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MC Carol e Baile do CUCA lotam a UERJ celebrando o funk carioca

27/05/2018 às 13:59, por Alexandre de Melo.


Festa e luta se somaram na celebração que finalizou a passagem da UNE Volante no Rio de Janeiro 

“Nossas ideias são à prova de balas”. Essa frase estava escrito na camiseta da mestre de cerimônia Mel Gomes, 29 anos, durante o Festival Inquietações que rolou na Concha acústica da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), nesta sexta-feira (25), com shows do Baile do Cuca e MC Carol.

A frase é contundente para o momento das universidades do Rio de Janeiro. O Estado está sob intervenção militar e as universidades estão nos noticiários diários por conta da violência. Os casos mais falados nos últimos meses são o sequestro de professores em estacionamento da UFRJ e o assassinato da estudante não-binário da UERJ, Matheusa.

Mel Gomes e Natália Trindade comandam o Baile do Cuca no Festival Inquietações da UERJ. Crédito: Bárbara Marreiros

Mel Gomes foi estudante cotista de produção cultural na Universidade Federal Fluminense (UFF) e é em si um simbolo de resistência. Ela é uma das criadoras do Baile do Cuca, festa funk que busca integrar a cultura das comunidades, além de ocupar as universidades para aumentar a circulação e os espaços de festas.

“Eu estudava na UFF e morava no morro do palácio. Aí trocando ideia com a Fernanda Rangel e o Filipe Garcez falávamos sobre esse espaço da Universidade. Porque não adianta dizer que a Universidade está mais democrática e diversa, mas na verdade, culturalmente ainda existe muitas restrições, tá ligado? Ou você fechava com o bonde cult que curte Los Hermanos e Banda do Mar ou você fechava com o bonde do forró universitário. Como se o funk não fosse uma cultura popular. Eu sempre frequentei baile funk de favela e trouxe isso para a Universidade”, conta Mel. O Baile do CUCA junto das articulações da UNE já reuniu 8 mil pessoas na festa do campus Gragoatá da UFF.

“Eu sempre frequentei baile de baile funk da favela e trouxe isso para a Universidade”, conta Mel Gomes. Crédito: Bárbara Marreiros

A regulamentação das festas é uma das principais lutas do movimento estudantil que entende que a circulação de pessoas e acesso cultural é uma das formas de contribuir com a segurança.

Natália Trindade, 27 anos, estudante de Ciências Sociais e coordenadora geral do DCE “Nosso Sonho não vai terminar” da UERJ explica a importância de ter reunido cerca de 1000 pessoas no Festival Inquietações dentro de uma Universidade no Rio de Janeiro.

“Por meio da luta do movimento estudantil a gente pode mostrar que a universidade é de todos”, disse Natália Trindade. Crédito: Bárbara Marreiros

“A Universidade é um polo de socialização para pesquisa, cultura, esportes. Ainda mais na UERJ, que é a Universidade mais popular do Brasil  e socialmente diferenciada por conta do pioneirismo na política de cotas. Ver a cultura funk do povo da favela dentro de uma Universidade pública e gratuita foi um momento de muita felicidade e me senti realizada que por meio da luta do movimento estudantil a gente pode mostrar que a universidade é de todos nós”, disse.

O funk lotou a UERJ. Crédito: Bárbara Marreiros

Principal atração do festival, MC Carol é hoje um grande nome do funk em nível nacional. Ela conta em entrevista para a UNE Volante que precisou largar a escola para trabalhar. Mesmo assim, ela reconhece a importância da escola pública de qualidade e defende as cotas para que cada vez mais mulheres negras e periféricas tenham acesso às universidades. “Eu canto sobre eu ser mulher pobre e preta. Se o funk de comunidade fala da vida real das pessoas, então funk é política”. Leia a entrevista completa aqui. O show da MC Carol teve alguns momentos de catarse na concha acústica. Entre eles, a homenagem para Edith Piaf e Nina Simone. Veja no vídeo abaixo

“Não dá pra querer que pessoas sem condições de emprego e marginalizadas falem dos pensamentos das mulheres de Atenas ou a beleza do Corcovado. Dentro dessa realidade, o cara vai falar do bandido de fuzil 762 de frente da casa dele, vai falar do corre dos traficantes e vai falar da novinha que tá rebolando ali. É sobre isso que vamos falar. Eles querem mudar o teor do funk? Então vamos mudar a sociedade e as condições primeiro porque se não é hipocrisia”, analisa Mel Gomes.

“O funk movimenta um dinheiro absurdo em turismo e lazer. A economia local gira com  o cara que monta a caixa de som, o cara que cata latinha, a tia do dog. Eles não querem o baile na favela, mas pagam fortunas pra ver esse som em casas fechadas”, diz Mel.

Festival Inquietações recebe Baile do Cuca no Rio de Janeiro. Crédito: Bárbara Marreiros

Não há como negar que o bonde do funk é pesadão e só cresce. Em 2017, o número de ouvintes de funk no Spotify, cresceu 276%.  No Brasil, das cinco músicas mais tocadas, três são funks, segundo dados da empresa de streaming. De acordo com números do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad,) entre janeiro e março de 2017, o funk liderou a lista de músicas mais executadas em bares e casas noturnas de todo o país.

MC Carol ocupa a UERJ com funk. Crédito: Bárbara Marreiros

Se o funk estava nas festas, playlists e bares em todo o Brasil, por que ainda não estava dentro das festas da Universidade? Esse era um dos pontos que fizeram o grupo de Mel Gomes criar uma festa funk.  O Baile do CUCA nasceu ao lado do morro do Palácio na UFF, no período que começou a Reestruturação e Expansão das Universidades Federais Brasileira (REUNI), ou seja, quando teve o aumento do número de vagas para pessoas de baixa renda.

A UERJ é pioneira na política de cotas e os efeitos já são sentidos na pesquisa e na cultura da Universidade. Crédito: Bárbara Marreiros

“Eu não me sentia à vontade na Universidade. Na parte de artes eu via hippies, saca? A galera do morro do Palácio nunca tinha entrado na Universidade porque achava que Universidade é um lugar apenas para playboy branco. Aí quando surgiu a ideia de montar o Baile do Cuca, a própria galera do morro do Palácio agitou o som, se juntou com o DCE.  Logo, a gente aprovou um regulamento para que o espaço de festa fosse para estudantes, mas também para a comunidade, desde que siga alguns critérios da Universidade. A partir do momento que elas circulam na Universidade, diminui violência e, principalmente, gera um incentivo natural para que essas pessoas prestem o Enem  e queiram estudar na Universidade”, finaliza Mel.

A UNE Volante e o Festival Inquietações seguem energizados para a ilha da magia, Florianópolis, em busca de mais trocas culturais e debates na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Acompanhe tudo que rolou na defesa da Universidade pública de qualidade, além do nosso giro cultural pelo Brasil neste link.

Valeu, bonde pesadão da UERJ! \o/

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