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No Oficina, Zé Celso é democracia e simbiose artistas-estudantes renova luta

05/04/2016 às 11:32, por Rafael Minoro.

O tal “dia histórico” talvez tenha acontecido na noite da última segunda, 4 de abril, no Teatro Oficina, em São Paulo, durante o ato “Cultura pela democracia”

“O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”.

A poesia de Carlos Drummond de Andrade é tão atual que deveria ser cravada nas faixas e cartazes das passeatas em defesa da democracia que ocupam todos os dias as ruas do Brasil.

Na última segunda-feira, mais uma vez, foi esse o sentimento. Mariano, o ator e mestre de cerimônia que conduziu a noite, anunciou: era 4 de abril, outono, Teatro Oficina. Primeiro, incenso para defumar o golpe. Depois, o som e a fúria das mãos femininas do Ilú Obá De Min abriram os caminhos. Porrada. A partir daquele momento, as centenas de corpos ali presentes não ficariam mais afastados. Lutarão, juntos, até o fim.

A intensidade do imprevisível ato “Cultura pela Democracia”, realizado em um dos principais teatros do mundo, palco de resistência e liberdade, fez muita gente ali dentro (e do lado de fora, que estava lotado) ter a certeza de estar fazendo parte daquele tal “dia histórico”.

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Confirmava essa certeza a presença do movimento estudantil e sua irreverência em uma simbiose criativa junto a artistas e público que há muito tempo não se via. E a história confirma: quando artistas (de várias gerações) e estudantes “conspiram a favor”, a força de transformação deste movimento é catalisadora e perturbadora.

Pelo corredores do teatro, muitos jovens da UNE, UBES, UPES, UEE-SP e CUCA, entidades estudantis que estavam ali para se reinventar. Assim, os tradicionais gritos de ordem se misturaram às poesias, músicas e intervenções. Os estudantes então se lançaram em um desafio. Eles começam essa semana a rodar o Estado de São Paulo a bordo de uma caravana para aprofundar o debate sobre a democracia.

“A gente junto está deglutindo todos esses elementos que estão na praça para parir um novo Brasil!”, digeriu a coordenadora do CUCA, Patrícia Matos.

E bastava um correr de olhos pelas características estruturas de andaimes do Oficina e dar de frente com as diretoras de cinema Anna Muylaert e Tata Amaral, a atriz Camila Márdila, os atores e diretores teatrais Celso Frateschi, Paschoal da Conceição e Sérgio Carvalho, os músicos Filipe Catto, Flávio Renegado e Chico César.

“Os meios de comunicação que deveriam fazer jornalismo estão se metendo a fazer ficção. Então, é um momento, de quem faz cinema, de quem faz teatro, de quem faz qualquer manifestação artística estar falando a verdade. Não fazer ficção cosmética. Representar a mulher como ela é, representar o país como ele é, e não um país adulterado para uma elite se ver no espelho. Acho que esse é o nosso papel”, compartilhou com o público Anna Muylaert, já com o ato tomando o lado de fora do Teatro, no meio da rua.

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Reverenciados, estavam lá também duas lendas vivas da arte. Uma delas, o fundador do Teatro Ventoforte, Ilo Krugli. Outra, o guerreiro Sérgio Mamberti, que lembrou a noite de estreia do Teatro Oficina e não se conteve; mandou um poderoso “Raios e trovões” contra o golpe, relembrando o seu personagem Dr. Victor, da série Castelo Rá-Tim-Bum.

Já a figura de José Celso Martinez Corrêa, ao adentrar o Teatro Oficina, que ele criou há quase 60 anos, não era a do diretor ou do ator ou do fundador. Zé, naquele “dia histórico”, era a democracia. Seu corpo, sua energia, seu olhar e o aperto de mão de um amigo era o aviso de que os verdadeiros não se afastam nem nos momentos mais difíceis. “Não tem arrego. Vai ter luta”, bradou o homem-democracia.

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(Créditos: Foto 1: Rafael Minoro / Foto 2: Mídia Ninja / Fotos 3 e 4: Gabriel Wesley-CUCA da UNE)

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