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“O governo está dando mais do que motivo para ocuparmos tudo de novo”

09/02/2017 às 18:10, por Cristiane Tada.


Em entrevista ao site da UNE, Camila Lanes, presidenta da UBES fala da aprovação da “deforma” do ensino médio

O Senado Federal aprovou nesta quarta-feira (08/2) a medida provisória da reforma do ensino médio. O texto segue para sanção presidencial.

As duas principais mudanças da medida serão no currículo e na carga horária. Das atuais 800 horas por ano, passam a ser 1.400 no regime de ensino integral. E no máximo 60% dedicadas a um currículo fixo dividido não mais por disciplinas, mas por quatro grandes áreas, os itinerantes: linguagens, matemática, ciências da natureza e ciências humanas.

Na outra parte do tempo, o estudante poderá escolher entre se aprofundar em um itinerante ou em um ensino técnico. Em nenhum dos casos os conteúdos são especificados, e a definição ficaria sob responsabilidade das secretarias de educação. Aí mora um dos maiores riscos apontados por críticos. Durante o trâmite a UNE ouviu alguns especialistas sobre o assunto. >>>

As entidades estudantis e o movimento educacional acreditam que a medida é um retrocesso que significa sucateamento, privatização e venda do ensino público.

A presidenta da União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES), Camila Lanes, tem se debruçado sobre o tema desde sua concepção e é enfática: “É bem útópico da parte do governo achar que isso que vai dar certo”. Ela critica principalmente a falta de diálogo com a comunidade escolar. Leia na íntegra a entrevista com ela:

O que é o pior da medida provisória?

Para além do fato de não ter um pingo de democracia na produção dessa medida, da reforma do ensino ser feita por uma medida provisória em regime de urgência e todos esses questionamentos que a gente levanta acho que o maior ataque a educação pública é de fato essa questão do notório saber, que nos preocupa muito em especial no ensino técnico e profissionalizante onde não toda, mas a grande maioria dos professores são mestres, doutores e agora vamos trocar essa parcela formada por quem a gente não sabe ainda quem serão ou de onde vem.

Além disso, a questão do currículo em si. A UBES sempre defendeu uma reforma do ensino , um novo método dentro da sala de aula, que é muito parecido inclusive com esse que foi colocado agora, com essa divisão de áreas de saber, mas a gente não consegue acreditar que ela vai solucionar a vida de 50 milhões de estudantes e dois milhões e meio de professores. No papel pode ser uma dinâmica bonita, mas a gente sabe que na prática
são escolas que faltam merenda, salas de aula, que sofrem com superlotação, que falta professor, material didático, equipe pedagógica, que existem opressões dentro da escola como um todo, uma série de problemas.
Colocar uma medida provisória da noite para o dia achando que todos os professores vão conseguir se adequar as novas regras, é bem utópico da parte do governo achar que isso que vai dar certo.

Qual seria a reforma ideal?

Primeiro existe o Plano Nacional de Educação que tem metas, eu não sei mais se posso falar que tem ou que existia, porque a gente não sabe até que ponto o governo tá considerando o plano. Esse PNE estipulava metas para a gente superar esses primeiros problemas que enfrentamos na educação, que são todos esses que listei, falta de merenda, superlotação… e estrutura que em si só já é uma crise muito grande. Depois íamos conseguir consolidar passo a passo uma reforma.

Acreditamos que a reforma do ensino médio deve ser feita aos poucos porque são muitos os problemas para a gente solucionar.

A UBES tem uma plataforma da reforma do ensino, temos debatido ela há alguns anos e estamos readequando junto com o movimento educacional porque acreditamos que o debate da reforma do ensino não vai sair só a partir só do governo, só dos estudantes ou só dos professores. É a partir do conjunto de ambas as partes, porque precisamos elaborar também condições financeiras como um todo da educação.

A nossa reforma para além de conseguir consolidar a qualificação e o acompanhamento da formação dos nossos professores porque quando a gente pensar na reformulação não falamos só do que achamos ruim na escola, mas também temos que debater o papel do professor dentro da sala de aula em especial a formação e qualificação dele porque isso também fala da aula que será dada a este estudante.

Acreditamos ainda que uma nova reforma atenda além da base nacional curricular comum, essa extensão do projeto de uma nova educação que o governo federal antigo estava fazendo, acreditamos que a escola precisa debater temas que são para além do currículo comum, por exemplo, drogas, sexo, em especial as opressões, a gente necessita que a escola debata também a tecnologia. Hoje o celular do estudante tem mais tecnologia que a sala dele, precisamos ter uma nova educação para a geração do século XXI.

Essa reformulação tem que ser feita levando em consideração que a juventude não é mais a mesma, não é a de 2000 ou de 1900 ou anos atrás, é uma juventude que está desde 2002 tendo acesso a muita coisa e o governo tem que aceitar, precisamos debater isso. Precisamos debater gênero também dentro da escola, infelizmente tivemos uma total quebra de compromisso com os planos estaduais e municipais de educação nesse quesito, porque a bancada conversadora acha que a igreja que deve mandar na escola, a gente acredita que não e vamos continuar debatendo.

Quais serão os próximos passos?

Acredito que é um movimento natural dos estudantes eles vão se manifestar. As aulas vão começar em algumas semanas, para alguns já começaram, outros só em março. Essa galera tá indo para escola depois de um episódio maravilhoso que tivemos na nossa história do movimento estudantil que foram as ocupações, eu acredito que o governo está dando mais do que motivo para ocuparmos tudo de novo. Ontem mesmo já tiveram duas ocupações, que foram desocupadas depois, mas tiveram. Este ano não são só os estudantes que vão se mobilizar, as centrais sindicais e os sindicatos nacionais dos professores já estão puxando a greve geral. Isso significa que a partir de março não vai ter aula, porque não vamos aceitar esse método que está sendo colocado dentro da sala de aula sem consultar aqueles que dão aula, que vivem a escola pública todos os dias, foi a faísca que faltava. Aprovar uma medida provisória do jeito que foi aprovada, sem ler as emendas, sem levar em consideração inclusive as consultas feitas nas páginas do Senado e da Câmara que majoritariamente a população votou contra a MP , o governo está dando motivo para o movimento estudantil mais uma vez, marcar a história do Brasil com muita ocupação, muito movimento, ato, conscientização.
Acabamos de sair de um Encontro Nacional de Grêmios, onde ficou muito claro para todos que se for preciso a gente ocupa tudo de novo. O nosso comprometimento é com a nossa escola e com nosso futuro e não com um governo federal que é golpista e desconsiderou 54 milhões de votos e agora está desconsiderando mais de mil ocupações e a opinião pública de mais de 145 mil brasileiros que são contra essa medida.

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