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Mulheres relatam casos de violência em 55 redações do ENEM

14/01/2016 às 19:37, por Mariana Payno.

MEC identificou relatos pessoais entre as redações do exame; violência contra a mulher dentro da universidade será pauta no 7º EME da UNE

O tema da redação do Enem 2015 deu o que falar no ano passado. “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira” incomodou o patriarcado brasileiro, e o governo federal foi acusado, entre outras coisas, de “doutrinação”. “É um tema que tira da zona de conforto”, diz a diretora de Mulheres da União Nacional dos Estudantes, Bruna Rocha. “Sem dúvida, essa prova populariza um debate que a gente já vem fazendo em alguns espaços e o coloca na agenda da família brasileira.”

Na última semana, quando foram divulgados os resultados da prova, o Ministério da Educação revelou um dado alarmante: 55 redações continham relatos pessoais de violência. “Tivemos redações em que as mulheres descreviam cenas de violência em que foram vítimas ou testemunhas. Não sabemos necessariamente se aquele texto é um depoimento, mas tudo indica que sim”, afirmou o ministro da Educação, Aloizio Mercadante.

Para Bruna, o ocorrido reforça sintomas da cultura patriarcal e do impacto que ela causa na vida das mulheres. Por mais que o Estado reconheça a violência, não dispõe de maneiras eficientes de combatê-la. “O fato de alguns relatos aparecerem em uma prova de redação só mostra como não existe mecanismo nenhum para as mulheres desabafarem. A única via que elas encontraram foi a redação”, diz. “Os relatos mostram o quão comum é a violência contra a mulher. Tenho certeza que todas as mulheres que fizeram a redação sofreram algum tipo de assédio. Essas 55 nunca tiveram oportunidade de denunciar.”

O MEC decidiu preservar a identidade das vítimas, não entrar em contato com elas pessoalmente e orientar que as candidatas procurem ajuda pelo telefone no número de disque-denúncia 180. “Não consigo dizer se foi uma decisão acertada”, diz Bruna. “A depender do teor do relato, pode ter sido um pedido de socorro. Acho que cada caso deveria ser analisado, e o MEC poderia tentar se aproximar da vítima de forma segura, acionando a assistência social mais próxima, por exemplo.”

A presidenta Dilma Roussef reforçou a orientação pela sua conta no Twitter. Segundo ela, a conscientização ajuda no combate à violência contra a mulher. “Em muitos destes casos a violência está bem próxima. A redação foi um momento de reflexão não só para os participantes, mas para toda a sociedade”, escreveu.

VIOLÊNCIA NA UNIVERSIDADE

O 7º Encontro de Mulheres Estudantes da UNE acontece em março e vai colocar na pauta o tema da violência contra a mulher. “2015 foi um ano de muita mobilização, mas dados mostram que as mulheres negras morrem 54% vezes mais do que há dez anos. O machismo e a dor que foram desvendados pelas hashtags #primeiroassédio e #meuamigosecreto e a misoginia sofrida pela presidenta Dilma mostram que ainda existe muito ódio contra a mulher”, avalia Bruna.

Um dos temas centrais do 7º EME será a violência contra a mulher dentro das universidades. No final do ano passado, uma pesquisa feita pelo Instituto Data Popular revelou que mais da metade das estudantes brasileiras já sofreu, em ambiente acadêmico, algum tipo de violência por ser mulher e que 30% delas foram vítimas de abuso sexual. “Queremos lançar uma campanha que consiga debater isso, que se desdobre em uma agenda concreta de luta pelo nosso direito à liberdade dentro da universidade”, explica Bruna. “Estamos construindo uma nova perspectiva de sociedade, graças a nossa resistência. Vamos superar isso juntas.”

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