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Milton Guran: um fotógrafo militante

16/06/2017 às 9:32, por Felipe Cânedo.

Milton Guran relembrou histórico congresso em 1979
Foto: Henrique Reis

O fotógrafo e antropólogo Milton Guran, que participou nesta quinta (15) do Conune em Belo Horizonte, documentou o Congresso de Recriação da UNE em 1979, em Salvador. Além dele, apenas o cineasta Silvio Tendler registrou o encontro histórico na capital baiana. Ele narra que cobriu o evento por vontade própria, e que nenhum jornal se interessou pelas fotos produzidas.

Como tinha relação com o movimento estudantil da Universidade de Brasília (UNB), articulou uma exposição, que ficou aberta apenas das 7h às 11h da manhã, e foi fechada pelos militares. O acontecimento atraiu a atenção da imprensa, que deu uma pequena nota. Daí surgiu a ideia de fazer um livro, que foi distribuído no Brasil inteiro e hoje é considerado uma relíquia por antigos e novos militantes.

A seguir algumas perguntas feitas a Guran durante sua participação no 55º Congresso da UNE, em Belo Horizonte.

Quando você fez as fotos do Congresso de Refundação da UNE, de 1979, você já era repórter e as fez por vontade própria. Você tinha dimensão da importância que elas tomariam depois?

Sem dúvida nenhuma. Eu fui pra Bahia consciente da importância daquele Congresso, da importância histórica da reconstrução da UNE, e eu fui com intuito de documentar severamente o Congresso. Eu não saí dali e não dormi. Fotografei ininterruptamente, todo o tempo, só que a documentação produzida foi destruída em um incêndio criminoso no laboratório da Ágil Fotojornalismo (Agência de Imprensa Livre). Pouco antes da não-posse do Tancredo Neves. O que sobrou da documentação do Congresso são as 56 fotos que estão impressas no livrinho da reconstrução.

Qual foi a sua preocupação retratando o Congresso, o que você queria mostrar ali?

Olha, na época eu achava que o mais importante – continuo achando – era mostrar, em primeiro lugar: quem eram aquelas pessoas que estavam reconstruindo a UNE; e como funcionou aquele Congresso. Como ele se organizou, como se estruturou, como as pessoas se expressaram, quais foram as principais palavras de ordem, o que apareceu de novo. De que maneira aquela efervescência política, e aquela nova maneira de fazer política e de existir, estava sendo representada e gestada naquele Congresso. Ali a gente tem faixa pela Amazônia, ali a gente tem a questão de gêneros sendo colocada. É a primeira vez que as mulheres tiveram um protagonismo de primeira grandeza em um evento político daquela amplitude. A maneira como elas se vestiam, as mulheres estavam despojadas, era jeans e camiseta, era vestido simples, todas poderosas, com poucos brincos, zero de colar. Isso que era a força da documentação. Era mostrar quem eram aquelas pessoas e o que estava sendo gestado ali.

Como a política perpassou a sua trajetória profissional e porque ela virou objeto do seu trabalho?

Desde que eu me entendo por gente eu estou envolvido com política. Eu venho de uma família de artistas, meus pais, meu pai principalmente, era de esquerda, era pintor, trabalhou com o Cândido  Portinari. E desde que eu me entendo por gente, eu estou nessa luta por expressão política, por transformação da sociedade. Eu tinha quinze anos quando o golpe foi instaurado no Brasil em 1964, e vivi a transformação do golpe na ditadura feroz que foi, então desde que eu me entendo por gente, eu vivo politicamente, até hoje. Meu trabalho fotográfico reflete isso. Esse livro da UNE é um exemplo, eu trabalhei com os povos indígenas, documentação dos povos indígenas, eu fiz parte do grupo que fundou a Agência Independente de Fotojornalismo, eu mesmo fui um dos criadores da Ágil, em Brasília, exatamente para documentar os movimentos sociais. E agora faço pesquisa na África e no Brasil sobre a questão dos afrodescendentes.

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