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“Trago Comigo”: um passado que ainda assombra

23/06/2016 às 15:18, por Cristiane Tada.

Novo filme de Tata Amaral remexe feridas  da ditadura que ainda não cicatrizaram

Nesta quarta-feira (22) o coletivo de comunicação Outras Palavras exibiu em sua sede em São Paulo, o novo filme da diretora paulistana Tata Amaral, que resgata as memórias da ditadura militar e reflete sua presença na conjuntura brasileira atual. Após a exibição aconteceu um debate com a diretora, a jornalista Laura Capriglione e a artista plástica e participante da resistência à ditadura Marlene Perlingeiro Crespo.

O filme tem Carlos Alberto Riccelli no papel principal como Telmo, diretor teatral, ex-guerrilheiro do período de exceção.

A trama se passa nos dias atuais e através da oportunidade da montagem de uma nova peça, Telmo começa a relembrar e perseguir fatos esquecidos do seu passado, como se não pudesse dar um passo a mais sem esclarecer o que um dia quis esquecer.

Filmado em 2009, a produção era inicialmente uma série. “Estava pensando em como trazer para a dramaturgia a nossa relação problemática com o passado, porque nunca enfrentamos e lidamos com aquele [ a ditadura] horror, colocamos os nossos problemas embaixo do tapete”, destacou Amaral.

No desenvolver da peça que Telmo está montando, ele vai reencenando os episódios que viveu no tempo de combate ao regime, a ideologia, as emoções e assim reconstruindo a memória de um tempo que ele achou que tinha acabado, mas que nunca se foi. Durante a narrativa Telmo se esforça para explicar os fatos para os jovens atores, que muitas vezes não entendem a gravidade da luta dos estudantes naquela época.

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Em meio a ficção aparecem depoimentos de sobreviventes reais do período. Tata afirma seria “leviano se não mostrasse que essas pessoas existiram de verdade” e apesar de saber boa parte da história ficou chocada com a riqueza de detalhes no testemunho das pessoas nas narrativas de dor e tortura.

“Uma vez que não identificamos, julgamos e punimos, a tortura continua sendo praticada na sociedade brasileira até hoje. E mais do que não punir, a sociedade os premia, porque esses criminosos são funcionários públicos e recebem dinheiro do nosso imposto. Nós aceitamos a tortura e até quando? ”

E afirma: “O objetivo do filme é dizer que não vamos esquecer”.

Debate com convidadas

A convidada Marlene Perlingeiro Crespo foi militante do PCdoB de 62 a 79. Engajada no movimento estudantil Marlene foi torturada, presa durante o histórico Congresso de Ibiúna em 1968 junto com cerca de mil outros estudantes, e também impedida de exercer sua profissão de professora do ensino médio pela ditadura militar.

“É muito oportuno o filme porque durante muito tempo havia uma atmosfera de esquecimento no Brasil”, afirmou.

A jornalista Laura Capriglione, do Jornalistas Livres, também afirmou que não há dúvida que a questão do resgate da memória é crucial no Brasil. “Achavámos que não haveria retrocessos e que tudo ia melhorar aos poucos, e apesar de cobrir direitos humanos há milhões de anos para mim o que estamos vivendo hoje é um susto”, afirmou.

Ela comentou ainda sobre a saudação que o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC- RJ) fez para o Coronel Ustra – chefe da unidade que foi palco das piores torturas dos presos políticos de 70 a 74 e algoz da presidenta Dilma Rousseff quando ela combateu da ditadura- durante seu voto a favor do impeachment dela.

“Ele não homenageou o Ustra, mas sim o pânico da Dilma”, ressaltou. “É um susto pensar que essas pessoas perderam a vergonha na cara”, completou.

Para Laura precisamos trabalhar muito para acertar contas com o nosso passado e dizer que “não queremos isso para o nosso futuro”.

 

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