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Nos 20 anos do massacre de Carajás, ”Osvaldão” reencontra o Araguaia

16/04/2016 às 22:37, por Texto e Fotos: Fábio Bardella.

Filme foi exibido no mesmo local onde há 20 anos,  19 ”sem-terra” foram assassinados

No dia 17 de abril de 1996, Maria Jesuíta Oliveira, Rita Monteiro e Isabel Rodrigues testemunharam um dos piores episódios da história agrária do Brasil: o Massacre de Eldorado dos Carajás.

Naquele dia, um trecho da rodovia PA 150, no Pará, estava interditado por sem terras participantes da Marcha Pela Reforma Agrária. Cercam de 1.500 pessoas marchavam a caminho de Marabá e Belém. Ônibus da polícia chegaram ao local e a ação para desobstruir o trecho conhecido como “Curva do S” terminou de forma trágica: foram 19 mortos. Vinte anos depois, a ”Curva do S” foi palco de mais uma exibição do documentário ”Osvaldão”, um retrato da vida do líder negro que participou da guerrilha do Araguaia e foi um dos homens mais procurados pelo regime militar no final da década de 1960 e início de 1970.

Produzido por Renata Petta e dirigido por Vandré Fernandes, Ana Petta, Fabio Bardella e André Michiles o filme já rodou o país. Abaixo, você pode conferir o relato do diretor Fábio Bardella sobre mais esta missão de Osvaldão na região do Araguaia:

Osvaldão em Eldorado dos Carajás

Osvaldão tinha agora mais uma missão na região do Araguaia, depois de abrir o festival Amazônida de Fronteiras (Cinefront) em Marabá, e ser exibido na Universidade do Sul e Sudeste do Pará (UNIFESSPA ), agora ele seria apresentado no acampamento da Juventude do MST na “curva do S”, no município de Eldorado dos Carajás, no mesmo lugar onde dezenove sem terra foram mortos há exatos vinte anos neste 17 de abril. Sangrento episódio da história brasileira conhecido como Massacre de Eldorado dos Carajás.

Saímos de Marabá já passava das cinco da tarde, eu e Haroldo Souza, pró-reitor da UNIFESSPA e que dirigia o auto, direita na Transamazônica, saída pra PA 150, é assim, se deslocar em Marabá já parece uma aventura só pelo nome das rodovias. O acampamento fica a cem quilômetros de uma estrada vai e volta, esburacada e cheia de caminhões, mas dizia ele:

“Isso aqui nunca esteve tão bom, olha essa sinalização.”

Não parecia muito pra mim, seguimos.

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Tradicionalmente nesta semana o movimento fecha a rodovia por 19 minutos, um minuto para cada companheiro tombado. Estávamos certos que ficaríamos parados, só que não, já se aproximando do acampamento uma placa com a bandeira do MST no meio da rodovia equilibrada por um pneu anunciava “Cuidado Pessoas na Pista”.

Encostamos já quase sem luz, exatamente ao lado do monumento em memória ao massacre, cruzes e castanheiras secas. Isolados no meio da rodovia escura, cercados pelo acampamento, um bar amarelo, a casa da dona Rita onde funciona a cozinha e a tenda cultural “CUBA LIBRE”, onde estava rolando uma mostra fotográfica com imagens impactantes do massacre, autoria de João Roberto Ripper/Imagens Humanas.

 

O acampamento estava vazio, logo descobrimos porque a estrada não havia parado, o ato naquela tarde acontecera simbolicamente em Curionópolis, cidade que leva o nome do Major Curío (dispensa apresentações) que fica um pouco distante dali, onde estão enterrados dezessete dos dezenove corpos. Este ato em Curionópolis foi histórico pena não conseguir registrar, se tratou de uma encenação teatral dento do cemitério. Eles ainda levariam um tempo pra chegar, ou seja, a sessão atrasaria um bocado, a ponto de pensar que talvez nem rolasse.

A noite avançava, não éramos mais eu e Haroldo representando o filme e o festival, era Osvaldão quem visitaria aquele acampamento, que sorriria, viveria e morreria em frente daqueles jovens e velhos de luta. Tínhamos que garantir que as coisas rolassem, apresentação, filme e debate.

Fomos jantar a convite de dona Maria, fomos até a cozinha nos fundos da casa, o feijão cheirava de longe, fomos um dos primeiros a rangar, panelas gigantes e bem cheias aguardavam a juventude faminta. Um tempo depois os ônibus começaram a encostar, centenas de jovens agora ocupavam aquele espaço que se transformou e já transbordava vida, uma certa ansiedade misturada ao cansaço e fome deles. Mercedes Queiroz, uma das coordenadoras do acampamento deu a deixa: vamos jantar, tomar banho, por que sabe né, depois de ir no cemitério todos querem se lavar e renascer.

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A estrutura foi sendo montada, tela, cadeiras, projetor, computador, montou-se a “sala” de cinema a poucos metros da rodovia, já se notava que seria uma sessão de muita energia.

A sessão começou já passava das 22h, dois jovens fizeram o chamado pra todos se sentarem e introduziram. Haroldo seguiu explicando sobre o festival, e fechei falando do filme, ressaltando a simbologia daquele encontro em memória de Osvaldão e dos dezenove sem terra assassinados naquele local, que agora junto a Osvaldo somavam vinte, nestes trágicos vinte anos de barbárie.

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Uma exibição carregada de significados. Osvaldão estava de volta ao coração do conflito, dentro do acampamento, junto aos jovens. Olhos atentos, outros nem tanto, uma tela um pouco enrugada dava ao filme uma outra textura da original, a real é que nada mais importava tecnicamente, o filme estava rolando, isso que valia. Saí, dei um rolê pra tirar umas fotos, na platéia pessoas de todas as idades. Era possível ouvir os caminhões e carros transitando, freando, buzinando, o que dava o tom.

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A sessão terminou sob aplausos já perto da meia noite, iniciamos o debate, ninguém debandou, ficaram ali parados esperando o que vinha. Perguntaram as dificuldades em falar sobre a guerrilha na região, a cultura do medo, a relação dos guerrilheiros com a mineração, e principalmente da importância de filmes como este para falar da história do Brasil. Tínhamos concordado coletivamente que nunca tínhamos ouvido falar de guerrilha do Araguaia, nem do massacre do Carajás nas salas de aula.  Lembrei das ocupações nas escolas, da necessidade de novos dispositivos para repensar e ampliar a interação com os jovens.

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Dona Raimunda começou a falar um pouco baixo, pedi que ela chegasse ao microfone, emocionada contou sobre sua infância na região, disse que se identificou muito com o filme, sobre o papel social desempenhado pelos guerrilheiros na região e principalmente sobre o terror do exército.

“Nós tivemos toda uma infância marcada pela guerrilha do Araguaia, tudo era coordenado pelo exército, posto de saúde, minha escola, todas as relações. Saíam caravanas para receber o major  Curió, éramos obrigados a balançar umas bandeirinhas do Brasil. Toda noite tinha toque de recolher, tinham noites que dormíamos no buraco feito em nossa casa, sentíamos medo.

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Rafael Villas Boas professor da UNB que desenvolve trabalhos com o movimento, levantou a questão do mito e da lenda do personagem abordado no filme.

“ A gente vê que a pedagogia do exemplo vai gerando um mito, uma referência que apavorava os soldados. Que fique o exemplo da força simbólica que existe que passa de geração pra geração. Que este filme não fique só no circuito comercial, que ele passe em todos lugares, e que vá ativando este debate refazendo um elo com a história.”

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Já era madrugada, missão cumprida, terminamos o debate, recebemos o carinho daqueles que mais se identificaram com o filme, muitos vieram falar conosco, parabenizar, agradecer, exaltar, foi uma troca muito bonita pois aprendemos uns com os outros ali. Recolhemos nossas coisas, ainda deu pra ouvir a primeira música do show que estava começando no acampamento, todos muito animados apesar do longo dia, antes da música terminar acabou a energia, catarse geral, o som não parou, agora era só bateria e voz, entrei no carro com Haroldo, todos cantavam Clara Nunes à capela.

A volta ainda seria longa, deixamos o acampamento sabendo que tudo aquilo fez muito sentido. No fim o saldo foi de dois pneus furados no trajeto, as entidades não nos deixaram sair tão fácil dessa, quase não chegamos em Marabá, sorte que o segundo pneu só esvaziou dentro da cidade, já passavam das 3 da madruga, a vontade era de repetir saga.

Fábio Bardella

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