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Manifesto da 10ª Bienal da UNE: “Feira da Reinvenção”

18/10/2016 às 1:16, por Rafael Minoro.

“Tinha uma vendinha no canto da rua
Onde o mangaieiro ia se animar
Tomar uma bicada com lambu assado
E olhar pra Maria do Joá”

(Sivuca e Glorinha Gadelha)

Reinventar é um brado, uma necessidade, uma ardência originária nascida com o Brasil. Para curar a doença, reinventa-se o remédio ou o próprio doente. Para curar a alma, reinventa-se a reza, o ritmo ou a música do festejo. Para curar-se da queda, reinventa-se a receita da volta por cima. Há sempre fé, fruta ou benzedeira nova para todos os males. Há mistura sempre de sobra para ser remisturada com alguma outra coisa. Há chá de descoberta e de novos descobrimentos embaixo das letras mortas dos livros ou dos doutores mais sabidos. No Brasil da sabedoria popular, há sempre reticências à espreita dos pontos finais.

O potencial criador e criativo do povo brasileiro é uma constante na sua história de afirmação e resistência ao longo dos séculos. O processo – sempre inacabado – de formação da brasilidade deriva de guerras, encontros e conflitos raciais, econômicos, culturais que levam à prática recorrente de recriação do novo perante uma realidade opressora. Nas agruras da senzala ou do navio negreiro, surgem os contos, os cantos, os batuques e as danças da nossa mitologia particular. No desastre da seca e da exclusão do caboclo, surge o cordel, o improviso do repente e da própria vida em poesia. Na aspereza da favela excluída surge o funk, o tecnobrega, o arrocha de quem dita o compasso de como se mexem os corpos de norte a sul.

Ao chegar a sua décima edição em 2017, sempre buscando investigar e celebrar o Brasil, a Bienal da UNE se permite o desafio da reinvenção. Frente ao momento crítico da história política do país, na reprimenda aos sonhos de sua emancipação e superação de suas injustiças, no golpe e silenciamento dos que lutam face a suas opressões, a União Nacional dos Estudantes evoca a criatividade transformadora da cultura popular brasileira no maior festival estudantil da América Latina. A Bienal, que também marca o início das atividades de 80 anos da UNE, quer revelar a sina de um povo que recorrentemente, sob a gravidade das intempéries, enfrenta adversidade com a diversidade. Um povo que se faz ativo no criativo de uma embolada, de uma rima, de uma hashtag da rede social que mobiliza toda a coletividade.

A UNE convida a juventude brasileira para expor seus sonhos e suas propostas de reinvenção nessa feira, na cidade de Fortaleza, no próximo mês de janeiro. Recorre a essa imagem e conceito do mercado popular no Brasil, a feira livre, o espaço aberto de troca com sua miríade de cores, temperos e possibilidades imaginativas, seja tanto nas mercadorias, no jargão genial de oralidade de quem vende o seu “peixe” ou na descoberta inusitada de uma nova batida musical na banca de aparelhos eletrônicos. Freguês pode chegar. Na Feira da Reinvenção, não se distingue o que é exatamente produto pronto ou, na verdade, mais uma matéria prima para a recriação do mundo à volta.

Nessa sacola cabem samplers e bases para os Mcs, sabores e efeitos misteriosos, tecidos para cortes e retalhos nas artes plásticas ou na moda, poetas clássicos ou marginais para o intertexto de copyleft, celulares para fazer cinema e/ou revolução, truques e trocas de estilos, afetos, concordâncias e divergências para um novo tema de debate. A feira é uma cidade de vida própria, convidativa aos olhos, cheiros, gostos e gestos de experimentar aquilo que ainda não se conhece de banca em banca. A feira livre é um ponto do encontro, da socialização e também do fazer artístico.

Foi na Feira do Crato, interior do Ceará, que um dos poetas mais inventivos da literatura brasileira, Patativa do Assaré, foi descoberto no talento dos seus versos matutos. Foi também a imagem da feira livre que levou ao movimento histórico de músicos cearenses e outros artistas que, no ano de 1979, ocuparam o Teatro José de Alencar, em Fortaleza, na Massafeira.  O evento foi uma eclosão de canções, pinturas, esculturas, fotografias, traços de costumes populares que relançaram a cultura local para o país. Construíram a Massafeira nomes como Ednardo, Belchior, Fagner, além de convidados de outros estados como Zé Ramalho e Walter Franco. O projeto também se transformou em um álbum, lançado no ano seguinte.

 

 

Em outros estados, as feiras também são referências da diversidade cultural. Luiz Gonzaga imortalizou a Feira De Caruaru, em Pernambuco cantando tudo que há no mundo e nela para se vender. A mineira Clara Nunes, na sua Feira de Mangaio, lista o fumo de rolo, o bolo de milho, alecrim e canela ao lado do sanfoneiro no canto da rua e seus floreios para o povo dançar. No Rio de Janeiro dos anos 1990, há a Feira de Acari no funk de MC Batata, sucesso nacional que despertou olhares para esse bairro da zona norte carioca, e a feira não autorizada do Rappa, versada em rock, chamando maluco, madame, maurício e atriz para levar as ervas que amenizam a pressão.

A feira é uma prática antropológica recorrente em muitas civilizações. Na tradição da cultura ocidental e da América Latina colonizada, ela remete aos espaços de festividade, religiosidade e trocas de mercadoria desde o império romano. A etimologia da palavra, com origem no latim, é a mesma que designa férias, feriado, momento de parada para celebração ou intercâmbio. A feira faz parte de um processo civilizacional que chegou do outro continente, mas que aqui se ressignificou com as matizes brasileiras e sua composição multifacetada. Sua variedade é uma analogia do próprio país em busca dos ingredientes sempre fortes, difusos e complexos que o compõem do ponto de vista étnico, religioso, cultural e histórico.

 

 

Segundo Darcy Ribeiro, pela amplitude dessas possibilidades, o Brasil seria, potencialmente, algo como uma nova Roma para a humanidade. Um solo lavado no sangue indígena e negro, porém tropical e fértil para suplantar as desigualdades com reinvenção, o berço de uma possível nova sociedade. As contradições do processo exploratório desta terra, por hora criminalizando os saberes dos povos oprimidos, como na escravidão, por horas buscando retomá-los, como no indianismo literário ou na antropofagia modernista, criaram ao longo do tempo um quebra cabeça virtuoso a ser montado, geração após geração, em uma vastidão de combinações incrivelmente possíveis.

É assim que o forró de Gonzaga e Humberto Teixeira encontra o rádio e a massificação em nova roupagem para os grandes centros urbanos da primeira metade do século XX, em um movimento inédito de difusão da arte nordestina. É assim que a Tropicália reúne samba, bossa e psicodelia setentista em harmonia de acordes e discursos. É assim que a guitarra elétrica ganha outra função totalmente inesperada na música baiana de Dodô e Osmar, que Chico Science funde Maracatu e música eletrônica com a sua Nação Zumbi, que o heavy metal do Sepultura e a música dos índios Xavantes tornam-se uma coisa só nas experimentações do clássico álbum “Roots”.

 

 

Atualmente, esse processo de reconexões continua dentro ou fora da cultura de mercado e da indústria. Da marginalidade, das periferias (perifeiras) em torno de um centro concentrador de riqueza e privilégios, brota a espontaneidade no freestyle do rap, nas batalhas de versos, na linguagem imediata e urgente do pixo e do grafite, no esporte, na moda, nos virais da internet, naquilo que se coloca na roda para a troca. A ascensão sócio-econômica desses grupos nos últimos anos de governos populares, associada às políticas sociais, a convergência digital, o acesso ao ensino superior, permite o seu protagonismo na condução de parte da cultura nacional, da formação de uma inteligência coletiva e em rede, uma renovação do fazer político que tem como chave a recriação do futuro a partir das velhas estruturas do passado.

Mirando essa nova realidade, a feira da Bienal da UNE é um grande chamado a todas as juventudes e à cultura brasileira para reflexão, reorganização, reativação de suas energias utópicas e criativas. É uma praça aberta, sensorial, visionária, pronta para o escambo de quem vem de longe para se reinventar. Representa o planejamento de um novo ciclo de lutas e ideias, em direção ao Brasil que queremos, reconhecendo a centralidade da cultura na transformação do imaginário social e no rumo das nossas narrativas.

O nordeste é mais uma vez sede do evento, pelo reconhecimento de ser uma região vibrante da arte popular brasileira, inclusiva e solidária para fazer o contraponto dos preconceitos e arbítrios que ainda precisam ser derrubados mais ao sul. O Ceará recebe pela primeira vez a Bienal tendo a tradição de manifestações culturais riquíssimas no interior e na capital, a realização de grandes festivais nacionais e internacionais de música, cinema, circo, literatura, dança. Fortaleza, uma das maiores metrópoles do Brasil, que já caminha para os seus 300 anos de história, é ainda assim uma cidade que se provoca e se redefine.

O festival seguirá todo o modelo de um espaço de trocas, seja em sua programação, na sua estrutura física, na forma de participação dos seus visitantes, nas atividades autogestionadas e no ambiente para a promoção de ações espontâneas e criativas. Além disso, esta décima edição da Bienal servirá para expor e debater as realizações de suas nove edições anteriores, assim como a prática das ações culturais dentro da universidade, avaliar e construir ideias sobre o Circuito Universitário de Cultura e Arte (CUCA) da UNE, sua atuação e seu alcance nas diferentes regiões do país.

Como versa Cecília Meirelles, a vida só é possível reinventada. A vida é uma resposta de supetão àquilo que não se esperava, como em uma esquete de improvisação teatral. A vida é a saída bolada para o problema posto, a alternativa, a solução, é a gambiarra, bela palavra da língua tupi-guarani que significa “acampamento provisório no território desconhecido”. A Bienal da UNE e o movimento estudantil brasileiro, portanto, levantam suas barracas em Fortaleza  para reciclar, repensar, refazer o caminho dos seus sonhos e objetivos mais próximos.

Reinventar é uma urgência, uma nota tônica, é a sede dos olhos por uma cor ainda não utilizada na pintura. Reinventar é a arte de quem se move, de quem não pode temer os obstáculos à frente pois simplesmente não pode voltar atrás na sua própria história. Temer jamais. A Feira da Reinvenção está aberta às interessadas e aos interessados. Ela é um amálgama do que se viveu até aqui e um laboratório do que se viverá adiante. Traga o seu ingrediente.

União Nacional dos Estudantes
São Paulo, 12 de outubro de 2016.

Serviço

  • O que:10ª Bienal da UNE
    Quando:29 de janeiro a 3 de fevereiro de 2017
    Quanto:R$ 100,00 até o dia 10/12.
    R$ 150,00 de 11/12 a 25 de janeiro.
    R$ 200,00 no dia do evento.
    Onde:Fortaleza, Ceará
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