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No palco ou fora dele, a 10º Bienal da UNE foi das Artes Cênicas

08/02/2017 às 18:13, por Cristiane Tada com fotos e informações do Cuca da UNE.


Apresentações mais prestigiadas pelos estudantes e seus temas engajados refletiram a “cara” desta edição

A dramaturgia e toda a sua carga de emoção e catarse foi com certeza um dos destaques dessa 10ª Bienal da UNE. Tanto a mostra convidada como a mostra selecionada comoveram, incomodaram e trouxeram pautas importantes para o palco do maior festival estudantil da América Latina. Seja dentro do teatro ou em praça pública os espetáculos foram amplamente prestigiados e seus temas refletiram a “cara” desta edição do evento.

A conexão com as pautas nacionais trouxeram as opressões e suas dores, montagens coletivas e espetáculos que interagiram com o público.

O Coletivo Ocupa Teatro formado por estudantes de mais de 10 cursos diferentes da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) durante a ocupação das universidades fez da sua apresentação do musical “Benedites” um acontecimento.

Zé Celso e os 40 integrantes do Ocupa Teatro no final da apresentação de Benedites

O jogo de luzes sob os corpos nus banhados de suor em contraste ao cenário sujo, típico do caos e desordem da cidade chocou. E questionou que mesmo o corpo vestido não está coberto e se quer protegido dos julgamentos e da opressão, que muitas vezes termina em violência. A apresentação partiu de músicas da cantora Elza Soares para falar sobre o corpo negro, sua marginalização, embranquecimento e desconstrução.

Prestigiado pela presença na plateia do líder do Teatro Oficina, Zé Celso, o final do espetáculo foi uma celebração da arte com direito a beijo na boca do mestre a todo o elenco.

“As mostras provocaram intercâmbios entre os artistas consolidados e os estudantes. Zé Celso comparou a direção de arte de Benedites tão bem feita quanto uma obra de aleijadinho”, contou a coordenadora da Mostra Selecionada, Camila Ribeiro.

Guerras atuais e universais

Outro espetáculo de destaque foi a peça Debaixo da Pele do Grupo de Teatro Eureka formado dentro do curso de Licenciatura em Teatro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Encenada em praça pública o espetáculo convidou todos que passavam pelo espaço a conhecer a história do negro no Brasil, da chegada dos primeiros navios negreiros até o genocídio da juventude negra que acontece hoje.

Apresentação do espetáculo Debaixo da Pele, do Grupo Eureka da UFRN

Já o espetáculo Descendentes trouxe um reflexão universal para o palco da Bienal: as várias formas de queda do homem ao longo da humanidade desde sua criação. Amor não correspondido, escolhas ao longo da vida e suas consequências a partir da busca excessiva pelo conhecimento, e o avanço da tecnologia foram algumas das questões da peça encenada pelos sete atores da oficina 16 de teatro do Grupo Arte Viver.

Com o provocativo título “Qual é a sua guerra”, o espetáculo fruto do curso de teatro da UFC, encenou uma guerra ‘molhada’ com bixigas d’água em plena praça do Dragão do Mar. 17 atores incitaram a participação do público convidando todos a “botar pra fora sua guerra”. O texto dialoga com a atualidade e foram adaptados pelos estudantes baseados em fatos reais com uma travesti assassinada em 2015 em Fortaleza ou a trágica chacina de Messejana quando 13 jovens foram assassinados pela PM.

Espetáculo “Qual é a sua guerra” da UFC

Plínio Marcos? Presente!

Como um bom filho que a casa retorna, a voz de Plínio Marcos voltou a ecoar na UNE. A apresentação de Navalha na Carne, pelo Teatro Oficina, na Mostra Convidada trouxe o texto mais encenado do dramaturgo paulista que participou da criação do Popular de Cultura da UNE da década de 60.
Assim como vários outros artistas e intelectuais do CPC Marcos teve seu trabalho perseguido pela censura do regime militar e chegou a ser preso e interrogado pelo DOPS.
Escrito em 1967, a peça conta a história da prostituta Neusa Sueli (Sylvia Prado), seu cafetão, Vado (Drummond) , e o homossexual Veludo (Tony Reis) em uma estrutura de violência e opressão.
Devido a procura dos estudantes, a apresentação teve que ser feita duas vezes na terça-feira (31/01), terceiro dia da Bienal.
Incitada pelo público a falar a atriz Sylvia Prado agradeceu o público ao fim do primeiro espetáculo e contou que chegou a se questionar sobre a atualidade do texto para a apresentarem na Bienal.
“Estou feliz por não termos adaptado a peça, apesar de hoje ela estar cheia de “cacos” (termo usado para os improvisos que não estão no texto original) ela é uma célula de tudo que está acontecendo no mundo de opressão, de abuso, essa relação que era na época de uma prostituta e um cafetão ela é hoje qualquer relação em qualquer escala de humanidade”, afirmou.

Grupo Nóis trouxe dissenso sobre a periferia, raça e maracatú

A apresentação do Grupo Nóis de Teatro, de Fortaleza, na Mostra Convidada também foi um momento único. A trupe parte da saga de Natanael, negro, pobre e oprimido, sua juventude e escolhas que o levaram a opressor. Através da música, humor, adereços e alegorias do candomblé os atores contaram uma história comum nas periferias de todo o Brasil. No fim da apresentação uma mensagem de Racistas não passarão, e homenagens as manifestações culturais negras afirmaram ainda sua posição de defesa ao ‘negrume”, prática do maracatu cearense onde os participantes pintam o rosto de preto em uma reverência ao povo negro.

Assista ao vídeo do Cuca da UNE da apresentação:

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