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OcupaMinC: trincheira de resistência ao golpe de Temer

31/05/2016 às 15:16, por Vinícius Mendes.

Ocupado há quinze dias, prédio da Funarte no Rio se tornou o centro de oposição do país ao governo provisório

Num dos raros dias de frio no Rio de Janeiro – há duas semanas – cerca de 70 pessoas, entre artistas, intelectuais e trabalhadores comuns saíram de diversas regiões da cidade para se encontrarem em frente ao Edifício Gustavo Capanema, no centro, ainda pela manhã.

Dois eram os objetivos: “abraçar” o prédio, que abriga a sede da Fundação Nacional de Artes (Funarte) do então extinto Ministério da Cultura (MinC), entre outros dispositivos da entidade, e ocupá-lo até que o presidente golpista Michel Temer recuasse da decisão de extinguir a pasta, iniciativa esta que havia sido anunciada no dia de sua posse – o trágico 12 de maio.

Os funcionários foram pegos de surpresa pela aglomeração repentina de pessoas do lado de fora do prédio, cujas entradas são cercadas por jardins, prédios históricos e a movimentação constante das ruas Graça Aranha e Araújo Porto Alegre. Gritavam canções já conhecidas da resistência ao governo Temer e seguravam faixas pedindo a recriação do MinC, transformado em uma secretaria alojada no Ministério da Educação.

A maioria das pessoas são ligadas aos movimentos sociais artísticos como Teatro pela Democracia, Circo pela Democracia, Reage Artista e Ocupa Lapa, que surgiram no contexto social atual brasileiro em que uma minoria de conspiradores agiram durante meses para derrubar o governo legítimo de Dilma Rousseff.

Eles foram motivados, sobretudo, pela ocupação do prédio da Funarte em Curitiba, a primeira iniciativa da classe artística em ocupar um prédio ligado ao MinC no Brasil, no sábado, 15 de maio. Em Belo Horizonte, a ocupação da Funarte foi no domingo (16). Na segunda-feira (17), o Capanema foi ocupado.

“A gente pensou em diversas formas de ocupar o prédio: como ele tem 15 andares, então era inviável tomá-lo por inteiro. Decidimos ocupar apenas uma parte que fosse mais simbólica. Por isso, escolhemos o segundo andar, onde está instalada a regional para o Sudeste do MinC”, explica o fotógrafo do Circuito Universitário de Cultura e Arte da União Nacional dos Estudantes (Cuca da UNE), Bruno Bou, que participa da ocupação.

“Isso garantia também uma copa e um banheiro aos ocupantes, algo que garantiu a viabilidade do ato. Com a ocupação, a ingerência sobre o espaço se tornou nossa, não mais de quem ocupava o prédio antes. As normativas do prédio não são as mesmas que eram antigamente e nem mais as que eram do primeiro dia de ocupação, porque a gente soube se organizar melhor”, completa.

A ocupação se deu em totalidade antes do horário do almoço: as duzentas pessoas entraram no saguão do prédio, montaram barracas, instalaram colchões, cobertas, acessórios de dormir, de comer, pregaram cartazes nas paredes e, em seguida, voltaram para o lado de fora com o intuito de promover um segundo abraço ao edifício. Retornaram ao saguão no fim da tarde, se reuniram para deliberar sobre as pautas do ato e foram dormir.

No dia seguinte, quando a ocupação já era assunto nos principais jornais do país, organizou-se uma plenária para debater sobre todos os temas importantes do ato.

VÍDEO DA PLENÁRIA DO DIA 17 DE MAIO:

“Precisamos de mais gente para divisão de turnos. Precisamos cuidar do portão, colocar pulseiras nas pessoas que vão dormir aqui e é importante que todos possam nos proteger e descansar ao mesmo tempo”, disse o diretor da UNE, Felipe Garcez, ao microfone, preocupado com a segurança da ocupação. Acreditava-se que a Polícia Militar do Rio, a exemplo da instituição paulista, poderia retirar os ocupantes do local com violência.

Do dia 17 em diante, a ocupação do MinC no Rio explodiu, tornando-se, talvez, a principal trincheira de resistência ao fim do Ministério da Cultura anunciado por Temer: estiveram nos dois primeiros dias do evento os atores Bemvindo Siqueira, Ana Kutner, Julio Adrião, Débora Lamm, Andrea Beltrão e Marieta Severo, a diretora de teatro Tuca Moraes, os cineastas Ruy Guerra e Silvio Tendler, e os deputados federais Wadih Damous (PT), Jandira Feghali (PCdoB) e o estadual Marcelo Freixo (PSOL).

“Todos os dias tem alguém de calibre aqui na ocupação. Está sendo natural. O Rio de Janeiro é a capital da cultura no Brasil e, além disso, estamos num prédio histórico. Os artistas, músicos, pensadores, etc., reconhecem que há um peso natural nesse ato porque também apreciam o espaço que está sendo ocupado. Nós estamos em outro patamar de ocupação”, explica Bou.

“Alguns artistas surgem, mas todos os dias recebemos visitas diversas. Hoje [terça-feira, 31] recebemos estudantes universitários que vieram bater um papo. E é assim que os dias passam. Não foi a mesma coisa com os artistas mais renomados, como o Caetano, o Otto, o Arnaldo Antunes. Esses pediram uma organização precedente até por conta das necessidades deles, como som, essas coisas”, completa.

CLIQUE AQUI E VEJA QUEM JÁ PASSOU PELA OCUPAÇÃO DO MINC, NO RIO

“Os acordos que fizeram com o patronato urbano e rural é o que se anuncia ontem e hoje em todos os jornais, vão rever toda a demarcação de terra indígena, de terra quilombola, já entraram com reforma da Previdência, reforma trabalhista, extinção de estruturas fundamentais do Estado brasileiro, como o Ministério da Cultura, ou seja, é um governo que não tem cheiro de povo, tem cheiro de elite atrasada, preconceituosa, homofóbica e contra o povo e a nação brasileira”, discursou Feghali na primeira plenária da ocupação.

O evento que chamou a atenção de boa parte do país para a ocupação e sua mensagem, no entanto, aconteceu no sábado, 20 de maio: o compositor Caetano Veloso fez um show de aproximadamente uma hora no palco improvisado no saguão do prédio, sem discursar sobre o momento político, mas reivindicando a recriação do MinC e ouvindo, notadamente alegre, as críticas dos cerca de 200 mil espectadores ao golpe de Temer e Cunha. Os sinais mais claros de suas posições foram as músicas que tocou, a maioria da época do regime militar (1964-1985), como Alegria, Alegria, Odeio, Odara e Força Estranha.

SHOW DE CAETANO VELOSO E SEU JORGE NO DIA 20 DE MAIO, NO CAPANEMA:

“O show do Caetano foi o momento em que juntamos o maior número de pessoas desde o inicio da ocupação: 200 mil pessoas. A gente teve 10 mil curtidas no face com a apresentação. Ela foi importante não apenas para divulgar a causa, mas também para dar segurança aos ocupantes. A Polícia Militar aparece aqui sabendo que esse é o lugar onde tocaram Caetano, Lenine, Erasmo. As coisas se dão de forma diferente por isso”, diz Bou.

Além de Caetano, tocaram naquele dia Otto e Seu Jorge, além de novos discursos do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) e do deputado federal Jean Wyllys (PSOL). Foi, enfim, o início da resistência: no domingo, horas depois do show noturno, o Brasil amanheceu novamente equipado com um Ministério da Cultura. A primeira vitória havia sido alcançada.

A recriação do MinC fez com que a imprensa esperasse o fim da ocupação. No mesmo domingo, o jornal carioca O Globo publicou reportagem intitulada “Ocupações em prédios públicos continuam, apesar da volta do MinC”, em que claramente se mostrava surpreso com a permanência do ato. Até ali, já não era mais apenas no Rio, em Curitiba e em BH: todas as 27 capitais brasileiras tinham ocupações nos prédios da Funarte. A mais significativa, além da do Capanema, era a de São Paulo, que recebeu diversos artistas e intelectuais.

As ocupações em todo o Brasil ganharam páginas no Facebook batizadas de #OcupaMinC. A de São Paulo reunia 10 mil pessoas até esta terça-feira (31). A do Rio, quase 30 mil pessoas.

Com a diminuição dos atos de rua e com ocupações dos estudantes secundaristas voltadas com pautas para a educação, são esses os atos que resistem ao golpe de Temer. Deles, o do Capanema – o maior em simbolismo e em número de pessoas – é o mais significativo. Em resumo: do Palácio Capanema emerge a principal trincheira ao golpe de Estado conspirado por Michel Temer, Eduardo Cunha, a mídia e o empresariado.

Na quarta-feira (25), nove dias depois da ocupação, o movimento confirmou que não sairia do prédio enquanto Temer não cair. O ato se tornou, mais do que recriar o MinC, recriar o governo legítimo de Dilma:

“Os artistas e trabalhadores da Cultura, cidadãs e cidadãos que permanecem ocupados em equipamentos do Ministério da Cultura em todo o Brasil, não reconhecem a legitimidade desse auto intitulado governo interino. Repudiamos qualquer apoio ou tentativa de diálogo de qualquer entidade, segmento ou artistas que venham a negociar com esse governo ilegítimo, utilizando-se da luta plural e democrática travada nas Ocupações”.

Para Bruno Bou, da UNE, que faz parte da ocupação, o #OcupaMinC é a principal trincheira contra Temer: “”Nós somos o chamariz que tem mais relevância hoje. Tem a ver com o Rio de Janeiro também, com o espaço que está sendo ocupado. Temos, por exemplo, um painel do Cândido Portinari aqui que custa aproximadamente R$ 65 milhões. Temos um potencial de destruição também, porque se a gente destruir esse Portinari, podemos colocar tudo a perder. Temos atenção com isso”, explica.

“A política muda muito rápido. Eu diria que a principal trincheira de luta antes do golpe era a dos secundaristas em São Paulo, ocupando quase 200 escolas pelo Estado. Agora, depois do golpe, a luta dos ocupantes dos prédios do MinC pelo Brasil são a maior referência de luta. Não apenas a do Rio, que é simbólica pelo espaço, mas o conjunto de ocupações em 27 capitais”, finaliza.

O prédio da Funarte do Rio de Janeiro é, além de tudo, uma construção simbólica para a cidade: o Edifício Gustavo Capanema foi projetado por uma equipe de arquitetos que tinha, por exemplo, Oscar Niemeyer, Lucio Costa e Carlos Leão. Finalizado em 1947, é uma obra que marca o início da arquitetura moderna brasileira, difundida mundialmente por vários nomes da área. Foi sede do Ministério da Cultura do Brasil por vários anos e hoje sedia a Funarte e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

A UNE – mais do que colaborar com membros da ocupação – tem uma posição institucional ao movimento: [é solidária, participa e manifesta seu apoio às ocupações, por serem um laboratório vivo da construção da resistência democrática e por entender, ao longo da sua luta histórica, a importância da cultura e da arte nos múltiplos aspectos da vida humana e social.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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