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Mulher, negra e feminista: conheça a nova vice-presidenta da UNE

23/06/2015 às 13:26, por Bruno Huberman.

Moara Correa Saboia teve uma trajetória meteórica no movimento estudantil

Mulher, jovem, nordestina, negra e feminista. Essa é Moara Correa Saboia, 25 anos, natural do Recife (PE), estudante cotista de Engenharia Civil da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a nova vice-presidenta da União Nacional dos Estudantes.

Engajada desde a adolescência em coletivos feministas e no movimento negro, sua experiência impulsionou sua trajetória no movimento estudantil. A sua primeira atividade foi o Encontro de Mulheres Estudantes (EME) e depois o Encontro de Negras e Negros da UNE (ENUNE) em 2013.

“Foi quando eu vi que o movimento estudantil se relacionava com a minha vida para além da universidade, isso me dava motivos e a partir disso comecei a militar”, conta Moara.

Ela então foi eleita secretária-geral da União Estadual dos Estudantes de Minas Gerais (UEE-MG), cargo que ocupou nos últimos dois anos antes de ser eleita vice-presidenta do 54º Congresso da UNE, que aconteceu entre os dias 3 e 7 de junho em Goiânia (GO).

Moara fala ainda sobre o movimento Ocupe Brasília, que desde o início de Junho protesta contra os cortes na Educação, o ajuste fiscal e a redução da maioridade penal.

Conheça um pouco mais sobre a nossa vice-presidenta e tudo que ela planeja para os seus próximos dois anos como representante de milhares de estudantes de todo o Brasil.

Você passou a sua infância no Recife?

Eu saí do Recife muito nova. Os meus pais nasceram no Sudeste e foram para Pernambuco por razões econômicas. Como o Nordeste não tinha o desenvolvimento de hoje, eles resolveram voltar para Minas Gerais.

Em qual cidade de Minas Gerais você mora?

Eu moro em Contagem.

Como você entrou para o movimento estudantil?

O que me trouxe para o movimento estudantil foram as lutas específicas: o debate de mulheres e de combate ao racismo. A primeira atividade que eu fui foi o Encontro de Mulheres Estudantes (EME) e depois foi o Encontro de Negras e Negros da UNE (ENUNE). Foi quando eu vi que o movimento estudantil se relacionava com a minha vida para além da universidade, isso me dava motivos e a partir disso comecei a militar na Kizomba. Ai eu me dei conta que a luta que se encontra neste espaço se ligava a minha vida.

E quando foi isso?

Foi apenas dois anos atrás.

E como tem sido esse período?

Eu aprendi muito. Eu tinha muito preconceito com o movimento estudantil. Às vezes, o que chega para nós da base é muito mais a disputa do que o que o que movimento estudantil constrói. Participar do EME foi fundamental, porque era um espaço que não tinha disputa, apenas construção política. O ENUNE a mesma coisa. E quando eu vim no meu primeiro Conune, que foi no 53o Congresso da UNE, eu fiquei maravilhada, apaixonada com dez mil jovens que vinham aqui fazer barulho para gritar e disputar a melhor proposta e os rumos do país.

Você imaginava que, dois anos depois, você se tornaria a vice-presidenta da UNE?

De maneira alguma. A minha trajetória foi muito rápida. Eu entrei e já fui para o cargo de executiva da UEE-MG, muito porque eu já tinha um acúmulo de movimento social.

Onde você militava antes?

Eu era representante nacional do Fórum Nacional da Juventude Negra. Eu, desde muito nova, por volta dos quinze anos, gostei muito de militar nos espaços de luta. O movimento estudantil chegou um pouco depois na minha luta. A minha trajetória nele foi rápida também por entender a realidade que ela propunha, de mobilização da universidade, o empoderamento das mulheres e dos negros.

O que você pretende fazer como vice-presidenta da UNE?

Duas coisas para mim são essenciais. O primeiro é entender a atual conjuntura. A UNE avançou muito nos últimos dez anos. Nos últimos dois ela deu um grande salto. A última diretoria da UNE foi a que conquistou 10% do PIB para a Educação e 50% do fundo social do pré-sal. Foi a que popularizou o acesso à universidade e transformou a classe trabalhadora em uma classe estudantil. Agora, vivemos um momento de crise, e entendemos que não deve ser o estudante, o filho do trabalhador, que deve pagar essa conta. Vamos radicalizar a luta contra todo retrocesso e contra todo o conservadorismo. Além disso, como um fruto das mobilizações de Junho de 2013, a UNE tem que entender as novas formas de organização da juventude. O Coneg e o Conune são fantásticos, mas nem todo mundo consegue se organizar nesses espaços. Democratizar e repensar os espaços da UNE também é uma tarefa muito necessária.

O que seria um novo espaço?

O Enune e o EME são espaços que não tiram delegados e você só aprova resoluções por consenso. Por que não transformar esses espaços em espaços deliberativos? Para participar de um Coneg, você precisa estar organizado em um Centro Acadêmico (CA) ou Diretório Central de Estudantes (DCE), sendo que as universidades têm milhares de outros coletivos. Devemos ter como desafio trazer esses novos atores, que não querem se organizar em partidos ou nas entidades da universidade, para dentro da UNE.

Será a primeira vez que teremos uma mulher na presidência e na vice-presidência da UNE. O que você acha disso?

É um grande desafio. Tem-se muita expectativa sobre essa nova configuração da UNE. Eu e a Carina Vitral [a nova presidenta da entidade] seremos muito cobradas por sermos mulheres. Essas pautas de combate ao machismo e ao racismo são centrais para o movimento estudantil. O espaço do movimento estudantil não tem que ser masculinizado, não tem que ser agressivo, mas um espaço que consiga construir solidariedade. Temos um grande desafio de construir muita unidade para seguir avançando e barrar o conservadorismo.

A nova gestão já começou com tudo, com o Ocupe Brasília. Como foi isso?

Foi muito importante a gestão da UNE começar na luta do Ocupe Brasília, amanhecendo no Ministério da Fazenda contra os cortes na Educação e encerrar o dia conseguindo o adiamento da votação da comissão da redução da maioridade penal foi importante. Já nos deparamos com todos esses desafios que vamos ter nos próximos dois anos, com um Congresso Nacional antidemocrático, que não respeita a participação popular, que coloca a sua polícia pra agredir verbalmente e fisicamente os estudantes. Esses primeiros dias deram a tônica dos desafios para o próximo período.

Por que você é contra a redução da maioridade penal?

Porque ela não resolve o problema. Criminaliza quem é vitima da violência no Brasil, não o culpado. A gente se coloca nessa luta porque lutamos pela educação de qualidade para os jovens. Se este jovem não estiver vivo, não vai poder estudar. Existe um problema sério de segurança pública no Brasil e há um problema da ótica como a segurança é tratada no país, criminalizando a juventude. Temos que lutar para mudar isso.

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