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Museu Nacional: nosso futuro não será transformado em cinzas

04/09/2018 às 13:48, por Renata Bars.


Confira artigo escrito pela coordenadora nacional do Cuca da UNE Camila Ribeiro

A erupção do grande vulcão Vesúvio que sepultou a cidade de Pompeia não foi capaz de pôr fim a uma coleção de objetos da cidade do antigo Império Romano. Quem imaginaria que séculos mais tarde um incêndio provocado pelo descaso e pela política de austeridade seriam capazes de reduzir a cinzas alguns séculos de história da humanidade e mais 200 anos do primeiro centro de pesquisa do país ?

Na segunda-feira, 3 de setembro de 2018, a multidão que tomou conta da Cinelândia, no Rio de Janeiro, indignada com o incêndio do Museu Nacional contrariou a ideia de que a cultura e a ciência não fazem parte de um projeto de Brasil, e portanto, é normal vê-las destruídas ou minguando pelo mínimo de recurso e atenção do poder público e que ninguém vai se importar porque não faz parte da vida das pessoas.

Museu Nacional em chamas no último domingo, dia 2 de setembro Foto: Francisco Proner | Farpa

A comoção se deu pela perda de um dos maiores acervos de arqueologia, antropologia e história natural do país e infelizmente, não é um caso isolado. Ano passado os Parangolés de Hélio Oiticica pegaram fogo, assim como o MAM, a Cinemateca Brasileira, o Instituto Butantan, o Memorial da América latina, o Museu da Língua Portuguesa.

Essa precariedade revela um histórico de ausência de políticas públicas de preservação do patrimônio histórico no Brasil que tem se agravado após o golpe de estado em 2016 e a aprovação da EC 95. Na gestão de Gilberto Gil no Ministério da Cultura (MinC), ensaiou-se a criação do Sistema Brasileiro de Museus, programa brutalmente interrompido pela redução orçamentária que coloca o MinC em uma inoperância assustadora.

O Museu Nacional é pertencente à UFRJ, universidade que tem sofrido as consequências do teto de investimentos na educação. No ano passado, por exemplo, o museu foi fechado temporariamente pois a UFRJ não tinha dinheiro para pagar os funcionários terceirizados.

Estudantes protestam contra o descaso e a falta de recursos do Museu Nacional Foto: Foto: Vangli Figueiredo | Circus da UBES

 

Nos últimos meses foi preciso fazer “vaquinha” para a manutenção da instituição que não recebe integralmente, desde 2014, a verba de R$ 520 mil anuais para sua manutenção. Em 2016, esse orçamento caiu para R$ 415 mil, em 2017 foi para R$ 346 mil. Em 2018 o Museu recebeu apenas R$ 54 mil.

A ausência de políticas de proteção do patrimônio e a falta de orçamento somadas à lógica privatista da coisa pública, os órgãos de proteção do patrimônio material e imaterial, como o IPHAN, à mercê da especulação imobiliária e da livre “regulamentação” do mercado. Além do próprio processo de tombamento tornar-se insustentável a medida que o Estado não se responsabiliza pelo custeio da manutenção do bem tombado.

As chamas que tomaram conta do acervo de valor incalculável do Museu Nacional jogaram luz, ainda que de forma trágica, para as pautas da cultura e da ciência e tecnologia, que estavam debaixo do tapete em um processo eleitoral marcado pela ausência de grandes temas e, do líder das pesquisas e intenção de votos, nos debates programáticos.

Cinelândia tomada por manifestantes em grande ato pelo Museu Nacional Foto: Foto: Vangli Figueiredo | Circus da UBES

É uma necessidade imperativa restabelecer a democracia para que seja possível olhar para frente. Precisamos que o processo eleitoral pare de girar em círculos na discussão moralista restrita a corrupção e passe a discutir a fundo um projeto para o Brasil que coloque a educação, cultura e ciência e tecnologia como elementos fundamentais para a soberania nacional.

Diz Walter Bejamin: “Nem os mortos estarão em segurança se o inimigo vencer”. Não podemos jogar nas labaredas do descaso nossa memória, nossa inteligência, nossa história. Mais do que nunca precisamos jogar duro para devolver a nós mesmos a esperança de que o Brasil pode ser o país do futuro.

Camila Ribeiro, Coordenadora Nacional do Cuca da UNE

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