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O Congresso em que Fidel recebeu o título de presidente honorário da UNE

12/06/2017 às 17:06, por Felipe Canêdo, especial para o site da UNE / Edição: Rafael Minoro.

Fidel discursa para os estudantes durante Conune
Acervo UNE

Especial sobre a relação do movimento estudantil com a cidade de Belo Horizonte, o site da UNE relembra a vinda de Fidel Castro a capital mineira no 46º Congresso da UNE

 

“Quem é o público do Congresso?”, perguntou Fidel Castro em uma sala reservada do interior do Estádio Poliesportivo Mineirinho, em Belo Horizonte. “São universitários, comandante”, respondeu o presidente da União Nacional dos Estudantes, Ricardo Cappelli. “De universidades públicas ou privadas?”, prosseguiu. “Públicas e privadas, de todo o Brasil”, respondeu o jovem, intrigado. “E o que você acha que eu deveria falar?”, disparou enfim o líder da Revolução Cubana, fazendo o jovem suar frio.

 

Fidel recebeu uma camiseta do Brasil e foi homenageado com o título de presidente honorário da UNE

Cappelli fora chamado pela segurança de Castro para sair do palco do evento e recebê-lo. O presidente cubano foi cordial ao cumprimentá-lo e disse que, estando no Brasil, não poderia criticar o governo de Fernando Henrique Cardoso. “Sim, eu entendo, o senhor é um chefe de Estado”, disse o presidente da UNE. Surpreso com a pergunta sobre o teor do discurso que deveria proferir, o líder estudantil sugeriu que Castro falasse sobre a luta internacional dos trabalhadores, sobre socialismo e sobre a conjuntura internacional.

“Esse episódio na verdade demonstra a grandeza e a sensibilidade de uma pessoa que foi um dos principais personagens do Século XX”, avalia Cappelli. “Primeiro ele aceitar ir no Congresso da UNE, depois ele pegar a pessoa que presidia a entidade e perguntar qual era o público, acho que diz muito sobre quem ele era”, completa.

“Quanto ele chegou no estádio, eu me lembro perfeitamente, nós ficamos perfilados para ele cumprimentar a diretoria da entidade. O Fidel cumprimentou um por um. Até então os estudantes não tinham visto ele. E quando ele entrou pro palco, quando dez mil estudantes no Mineirinho viram aquele homem de quase dois metros de altura, de farda verde, foi uma comoção generalizada”, lembra Wadson Ribeiro, que foi eleito presidente da UNE nesse Congresso, em 1999.

 

Wadson Ribeiro eleito presidente da UNE no histórico Congresso de 1999

Apesar de ter dito que ia falar pouco, o revolucionário cubano se empolgou e discursou por quase duas horas. “Ele começou a fala tirando sarro, perguntando por que os estudantes do Brasil estavam sentados no chão, se estava faltando dinheiro pra UNE”, recorda Ribeiro. O líder cubano colocou Havana à disposição para que em 2000 a cidade sediasse o Congresso da Oclae (Organização Continental Latinoamericana e Caribenha de Estudantes), o que afinal acabou ocorrendo. “Quando o Fidel entrou, teve uma parte pequena do pessoal, da oposição, que o vaiou. Porque não gostava dele, não concordava com seu governo. Mas o restante, a grande maioria – inclusive muita gente da oposição – foi ao delírio, foi apoteótico”, conta Pedro Pena, à época militante secundarista.

“Tenho uma foto que guardo com muito carinho que é o Fidel falando do púlpito da UNE. Nessa foto tem uma flor. Ela mostra aquele comandante de farda, com uma flor singela, discursando. O que retrata também a questão de não perder a ternura, que é um ensinamento que Cuba passa para todos nós até hoje”, relembra Fernando Máximo, ex-diretor da UNE (1997-1999) e ex-presidente da UEE-MG (1999-2001).

> Assista ao depoimento do ex-diretor da UNE, Fernando Máximo

 

 

Durante sua fala, Fidel falou do processo de globalização capitaneado pelos Estados Unidos, da importância da solidariedade entre os países caribenhos e latino-americanos, da presença dos médicos cubanos em todo o continente, e criticou fortemente o embargo a Cuba. Instado por um estudante, Castro fez uma avaliação ácida da Cimeira (Encontro de Cúpula das Américas) a que estivera presente dias antes no Rio de Janeiro, e criticou especialmente os europeus, que, segundo ele, opunham-se à condenação de interferências estrangeiras na soberania nacional de países latino-americanos. Nesse Congresso da UNE de 1999, o presidente cubano recebeu uma camiseta e foi homenageado com o título de presidente honorário da UNE.

 

> Assista ao discurso de Fidel:

A CHEGADA

Fidel Castro foi recebido na manhã daquela quinta-feira, 1º de julho de 1999, por uma comitiva do governo de Minas no Aeroporto Internacional de Confins. Ele então seguiu para o Palácio da Liberdade, para se encontrar com o governador Itamar Franco, que fazia frente ao governo federal de Fernando Henrique Cardoso. “Quando chegou no aeroporto, me lembro que a primeira coisa que perguntou foi: como anda a corrupção no Brasil”, narra Tilden Santiago, então secretário de Meio Ambiente de Minas Gerais, que posteriormente seria embaixador do Brasil em Cuba durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

De Itamar, Fidel recebeu uma cachaça e uma pedra semipreciosa de presente. Ao chegar à sede do governo em Minas, o líder cubano tomou um cafezinho mineiro e comeu um pão de queijo com o governador. Em troca, convidou-o para visitá-lo em Cuba. “Fidel, sempre muito afável e cordato, com um carisma enorme, conversou com o prefeito Célio de Castro, com Itamar, e eu aproveitei para perguntá-lo sobre um missionário que o acompanhou na Guerrilha de Sierra Maestra”, recorda Tilden.

A TENSÃO

Era dia de final do Campeonato Mineiro de Futebol, Atlético e América jogariam no Mineirão. Do outro lado da Avenida Antônio Carlos, dez mil estudantes se aglomeravam no chão do Mineirinho. Wadson Ribeiro narra que Fidel só confirmou presença na manhã do dia anterior, e mesmo assim havia forte apreensão no ar.  O ex-presidente da UNE, hoje Secretário de Representação do Governo do Maranhão em Brasília, relata que o comando da polícia mineira se exaltou com a direção da UNE.

“Gerou um estresse grande, porque mesmo eles só souberam um dia antes. Falaram que a gente era irresponsável:´Como vocês trazem um chefe de estado e avisam em cima da hora assim´”, recorda ele. “Foi um dia muito conturbado”, completa Wadson.

“Uma parte da nossa oposição não acreditava que o Fidel iria para o Congresso. Teve gente que espalhou que na hora quem iria aparecer era o então governador do estado, Itamar Franco”, contou Ricardo Cappelli.

A ARTICULAÇÃO

A vinda de Fidel foi uma trama construída a muitas mãos, segundo Cappelli. Ele afirma que contou muito a relação institucional da UNE com a FEU (Federação Universitária Estudantil, de Cuba): “O ex-presidente da FEU, Carlos Valenciaga, tinha saído da entidade há uns 2 anos e tinha virado secretario particular do Fidel. Nós entramos em contato com ele. Um outro fator foi a relação do Itamar Franco com Cuba.”

Depois da presidência da República (1992-1995), Itamar foi nomeado embaixador brasileiro na OEA (Organização dos Estados Americanos) e se posicionou contra o embargo à Cuba diversas vezes. “O Fidel tinha uma dívida de gratidão com ele”, afirma Cappelli.

Presente na Cimeira (Cúpula das Américas) no Rio de Janeiro, que praticamente coincidia com a data do Congresso da UNE, o presidente cubano confirmou sua ida a Belo Horizonte apenas na quarta-feira de manhã, 30 de junho. Três dias antes de tomar um avião para BH, sua segurança tinha ido à capital mineira e vistoriou o estádio, deixando a impressão de que ele poderia de fato comparecer.

O JANTAR e AS VELAS

Fidel ficou hospedado no hotel Ouro Minas, na Região Norte de Belo Horizonte. Após o Congresso, Ricardo Cappelli; Marcio Jardim, então vice-presidente da UNE; Vladimyr Vinicius Camargos, diretor de Relações Internacionais da entidade; e algumas autoridades foram convidados para um jantar. O governo de Minas reservara uma suíte no topo do prédio. “Nós tomamos vinho até tarde. Me lembro que ele já fazia muitos elogios ao Hugo Chávez, e criticava muito o De La Rua, presidente da Argentina”, conta Cappelli.

Logo que chegaram ao hotel, houve uma queda de energia e os funcionários tiveram que espalhar velas pelo local. “Foi uma tensão danada, maior estresse na segurança. Aí uma menina do Ouro Minas veio falar com ele, se desculpando e dizendo que já iam resolver o problema e tal. E ele foi muito simpático, brincou que as velas melhoravam o clima”, diverte-se.

Serviço

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