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‘Não é momento de bravatas, mas de defesa da autonomia’, diz reitor da UFSC

28/05/2018 às 18:00, por Alexandre de Melo com edição de Cristiane Tada.


Em entrevista, Ubaldo Cesar Balthazar fala sobre autonomia das Universidades, greve dos caminhoneiros, democracia e os rumos da Educação brasileira

Ubaldo Cesar Balthazar, 65 anos, é docente do curso de direito desde 1978. Em novembro de 2017 foi eleito reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), após uma tragédia.

O seu antecessor, Luiz Carlos Cancellier, se matou em outubro de 2017, pulando do 7° andar de um shopping em Florianópolis, depois ser afastado da função. Cancellier foi acusado de deixar de tomar medidas para coibir deficiências na aplicação de recursos no programa de educação à distância. Ele foi preso temporariamente na Operação Ouvido Moucos e foi impedido de retornar à Universidade. No entanto, apesar da Polícia Federal anunciar a ação em sua página do Facebook com as hastags #euconfionapf e #issoaquiépf nada foi provado.

O caso colocou em cheque a autonomia universitária que diz respeito a garantia de que, independente dos governos e dos estados onde elas estejam inseridas, o conhecimento vai ter liberdade pra ser produzido mesmo que contrarie as regras daquela sociedade. No caso do Brasil, nós conquistamos a partir da Constituição de 1988 a autonomia financeiraautonomia administrativa e a liberdade de pensamento, ou seja, a liberdade de cátedra.

Assim como ocorreu na UFSC, autoridades universitárias da UFMG também foram conduzidas coercitivamente sem justificativa pela PF e uma disciplina da Universidade de Brasília (UnB), quase foi censurada diretamente pelo Ministério da Educação, que só voltou atrás após mobilização da comunidade acadêmica. 

Atual reitor da UFSC, Ubaldo conversou com a reportagem da UNE Volante em uma semana difícil para a UFSC. Devido a paralisação dos caminhoneiros e a impossibilidade de locomoção dos alunos, as atividades de ensino foram suspensas até quarta-feira (30). A semana estava marcada justamente para as atividades culturais e debates da UNE Volante em Santa Catarina, que foi adiado para uma data a ser combinada. Alguns dos temas de debate da UNE Volante no Estado foram conversados com o reitor: autonomia na Universidade, defesa da Petrobras, defesa da Universidade pública, gratuita e de qualidade, além dos novos rumos da UFSC após a tragédia. Confira o papo, abaixo.

Quais são as resoluções da UFSC sobre a greve dos caminhoneiros?


Reunimos o conselho acadêmico e decidimos em consenso cancelar as atividades de ensino até quarta-feira (30) em todos os níveis por conta da não possibilidade de deslocamento dos estudantes. As atividades administrativas se mantém, pelo menos a principio. Algumas questões serão consideradas caso a caso. O gás para o restaurante universitário, por exemplo. Além disso, formamos um comitê para propor ações para a crise e na quarta-feira na parte da tarde faremos uma reavaliação.

Durante a reunião do conselho da UFSC, comentou-se sobre a ideia de um encontro das universidade públicas para pautar e talvez contribuir em algumas bandeiras de lutas que os caminhoneiros estão reivindicando como a defesa da Petrobrás. Vai acontecer?


Isso é uma proposta levantada, mas temos que conversar com o presidente da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), o Emmanuel Tourinho. Ainda não há nada agendado.

A UNE Volante iria debater a autonomia das universidades na UFSC, mas por conta da paralisação, o debate será remarcado. O senhor poderia comentar porque o tema da autonomia é uma defesa da UFSC?


Nós estamos vivendo um problema sério de desrespeito a autonomia da Universidade na qual o garantia constitucional da autonomia vem sendo pisoteada. Haja visto o que aconteceu conosco no segundo semestre do ano passado (a prisão, afastamento da universidade e o suicídio do reitor Luiz Carlos Cancellier). Nas reuniões da Andifes, há relatos de inúmero reitores sobre o desrespeito da autonomia nas universidades. Eu diria que é um momento político delicado porque passamos por um processo eleitoral e aguardamos a decisão do presidente da República para aceitar ou não a lista tríplice que foi encaminhada (para decidir sobre a nova reitoria). Não é momento de bravatas, mas de defender a autonomia da universidade no que diz respeito a pesquisa, ensino, gestão, extensão. Afinal, é o que diz a Constituição Federal. Na mídia e na reunião em Brasília falamos muito disso. A Universidade não pode ficar refém de autoridades que não sabem o que é Universidade autônoma. Infelizmente, já perdemos a autonomia financeira, mas não podemos abrir mão de uma autonomia científica, didática, acadêmica.

Como a UFSC reagiu após a morte do reitor Luiz Carlos Cancellier?


É realmente um assunto delicado. Mexe muito com o sentimento de todo o nosso corpo docente, técnico administrativo…. (pausa). A maioria dos nossos alunos ainda sentem. Não vamos esquecer nunca, mas nós precisamos superar o luto. Uma das formas é normatizar a administração. Fizemos um processo eleitoral que é consequência de tudo que aconteceu e o conselho universitário referendou a consulta que foi feita a comunidade universitária, encaminhamos a lista tríplice ao Ministro da Educação e deve chegar ao Presidente da República. Isso tudo é uma forma de superar. Não no que diz respeito ao professor Luiz Carlos ou ao Ubaldo, mas no sentido de uma universidade nova, eleita e confirmada para iniciar um projeto escolhido pela comunidade universitária.

Em nome do combate à corrupção, a conduta do Judiciário e da Polícia Federal nos casos da UFSC e da UFMG foi arbitrária?


Evidentemente, ninguém aqui é a favor da corrupção. Os antropólogos dizem que a corrupção é inerente à sociedade e há uma tolerância de 3%. O ideal é não haver corrupção. No entanto, a corrupção brasileira está insuportável e gera corrupção na população também. O problema no Brasil é que em nome do combate à corrupção, os princípios democráticos foram pisoteados. Quando a gente vê um juiz exercer um papel de promotor e julgar previamente em entrevistas, com toda a honestidade, isso é o principio do caos.

“Em nome do combate à corrupção, os princípios democráticos foram pisoteados” diz Ubaldo. Crédito: Davi Dutra

A Universidade brasileira está mais diversa e democrática, de fato, depois da política de cotas? Há mais mulheres, negros, LGBTs e índios na UFSC?


Sim. Eu tenho conversado bastante com os grupos indígenas, negros e LGBTs que compõe a comunidade universitária. Estamos no caminho correto de debater, ouvir e melhorar, sabe? Podemos melhorar. Temos apenas 4 mulheres na administração aqui da UFSC. Nós vamos aumentar. Temos excelentes professoras e pesquisadoras que podem compor a administração universitária. Talvez a gente esteja pecando um pouco no sentindo de informar mais para a sociedade que a Universidade está mais próxima desses grupos. Não adianta informar apenas no Facebook. Precisamos informar mais o que a Universidade faz no seu dia a dia. Nossa agência de comunicação faz um bom trabalho, no sentido de qualidade, mas podemos aumentar o fluxo de informação.

Como foi a sua experiência de militante estudantil no período da ditadura militar?


A política estudantil na minha época foi no governo Médici. Eu terminei a faculdade no período Geisel antes da abertura lenta e gradual. Foi complicado (pausa). Eu participei do diretório acadêmico da época, depois do centro socioeconômico, fui secretário do DCE. Nossa atuação era vigiada. Qualquer reunião precisava de autorização dos órgãos responsáveis e de vez em quando desaparecia pessoas. Tivemos um aprendizado grande. No entanto, não se compara com a política estudantil atual. Hoje há total liberdade para interagir, debater, criticar, sugerir. Para piorar, eu era jornalista e vivia um meio borbulhante de censura. Cansei de preparar matéria, entregar para o editor e verificar que não apareceu nada. O chefe de redação me falava: ‘Cara, que mundo você vive? Você acha que pode escrever o que quer? Se a gente não tiver cuidado vai ter um censor aqui dentro’.

Qual é o seu sentimento ao ver jovens pedindo intervenção militar ou apoiando candidato assumidamente fascista?

Essa semana me passaram essas mensagens de corrente de Whatsapp com a seguinte frase: Intervenção literária já! O jovem que defende intervenção militar está completamente desinformado sobre o que é intervenção militar. Eu recomendo muito a leitura de um jornalista que nem é tão de esquerda assim, o Élio Gaspari: “A Ditadura Envergonhada”, “A Ditadura Escancarada”, “A Ditadura Derrotada”, “A Ditadura Encurralada” e o último, “A Ditadura Acabada”. Aí eles poderão ter uma ideia do horror desse regime.

Eu peço a Deus que jamais volte um regime daquele. Na minha sala de aula havia um sujeito que ninguém sabia quem era. Estava lá para controlar o que falávamos. É horrível viver em um regime assim. Quem pede intervenção é uma analfabeto político. E quanto mais cresce a campanha daquele candidato fascista, mais podemos verificar que nosso analfabetismo político está arraigado.Nesse sentindo eu concordo com o ex-primeiro ministro do Reino Unido, Winston Churchill, que dizia: ‘A democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as demais’. Sem diálogo, não se faz política.

Há esperança de reconquista de autonomia e desenvolvimento brasileiro nessas eleições?


Eu sou otimista. Não tenho um nome ainda, mas tenho a impressão que a candidatura da extrema-direita está chegando no limite. O Brasil tem solução e a sociedade brasileira vai saber escolher. E cá entre nós, a gente pode errar, mas aos poucos vamos acertando. As eleições desse ano serão um bom momento para melhorarmos. Pelo menos, melhor do que tudo isso que está aí.

 

 

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