Pular para o conteúdo Pular para o Mapa do Site

Notícias

Últimas Notícias

Não é só pela reorganização

26/11/2015 às 17:41, por Camila Lanes, presidenta da UBES.

Leia abaixo o artigo de Camila Lanes, presidenta da UBES, que está acompanhando diariamente as ocupação das escolas contra a reorganização no Estado de São Paulo. Na foto ao lado, Camila participa de assembleia dos estudantes da Escola Estadual Maria Regina, na Zona Leste da capital paulista. 

ESTUDANTES EM LUTA: NÃO É SÓ PELA REORGANIZAÇÃO, É PELO NOSSO DIREITO À EDUCAÇÃO!

No Brasil, o movimento estudantil, em todos seus âmbitos de organização — seja com os representantes de classe, grêmios, uniões municipais, estaduais e nacionais — há décadas reivindica melhorias para a educação e mais políticas públicas para a juventude. Resistimos contra a brutalidade e a censura da Ditadura Militar de 1964 e seu antidemocrático AI-5. Neste período, perdemos figuras emblemáticas e importantes para nossas organizações: Edson Luís, estudante secundarista morto pela truculência da ditadura, Honestino Guimarães, ”desaparecido” pelos militares, e tantos outros.

Mais adiante, conquistamos o direito ao voto, estivemos à frente da luta pelo impeachment de um presidente da República neoliberal, lutamos contra o fim do Ensino Técnico nos anos de desmonte da educação do governo FHC e hoje, com a retomada da educação técnica, seguimos indo às ruas pedir a sua expansão e melhoria – afinal, acreditamos que a juventude merece mais do que somente apertar parafusos.

Brigamos pela valorização dos profissionais da educação, conquistamos o Plano Nacional de Educação, que prevê uma série de novos investimentos na educação brasileira, e enfrentamos até mesmo a tentativa golpista de reduzir a maioridade penal, impondo a primeira derrota à Eduardo Cunha e seus desmandos autoritários. Tudo isso graças à organização plural e ampla do movimento estudantil, composto por vários coletivos e pensamentos, mas um único ideal: mudar a educação e o Brasil. Os estudantes secundaristas sempre pautaram e reivindicaram junto às ruas o seu presente e futuro. Hoje não é diferente. Pelo país todo, encontramos estudantes que debatem e insistem em não aceitar o modelo ultrapassado de educação que permanece.

Temos como desafio atualizar o modelo atual, que apresenta uma escola do século XIX, práticas pedagógicas do século XX e estudantes do século XXI. A escola não tem seu tempo ajustado e isso influencia na má condição de ensino. No Estado de São Paulo, especificamente, a situação é bastante grave. Todo esse atraso acumulou durante os últimos 20 anos um desmonte educacional maior do que os olhos podem ver, pois hoje as escolas estaduais tem sua estrutura física e acadêmica abaladas pela falta de atenção e cuidado do governo estadual. Descontente com as greves e passeatas contra a gestão educacional de Alckmin (enfim, descontente com a luta por uma educação melhor), o secretário Estadual de Educação, Herman “Voldemort” Voorwald, anunciou um ”novo” modelo de ensino como sendo um exemplo e solução para a janela de mais de 2 milhões de estudantes que não estão dentro da sala de aula.

O plano de ”reorganização” da atual gestão foi criado sem consultas às instituições de ensino e à comunidade escolar que vive a escola cotidianamente.Após anunciar que iria fechar mais de 90 escolas pelo estado, os estudantes começaram a ver que o modelo proposto por Herman na verdade era a cereja do bolo de privatização e sucateamento da educação pública paulista – desses 2 milhões de estudantes secundaristas que saíram da rede pública de ensino, 600 mil estudantes tiveram de ingressar na rede privada de ensino, um crescimento de 35% da rede, numa demonstração clara da venda da educação e do despreparo do governo estadual para administrar o maior e mais rico estado do Brasil. Paralisações e assembleias foram realizadas pelos estudantes contra a decisão sem diálogo do governo e fomos além: precisávamos chamar mais a atenção do governo de Geraldo Alckmin, o “Rei do Castelo de Areia”.E assim, começaram as ocupações. Todas organizadas de forma pacifica, ordenada e com muita unidade.

No dia 18 de Novembro eram aproximadamente 40 escolas ocupadas, hoje são mais de 170 escolas que estão sob a tutela dos estudantes ali matriculados, pais, mães e simpatizantes do movimento que está comovendo o Brasil. Vale ressaltar que a “auto-gestão” dos estudantes está dando um belo exemplo a todos e todas que discutem sobre uma nova educação: durante as ocupações, acontecem aulas públicas, debates, intervenções culturais e artísticas e muito mais, afinal, os estudantes estão escolhendo qual a sua grade curricular, mesmo não sendo a grade comum. O que vale lembrar é que os debates que estão acontecendo dentro das instituições ocupadas são de interesse coletivo e muitas escolas hoje se encontram em melhores condições do que há 3 semanas, quando a limpeza, cozinha, administração e até mesmo dinâmica de ensino era de total responsabilidade do governo do estado.

O combate à “reorganização” é o motivo principal de todo esse movimento, porém, cada estudante que ocupa sua escola também tem um sentimento de revolta por não ter a educação que passa nas propagandas da TV.

O caso é critico. Temos uma escola sucateada, sem estrutura, desvalorizada e esquecida pelo Estado, onde a dinâmica é simples: copia e decora para, no final, avaliar com uma prova fajuta e seletiva, o SARESP. Não é à toa que o boicote ao SARESP foi uma das propostas aceitas por todo movimento. Não acreditamos que a bonificação de determinadas figuras irá transformar a educação do estado de São Paulo. Assim como em Junho de 2013, quando milhões ocuparam as ruas não somente pelos vinte centavos, mas, sim, por outros vários direitos ceifados para uma grande parcela da população, os estudantes estão ocupando suas escolas não somente pela desorganização, mas por uma série de políticas e decisões aplicadas em nossas instituições que vem colocando a educação em um quadro de desrespeito com toda a comunidade.

No Estado de São Paulo, nossos professores recebem um piso salarial abaixo do estabelecido nacionalmente. Nos últimos anos, Alckmin fechou várias salas de aulas e é esse o motivo de hoje existir uma ”janela”: ao mesmo pé que encontramos salas vazias, temos salas superlotadas, muitas vezes com mais de 50 estudantes. Nessas condições, nenhum educador consegue desenvolver uma boa aula, nenhum estudante consegue, de fato, aprender, nenhum cidadão consegue se formar!O desrespeito com o presente e futuro de um estado demonstra o quão preocupado Alckmin e seus “alckmistas” estão com a juventude.

A manobra de esvaziar as ocupações com ameaças, seja por parte da Policia Militar, seja multando diariamente o sindicato dos professores (APEOESP) ou tentando criar um movimento de ”parte” das direções contrárias às ocupações não abalam o sentimento de luta e resistência que se instalou no coração de cada ocupante! Justamente porque sabemos que não podemos arredar o pé da luta, muito menos agora, após 20 anos de desserviços, os secundaristas estão dando uma lição aos Alckmistas. Não fechem nossas escolas!Alckmin tem ignorado totalmente os protagonistas desta luta, os estudantes. Após não autorizar seu “guarda” Herman a chamar uma audiência pública no começo das movimentações e ainda a se negar a dar um passo atrás, impomos, graças à unidade e resistência de mais de 150 ocupações, a primeira derrota desse que acha ser o “rei da monarquia paulista”: no dia 20 de Novembro, no Palácio da Justiça, três desembargadores votaram pela rejeição das liminares de reintegração de posse das ocupações.

Representantes da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), da União Paulista dos Estudantes Secundaristas (UPES) e da União Municipal dos Estudantes Secundaristas de São Paulo (UMES), estávamos presentes e ouvimos em alto e bom som: ”As ocupações são pacíficas, o governo do Estado continua tendo a posse e propriedade de todas as instituições ocupadas, porém não tem o controle sobre essas. Por entender que todo esse movimento é pela falta de diálogo e políticas públicas, não concedemos nenhuma liminar na cidade de São Paulo até segunda ordem”, declarou o Desembargador Coimba Schmidt. Com isso, se ressalta mais uma vez: o governo do São Paulo nunca dialogou com os estudantes, nem com as entidades estudantis sobre qualquer questão. Nossa única proposta é somente desocupar nossas escolas quando o governo retroceder na decisão antipopular e antidemocrática de nos fazer aceitar esse plano de desorganização! A decisão judicial foi uma vitória de todos e todas, porém temos muito chão ainda, uma longa caminhada!

O momento pede unidade, respeito e verdade. Não podemos cair em golpes midiáticos que apontam mentiras na tentativa de descontruir o mais belo movimento já organizado na história em combate às politicas neoliberais de Alckmin, Herman e cia. Qualquer tentativa de oportunizar a luta do movimento deve ser repudiada. As entidades estudantis não irão cair na ladainha do governo Alckmin. Não iremos recuar nem aceitar retirada de direitos. Estamos unidos na luta e não iremos desocupar uma única escola sem antes ter a certeza de que a mesma não sofra com toda a maldade dos Alckmistas!

Alckmin e Herman mexeram com os estudantes secundaristas, uma parcela que, em São Paulo, são mais de 5 milhões de jovens que vivenciam no dia a dia o sucateamento e descaso com a educação em São Paulo. Uma juventude irreverente, alegre, aguerrida e persistente, que não teme nada, nem mesmo a Polícia Militar, e que está disposta a ocupar cada escola do Estado de São Paulo para deixar o recado bem dado: NÃO TEM ARREGO, VOCÊ FECHA MINHA ESCOLA E EU TIRO SEU SOSSEGO!

Pular para o Conteúdo Pular para o Topo