquei participar de causas coletivas. Um dos caminhos foram os projetos extra-curriculares da escola, que me levaram para o movimento do terceiro setor. Cheguei a viajar para o exterior para apresentar alguns projetos que desenvolvemos na minha cidade e, a partir dali, fui me envolvendo mais com diversos movimentos, como o de mulheres, o da juventude e, finalmente, o movimento estudantil.

L: Como foi seu caminho até chegar à presidência da UNE?

C: Fui diretora da UNE quando estudei em Santa Catarina (SC), depois vim para a PUC-SP e continuei participando do movimento estudantil. Tive a honra de ser eleita presidenta da União Estadual dos Estudantes em São Paulo. Aqui é um mundo e isso me permitiu conhecer de perto a realidade de milhares de estudantes e me aproximar ainda mais da UNE e de todo o seu trabalho. Em junho de 2015, em um dos maiores e mais representativos Congressos que a entidade já realizou, com a participação de mais 1,5 milhão de jovens durante as votações nas universidades e 15 mil presentes em Goiânia, fui eleita para a presidência.

Uma das coisas mais valiosas que aprendemos nos movimentos de mulheres é que “mexeu com uma mexeu com todas”

L: Pretende ser a voz feminina e política dessa nova geração?

C: Acho que quando se está em uma posição como a minha, diante de uma grave crise política como a que vivemos, de ataque à democracia, sendo presidenta da principal entidade de representação dos estudantes no país, é natural que você ganhe um destaque, uma visibilidade. E eu não sou de fugir do debate, da luta. Uma das coisas mais valiosas que aprendemos nos movimentos de mulheres é que “mexeu com uma mexeu com todas”. Não há apenas uma voz entre nós, somos muitas e estamos unidas, em pé de igualdade. Os movimentos de juventude têm hoje cada vez mais lideranças femininas alinhadas, capazes de fazer a diferença, e quero dar a minha contribuição. Nossa luta é por uma reforma política radical que garanta a presença feminina em todos os espaços. Se conquistarmos isso, não será necessário existir uma única voz feminina para uma geração. Vamos juntas.

L: A questão de ser mulher e líder de maior entidade estudantil da América Latina reflete um pensamento da nova geração sobre equidade de gêneros?

C: Com certeza o debate acerca das questões de gênero está mais avançado entre os mais jovens. Vivemos uma transição geracional que opõe os espaços tradicionais da política, onde há uma predominância intocável de homens mais velhos, e os espaços da mobilização da juventude, onde começamos a caminhar um pouco para a paridade a partir da afirmação de lideranças femininas. Somente na UNE as mulheres estão na presidência, vice-presidência e em diversos cargos de diretoria. Outras duas importantes entidades do movimento estudantil, a UBES (dos secundaristas) e a ANPG (dos pós-graduandos) também são presididas por mulheres. Muitas Uniões Estaduais de Estudantes são presididas por mulheres. O mesmo acontece em CAs, DAs, DCEs e diversas outras entidades.

L: Já sentiu algum tipo de preconceito por ser mulher e estar em uma posição de liderança? Como foi?

C: Já senti e ainda sinto. Vale dizer que, para chegar à posição de liderança sendo mulher, você precisa se esforçar muito mais do que um homem para demonstrar o valor das suas ideias. Uma das principais expressões do machismo sobre as mulheres na política é o silenciamento. Somos interrompidas por homens quase o tempo todo. Outro preconceito é a objetificação e a tentativa de avaliar a beleza física de uma mulher quando ela está em um lugar de poder ou liderança. Isso é massacrante e sempre é usado como um instrumento para diminuir a importância do que ela fala e propõe.

L: Acredita que a sua geração está mais politizada e engajada nas discussões sociais do país, independente do lado em que ela se posiciona?

C: Tenho a certeza de que a juventude nunca deixou de ser engajada. Pode ser que as redes e o momento por qual passa não só o Brasil, mas todo o mundo, coloque o jovem em uma perspectiva de maior destaque. Afinal, a nossa rebeldia incomoda e transforma. Mas acredito que, desde as jornadas de junho de 2013, os jovens estão procurando mais formas de se politizarem e se engajarem para transformar a sua realidade e a sociedade como um todo. A juventude quer avanços, e não retrocessos. Por isso, os movimentos que pedem democracia, atualmente, que denunciam o golpe de estado, que querem a garantia de direitos, que defendem a educação, a saúde, a cultura, que se preocupam com o machismo, racismo, LGBTfobia são predominantemente formados por jovens. Já os grupos que defendem o conservadorismo, que se manifestaram no último período pedindo absurdos como a volta da ditadura militar, que apoiam o impeachment sem provas de uma presidenta eleita são marcados especialmente pela ausência de jovens. A juventude tem lado.

L: Kim Kataguiri, coordenador nacional do MBL, também é líder de um grupo de jovens, assim como você, no entanto com diferenças de pensamentos políticos. Vocês tiveram recentemente diversos conflitos e discussões. O que foi mais a incomodou?

C: Como disse acima, me incomoda a tentativa de criação de lideranças “fake” juvenis, como se representassem um grande número de outros jovens, mas que na verdade estão ali por outros interesses. Kim Kataguiri e o MBL surgiram do nada e nunca estiveram na luta pela educação, na luta pelo transporte público de qualidade, nas ocupações das escolas secundaristas, nas mobilizações contra o assassinato da juventude negra. Não são as pessoas que podem falar, com mais conhecimento, sobre as lutas dos jovens brasileiros. A UNE estava à frente – colaborando, cobrando, apoiando quando achava certo – das principais conquistas recentes para a juventude, como o ProUni, o Fies, o Enem, o Estatuto da Juventude, a meia-entrada. A pergunta que eu sempre me faço é: e o MBL, onde estava?

Outro preconceito é a objetificação e a tentativa de avaliar a beleza física de uma mulher quando ela está em um lugar de poder ou liderança

L: Temos visto uma intensidade maior de propagandas na televisão falando da pouca presença das mulheres na política. O que você acha? Tem vontade de seguir na carreira política no futuro?

C: Acredito que nossa geração terá o desafio de tentar garantir o espaço de uma parcela que é a maioria da população e, infelizmente, a minoria na política. Defendo uma reforma política que traga a paridade de gênero e que promova o protagonismo feminino. Para isso, é necessário que todos os movimentos, partidos políticos, organizações independentes, demonstrem que levam isso a sério. Eu venho do movimento estudantil em que, orgulhosamente, temos três mulheres presidentas nas três principais entidades (UNE, UBES e ANPG). Não posso dizer pelo meu futuro, mas posso dizer com quem estarei. Será com essa geração de meninas que querem mudar o que está aí.

L: Acredita que a presidente Dilma Rousseff sofreu, além de um embate político, um machismo exacerbado simplesmente pelo fato de ser mulher?

C: Sim, estamos vendo manifestações muito negativas de machismo contra a presidenta que levaram claramente a este cenário. Os exemplos são muitos e diários, mas um deles que se tornou gritante, por exemplo, foi a capa de uma revista semanal que tentava trazer Dilma como louca ou descontrolada para tirar a credibilidade do que ela pensa ou faz. É a mesma estratégia usada, por exemplo, para a opressão de mulheres violentadas ou em relacionamentos abusivos. Opressores tentam nos chamar de loucas ou mentirosas, mas sabemos muito bem quem são e o que fazem.

L: O novo governo interino de Michel Temer sinaliza para a suspensão do Fies, Prouni e Pronatec para nove universidades. Como a entidade vai se posicionar sobre isso? Quais serão os próximos passos?

C: A UNE recebe com indignação as informações sobre cortes em programas fundamentais da educação como o Prouni, o Fies e o Pronatec. É um retrocesso inaceitável que mostra o real objetivo daqueles que estão no poder de forma ilegítima. Comprova a tese de que o golpe de um impeachment sem provas é, na verdade, uma forma de atacar os direitos sociais e as conquistas de áreas como a educação e a juventude. A UNE e os estudantes responderão de maneira dura e não irão tolerar essa medida, sob nenhuma hipótese. Esses são programas que garantem o acesso a ensino superior por quem não teria condições financeiras de pagar mensalidades.Nada nem ninguém irá tirar isso da juventude brasileira.

L: Uma matéria divulgada na última segunda na “Carta Capital” diz que os áudios divulgados pela “Folha de S. Paulo” seriam uma indicação de que o impeachment da presidenta Dilma era parte de uma estratégia para barrar as investigações da Lava Jato. O que você acha disso?

C: O que nós sempre soubemos é que esse processo de impeachment, como foi colocado desde o começo, sem crime de responsabilidade da presidenta e sendo liderado por figuras como Eduardo Cunha, nunca teve como objetivo trazer algo bom para o Brasil. A tentativa de alcançar o poder a qualquer custo configura um golpe de estado, que está tendo de enfrentar a dura resistência dos estudantes e dos movimentos sociais nas ruas, nas redes, em todos os espaços. O que ouvimos nos áudios é a tentativa de parar a Lava Jato, e o primeiro passo pra isso era o impeachment da Dilma. Isso é muito grave. Agora nos resta unir os dois lados que estiveram nas ruas contra Michel Temer.

L: Você é muito assídua das redes sociais?

C: Eu gosto, acho muito importante para a minha geração e aprendi a usar a rede como um instrumento para marcar posição, para tentar disputar as ideias que circulam ali, esclarecer, humanizar o debate. Atualmente, me considero bem assídua. Tenho uma página no Facebook, um Twitter e um perfil no Instagram. Tento atualizar todas, transformando a minha rede em um instrumento de luta, mas também sobre o meu cotidiano, o que tenho feito, um filme que assisti, um presente que ganhei e, claro, minhas opiniões e posições políticas.

Outro preconceito é a objetificação e a tentativa de avaliar a beleza física de uma mulher quando ela está em um lugar de poder ou liderança

L: Você recebe muita ofensa ou crítica pelas redes sociais?

C: Valorizo as críticas que convidam respeitosamente para o debate, para a divergência de opiniões. Mas, infelizmente, há na rede também muitas informações falsas, ataques gratuitos, intolerância, machismo, ofensas pessoais. Essas não dá pra considerar. Existem comentários que são criminosos. A gente tenta deixar de lado, mas isso acaba me deixando muita vezes triste com a falta de respeito e a falta de vontade das pessoas em fazer, sim, o debate, mas que isso seja na política e não com ofensas pessoais.

L: O que é ser mulher pra você? Já pensou em que mulher pretende se transformar daqui 10, 20 anos?

C: Ser mulher é um desafio diário em um país machista como o nosso. Mas, ao mesmo tempo, é um motivo de orgulho porque sabemos que podemos, juntas, mexer nessa estrutura. Daqui há 10 ou 20 anos estarei do mesmo lado: pelo meu país, pela democracia e contra as opressões, sejam onde elas estiverem.

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