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Ocupação do Centro Paula Souza: uma aula de resistência dos estudantes

03/05/2016 às 14:54, por Vinícius Mendes.

Acampados há cinco dias no prédio, alunos já sofreram com ar-condicionado ligado nos dias frios de SP e invasão truculenta da PM

Flávio Rodrigues saiu de casa, no Grajaú, extremo sul de São Paulo, na tarde de quinta-feira (28) sem dizer à mãe quando voltaria. Explicou a ela, de forma breve, que os colegas da escola planejavam ocupar o prédio onde estudam em protesto pela falta de merenda em seu campus, na Santa Efigênia, centro da cidade, e que ele resolvera fazer parte do ato.

A mãe não entendeu, mas aceitou a decisão do filho, o único que possui. Antes de sair, pegou duas cobertas, travesseiros, garrafas vazias para encher com água e abarrotou uma mala antiga com todas as roupas que nela cabiam.

Pegou o trem na estação Grajaú, da CPTM, desceu em Pinheiros, embarcou na estação de metrô de mesmo nome, saiu pela República e foi andando até a Rua das Andradas, perto da Avenida Rio Branco, onde encontrou os colegas. Era fim de tarde, o segundo dia em que fazia frio em São Paulo desde o início do ano.

“Uma parte dos meninos queria pular de uma vez e ocupar. Uma outra queria esperar para falar com a diretora e resolver na conversa. Quando a gente notou, tinha PM rondando a escola. Resolvemos que era melhor pular e ocupar pra fazer valer nossos direitos”, conta ele.

Segundo relato dos estudantes, assim que a ocupação se iniciou – quando os jovens ainda escalavam a grade que separa o prédio da rua – alguns policiais que faziam a ronda na rua dispararam gás de pimenta sobre eles como forma de reprimir o ato.

Flávio e outras dezenas de alunos, no entanto, venceram as barreiras físicas e, no início da noite de quinta-feira, entraram no Centro Paula Souza. No final do dia, as redes sociais e alguns veículos da grande imprensa pipocavam pequenas notas sobre a manifestação.

Quatro dias depois, quando a rotina dos estudantes já havia sido minimamente detalhada e organizada, correu um boato de que a Justiça iria pedir a reintegração de posse do prédio. Como a ocupação havia sido feita durante a noite de quinta, não houve tempo para que a diretoria acadêmica da escola agisse de alguma form na sexta. Esperou os dois dias do fim de semana acreditando que, na segunda, o Judiciário paulista pudesse dar conta do protesto.

Os estudantes estabeleceram ordens para o café da manhã, para os locais onde dormir, a limpeza do saguão onde estavam e, para além da convivência, sobre quem poderia falar com a imprensa e quais seriam as lideranças sobre cada rotina.

O único empecilho entre eles veio da diretoria da unidade: alguém ligou o ar-condicionado mesmo no frio e o deixou ligado durante a madrugada. Segundo o frei Agostino, da Comunidade Voz dos Pobres, que acompanhou o ato, os jovens passaram uma noite de muito frio. “Só de manhã que conseguiram encontrar a chave e desligar o ar”, diz.

Flávio, por ser um dos mais inflamados do grupo, passou os dias da ocupação debatendo com os colegas sobre as motivações que levaram-nos a estar ali. Se tornou uma liderança espontânea. “Aqui não tem hierarquia, sabe? Todo mundo sabe a importância que tem para o outro, mas é claro que dividir as tarefas é importante pra todo mundo viver bem”, diz.

Na segunda-feira pela manhã, contrariando as expectativas da mãe, surgiu no início da manhã em casa para trocar as roupas e vê-la novamente. Contou que a ocupação estava pacífica e que os alunos estavam contentes em lutar por mudanças, ao menos, na qualidade da escola deles. Deixou as roupas sujas, pegou mais cobertas e voltou ao centro. Era segunda-feira de manhã e já havia um sol mais forte sobre as ruas da Santa Efigênia.

“Não deu cinco minutos que eu tinha chegado, eles invadiram. Vieram pela escada de incêndio, pelos andares de cima, pela porta principal, de todos os lados. Se enfileiraram aí e deixou todo mundo com medo”, conta. “De madrugada, uns meninos que tinham subido no último andar relataram que viram policiais dando voltas no prédio de noite. Eles já sabiam que iriam entrar”, finaliza.

Quando as primeiras fotos dos policiais da Tropa de Choque atrás de estudantes assustados apareceram no Facebook, eles já estavam posicionados há algumas horas no mesmo local, sem falar nem realizar qualquer movimento. Estavam armados com escopetas, revólveres, escudos e armaduras especiais – como em eventos de guerra. A UNE passou o restante do dia com os estudantes, cobrindo quase ao vivo o ato pelas redes sociais para fortalecer a ocupação.

Flávio, assustado e inflamado ao mesmo tempo, tomou a palavra à frente do pelotão. “Esses são os mesmos que matam negros pobres nas periferias, que fazem a gente ter medo de voltar pra casa à noite e se deparar com uma viatura, porque são violentos. São os mesmos que não entendem que essa ocupação é para melhorar, inclusive, a escola dos filhos deles”, gritou, sendo aplaudido de minuto em minuto.

A Tropa de Choque, enfim, ficou no saguão principal do Centro Paula Souza das 8h às 19h da segunda-feira (2) enquanto, lá fora, se discutia se a invasão da PM era legítima.

No início da noite, a Justiça de São Paulo cobrou explicações da Secretaria de Segurança Pública do Estado pela operação. Em sua decisão, o juiz Luis Manuel Pires disse que “não houve mandado judicial para o cumprimento da ordem”. Nesta terça-feira (3), o jornal Folha de São Paulo publicou que a decisão de invadir o prédio partiu do secretário, em pessoa.

A polícia saiu debaixo de vaias e gritos dos estudantes, que continuam ocupando o prédio até agora. A reportagem da UNE esteve durante a manhã desta terça no prédio e viu que os jovens estão firmes na luta. Segundo os estudantes, a operação da PM só fortaleceu o ato, que possui diversas outras reivindicações.

Uma das vitórias foi conquistada já nesta segunda-feira: o Centro Paula Souza informou que vai distribuir a merenda escolar para 100% das suas unidades. Antes, apenas algumas tinham comida. “Mas não é o fim. A gente tem muita coisa pra dizer”, conta Flávio.

Ele planeja voltar para casa na quarta (4), depois de receber mensagens de sua mãe, que o viu em frente aos policiais em reportagens de TV. “Ela ficou assustada, mas também está orgulhosa de mim. Estou lutando pelo futuro de toda uma geração. Acho que ela entende isso”, finaliza. A gente também.

 

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