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Manoel Rangel: “Mais que resistência, arte é invenção”

21/06/2017 às 16:47, por Natália Pesciotta.


Em debate com estudantes no 55° Conune, ex-presidente da Ancine falou sobre papel da cultura em tempos de crise e na história do Brasil

O cineasta Manoel Rangel é um otimista. Apesar de ler a atualidade como período de “tempos sombrios”, é capaz de enxergar outras perspectivas para a grave situação da democracia e do país: “Tenho profunda convicção no desenvolvimento e no futuro do Brasil, a despeito do que se apresenta. E é aqui, no Congresso da UNE, que se começa a desenhar tempos melhores”, disse durante o encontro que foi realizado em Belo Horizonte.

Ele participou da mesa “Cultura Reinventando a Resistência” um mês depois de deixar a presidência da Agência Nacional do Cinema (Ancine), cargo que ocupou na última década inteira, desde 2006. Acredita também na solidez das políticas criadas para o setor, mesmo em uma gestão polêmica para a área cultural.

Para ele, a arte pode criar novas realidades: “Vejo o campo da arte como resistência, mas também como espaço de invenção”.

Leia entrevista:

Sua mesa fala sobre cultura e resistência. Como viu o papel do cinema brasileiro durante o ano de 2016, na resistência ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff?

O campo cultural foi muito sensível a todo esse processo de agitação política e de interrupção do processo correto e democrático no Brasil. O cinema manifestou isso com força. Houve, evidentemente, um fato que acabou catalisando a mobilização cultural e artística, que foi a extinção do Ministério da Cultura. Mas o cinema agiu ainda antes disso. O diretor Kleber Mendonça usou sua oportunidade em Cannes – e olhe, é uma grande oportunidade quando um diretor chega em Cannes, o Brasil estava fora da competição havia alguns anos. Mas o Kleber e sua equipe sentiram necessidade de mandar um recado ao mundo de que divergiam daquilo que estava em curso no Brasil. F

oi muito emblemático, porque Canners é um palco da mídia internacional. Mas ali era uma expressão de um movimento mais profundo. Os cineastas fizeram um conjunto de manifestações em defesa da democracia, contra o impeachment, na defesa da legalidade democrática e da soberania popular expressa nas eleições de 2014. Isso se prolonga em ondas e ressurge agora também com a defesa das Diretas Já, como caminho de devolução à soberania popular dos destinos do País. São tempos sombrios, de crise. E crise é causa de sofrimento, mas também de oportunidades de mudança. A arte reflete isso também.

O senhor acabou deixando a Ancine depois de 11 anos. Por quê? Como foi este processo?

Eu cumpri o rito. Tinha um mandato, cumpri até o último dia, 20 de maio. O último ano exigiu muito cuidado, paciência e resiliência, para que, mesmo num cenário de interrupção dos ritos do país, a política de audiovisual fosse preservada. Conseguimos manter investimentos e políticas, defendidos de qualquer tipo de interferência política sobre o acúmulo de 15 anos no setor. O audiovisual vive um bom momento tanto artístico quanto econômico. Tivemos este ano 12 filmes brasileiros no Festival de Berlim, 15 no festival de Rotterdam, filme no festival de Sundance, e esses são os 3 principais festivais internacionais do primeiro trimestre.

Momentos conturbados politicamente acabam incentivando produção cultural, como aconteceu em outros momentos da história brasileira?

Esses momentos provocam reflexão, vontade de falar sobre as coisas. Nós tivemos filmes nos últimos anos que expressam as transformações no Brasil, como Que Horas Ela Volta?. A seu modo, Aquarius também é expressão de resistência, além de vários outros. Claro que os cineastas têm toda uma delicadeza na maneira de narrar, mas vão conectando histórias com os acontecimentos da vida social. Vamos ver o que essa safra vai nos trazer de reflexão. Há um crescimento de produção que tem a ver com bom momento do audiovisual. O Brasil inteiro está produzindo filmes, séries, e isso está chegando à casa das pessoas. É força para continuação da produção artística.

E na história do Brasil, como vê o papel da arte brasileira?

Vejo o campo da arte como resistência sim, mas também como espaço de invenção. Tem um campo da arte que procura amalgamar o que está por toda parte, os grandes sentimentos do tempo, que procura entender o que aponta para o novo.

No Brasil, a arte cumpriu historicamente um papel de desbravar territórios. De ensinar o Brasil aos brasileiros. De introduzir à vida nacional valores de nacionalidade que nossas elites rejeitaram sistematicamente, primeiro porque não perdiam a memória do desejo de ser portugueses, depois o desejo de ser franceses, depois ingleses, depois norteamericanos.

Foi a arte que introduziu elemento de Brasil, foram os mais pobres, negros, mulatos, quando chegaram ao campo das artes, que apostaram num caminho de Brasil. Como Machado de Assis, Lima Barreto, a Semana de Arte Moderna. Teve papel crucial até artistas que emergiram do movimento estudantil. Gianfrancisco Guarnieri, no teatro, Nelson Pereira do Santos, no cinema… O Centro Popular de Cultura da UNE  e o cinema novo radicalizaram, mais do que resistindo, inventando o Brasil. Ou melhor, ensinando ao Brasil o que é a própria nação. Nos movimentos artísticos e no campo da cultura, o melhor que produzimos foi essa capacidade de inventar o país.

O senhor participou do movimento estudantil 30 anos atrás. Como se sente voltando a dialogar com estudantes, agora como ex-presidente da Ancine?

Quando a UBES e a UNE convocam, eu me sinto no dever de atender. É a memória do estudante que eu fui, do ativista que fui, mas também uma compreensão do papel das novas gerações no desenho do futuro do país. Pra mim é uma alegria estar no Congresso da UNE, uma das forças que pulsam acreditando no futuro do país. É razão de otimismo. Tenho profunda convicção no desenvolvimento e no futuro do Brasil. A despeito daquilo que se apresenta diante de nós como tempos difíceis, eu acredito em tempos melhores. E é aqui, no congresso da UNE, no movimento estudantil, que se começa a desenhar estes momentos futuros.

 

 

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