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Nortista, prounista e camponês: conheça o novo secretário-geral da UNE

14/07/2015 às 11:57, por Bruno Huberman.

Thiago “Pará” assume um novo cargo na entidade após ter sido diretor de Políticas Educacionais nos últimos dois anos

Filho de sindicalistas do Norte do país e engajado politicamente desde a adolescência, Thiago “Pará” Ferreira, 26 anos de idade, será o novo secretário-geral da UNE para os próximos dois anos.

Natural de Castanhal, no interior paraense, Pará, como é chamado pelos seus companheiros de militância, começou na militância estudantil ainda na escola, participando da criação do Grêmio “Edson Luis”, em homenagem ao secundarista assassinado na ditadura militar, em 1968.

De lá, partiu para o interior fluminense, onde cursou Engenharia Florestal na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Foi quando começou a se envolver na militância universitária e em movimento ligados à reforma agrária e à cultura nortista.

Em pouco tempo, já estava entre os dirigentes da UNE — foi diretor de Políticas Educacionais da entidade entre 2013 e 2015. Neste último período, ingressou no curso de Direito na Universidade Mackenzie graças a uma bolsa integral do ProUni.

Agora, ele parte para a sua nova missão com um objetivo muito claro: representar os novos estudantes. “Precisaremos saber nos conectar com as novas demandas estudantis, a UNE precisará saber se modelar a estas novas realidades”, observa o dirigente.

Confira abaixo a entrevista completa que ele concedeu ao site da UNE.

Quando você entrou para o movimento estudantil? Como?

Entrei em 2006, por conta de diversos debates na minha escola do ensino médio, luta pelo transporte escolar e estrutura na escola. Mas minha família contribuiu muito com meu engajamento, meus pais, que construíam o sindicato de professores de uma cidade muito pequena, no interior do Pará, chamada Garrafão do Norte. Tiveram de se afastar por conta da perseguição política, mas seguiram sendo um forte exemplo.

Como foi a sua trajetória no movimento estudantil até o momento?

Tive uma rápida experiência no movimento secundarista, ainda em 2006/2007, na antiga Escola Agrotécnica Federal do Pará (EAFC), hoje IFPA, contribuindo para a fundação do Grêmio “Edson Luis”. Mas tive de parar para prestar o vestibular. Segui para o Rio de Janeiro, ingressei na UFRRJ em 2008, participei ativamente do movimento estudantil. Fui da gestão do Centro Acadêmico de Engenharia Florestal. Contribui com a Associação Brasileira dos estudantes de Eng. Florestal (ABEEF), e também fui Coordenador Geral do DCE daquela Universidade, além de construir grupos de extensão, ligados à questão agrária e a cultura nortista. De lá, vim para São Paulo em 2013 e nestes últimos 2 anos fui diretor de políticas educacionais da UNE.

O que você pretende fazer como secretário-geral da UNE?

Esperamos mudar a UNE de ponta-cabeça! Acredito que estamos entrando em um período muito diferente do que vivemos nestes últimos 10 anos. Precisaremos saber nos conectar com as novas demandas estudantis, a UNE precisará saber se modelar a estas novas realidades. Deve ser radical sem ser sectária. Não é uma tarefa fácil, mas espero que a nossa gestão, que tem muitos e bons militantes, forjados nas lutas estudantis de junho de 2013, deem passos largos nesta tarefa.

Temos que alterar a forma como nossa entidade é conduzida. Alargá-la para a participação ampla e irrestrita. A UNE deve ser mais ousada, fazer ações diretas. Precisamos construir a UNE como referencia não apenas para os estudantes brasileiros, mas para toda a juventude e para o nosso povo.

É preciso termos uma nova utopia para este período, a de que é possível e necessário mudar radicalmente o Brasil.

Quais desafios você enxerga para os próximos dois anos? Quais devem ser as novas bandeiras da UNE?

O que temos acumulado, nos diversos debates que participamos é que a UNE deve se debruçar sobre quatro questões centrais. A primeira, trata-se de entendermos que o momento político requer unidade, unidade e unidade. Com essa forte ofensiva da direita e o recuo do governo que ajudamos a eleger, precisamos estar afinados para combater a direita e pressionar o governo a se reorientar e seguir caminho pela esquerda.

Temos que refundar a universidade brasileira, para repensar o país, retomando os grandes debates nacionais, de projeto de nação. É disso que se trata a segunda questão. Temos um bom acumulo, dos debates que fizemos no CONEB da UNE em 2013 sobre o tema. E mesmo o que acumulamos nos Seminários Nacionais de Reforma Universitária, sintetizados na Carta do Paraná.

Mas é chegada a hora de irmos além, de enfrentarmos as questões mais urgentes, de fazermos uma imersão nesse país. Irmos até o interior de cada Estado, olhar para as especificidades regionais. Tivemos uma relativa popularização da universidade, com o ingresso de uma parcela de setores historicamente excluídos, mas na concepção continuamos a ter universidades elitistas ou mercantilizadas. E tem os impactos que esta crise econômica e os cortes na educação terão para os estudantes, em especial para os filhos da classe trabalhadora, aqueles que ainda tem que lutar pelo seu reconhecimento. É o caso das mulheres, dos negros, dos LGBT’s, dos indígenas e quilombolas, que lutam cotidianamente pelo direito à fala, à afirmação, à escrever sua realidade e história. Como diria Darcy Ribeiro, precisamos construir a “Universidade Necessária”. O Brasil precisa de uma Reforma Universitária Popular!

Terceiro é o desafio da democratização do movimento estudantil e suas entidades representativas. A participação política cobra das entidades uma reoxigenação. Agora o que queremos é mais espaço para fazer e falar de política. Aquele movimento estudantil acostumado com reuniões pequenas, falas extensas, personalismos que privatizam os debates deve ser superado. Desde o centro acadêmico até a dinâmica da diretoria da UNE deve ser banhada cotidianamente pela participação e democracia. Isso fará nossa força social ser ampliada e consolidada em todo o país. Fará com que a UNE dispute um lugar de protagonismo na política nacional.

Por fim, é desafio nosso também, fortalecer ainda mais a identidade de nossa entidade nas universidades brasileiras. Um dos diagnósticos desta década é que, ainda que tenhamos colocado milhares nas universidades, milhões no trabalho formal, não conseguimos ver nossas entidades estudantis e sindicais avançarem no grau de organização. Muitos estudantes ou não conhecem ou questionam a legitimidade de sua entidade. Isso nós só resolveremos com muito debate. Nossa tarefa será erguer em cada universidade do país pelo menos uma bandeira da UNE, um punhado de jornal de nossa entidade e construir espaços onde os estudantes falem o que acham da UNE, façam suas críticas e questionamentos. Só assim a UNE será oxigenada.

E o primeiro passo nesta direção é a construção da “Jornada Nacional em Defesa da Educação e Contra os Cortes”, que aprovamos no nosso último Congresso, para ser realizada em agosto deste ano. Precisamos ser os mais combatentes na defesa da Petrobras, contra a investida tucana de revisão da Lei de Partilha, e da mesma forma, muito críticos com os cortes na educação que o governo Dilma vem fazendo, através de seu ministro Levy.

Como você vê a manobra que ocorreu na Câmara dos Deputados para aprovar a redução da maioridade penal?

Foi um golpe. Muitos juristas e entidades já se posicionaram neste sentido. Até mesmo ministros do STF já emitiram opinião. O que o sr. Eduardo Cunha fez foi fazer prevalecer a opinião de quem o financiou na época da campanha, utilizando-se de manobras regimentais.

Agora uma coisa é clara, nós estamos preparando em todos estados escrachos aos “deputados da redução”. Já o fizemos com André Moura (PSC-SE), no aeroporto de Aracaju-SE, e também com a deputada Mariana Carvalho (PSDB-RO). Outros virão. Teremos uma série de manifestações de rua nestes dias.

Ou seja, se o sr. Eduardo Cunha acha que sua manobra passará impune, está muito enganado. Nossa entidade está prestes a completar 80 anos de existência (2017). Não chegamos até aqui por acaso. Nossa história é atravessada de lutas em defesa da juventude e do Brasil. Nossa resposta, a mais forte, será dada nas ruas.

Como você vê essa movimentação de setores conservadores da sociedade para fazer um impeachment na presidenta Dilma Rousseff?

É uma movimentação real, mas não consensual, entre a oposição. Ainda que nos últimos dias, setores mais radicais da direita vem tentando impor a pauta do impeachment. E por isso não podemos em nome de nossas divergências com a política atual desse governo, fechar os olhos para as mais claras intenções do conservadorismo. Da mesma forma, esta possibilidade não pode paralisar os setores democráticos da sociedade, de criticar os rumos equivocados que o governo está tomando.

Estamos vendo uma nova investida dos parlamentares da oposição, que falam abertamente em renúncia e impeachment. Os movimentos de direita já convocam nova manifestação para o dia 16 de agosto. Temos de atuar também, organizar nossas tropas e colocar a UNE na rua, enfileirada junto aos movimentos sociais e sindicais. Nestes anos todos, forjamos muitos outros Honestinos e Heleniras.

Parafraseando Chico Buarque: é na luta de classes “que eu vou me conhecer inteiro/se nasci pra enfrentar o mar/ou faroleiro”, devem se questionar nossos lutadores e lutadoras.

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