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‘Universidade deve tratar comunicação como política pública’, diz Ivana Bentes

23/05/2018 às 16:11, por Alexandre de Melo, Camila Ribeiro, Bárbara Marreiros.


Diretora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) afirma em entrevista que fake news não são novidade e que concorda com a derrubada do diploma para jornalista

A amazonense Ivana Bentes, 53 anos, é diretora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisadora sobre a relação entre ética e estética na arte e no audiovisual, além de ser especialista da obra de Glauber Rocha. Ela também foi secretária da Diversidade do Ministério da Cultura na gestão de Juca Ferreira.

Em entrevista à reportagem da UNE Volante, Ivana Bentes falou sobre apoio da grande mídia ao golpe, regulamentação do Jornalismo e papel das mídias sociais no controle da informação

 O Facebook e outras mídias sociais são empresas que estão criando um novo tipo de monopólio da circulação da comunicação. É possível fazer a comunicação dos veículos progressistas dentro dessas plataformas privadas?

Sim.

Eu gosto de fazer a seguinte analogia: no capitalismo fordista, foi nas fábricas que surgiu a resistência do sindicalismo e o debate em torno do trabalho. É claro que seria melhor que as mídias sociais e a internet não fossem controladas  pelo mundo corporativo. No entanto, enquanto não temos essas mídias verdadeiramente livres, por que a revolução não pode surgir do ambiente onde temos a maior monetização e exploração?

Precisamos construir essas mídias livres, mas enquanto elas não existem de fato, precisamos tentar ao máximo nos apropriarmos dessas ferramentas do capitalismo da informação. O twistcast possibilitou que a Mídia Ninja fizesse transmissões ao vivo nas mobilizações de junho de 2013, por exemplo. Antes, isso seria impossível porque transmissão ao vivo da forma tradicional é muito cara. Eu acredito no potencial da cultura hacker e na apropriação tecnológica.

O diploma de Jornalismo e a regulamentação da profissão (tempo de trabalho, carteira de profissional) são importantes no Brasil?

Uma das únicas coisas que eu concordo com o Gilmar Mendes é a derrubada do diploma para jornalista (risos). Explico. Eu sou diretora de uma escola de comunicação. Formamos pessoas para a profissão. Da Fátima Bernardes ao Rafucko. No entanto, podemos formar sem compactuar com uma reserva de mercado e isso não é incompatível.

Não dá para compactuar com reserva de mercado para jornalista. Não deu certo. Fica muito controlado dentro de um pequeno número de pessoas dizendo o que é noticiável. Os velhos homens de imprensa direcionam isso como uma coisa cartorial.

Além disso, o diploma de Jornalismo não garante ética e responsabilidade. O Sindicato dos Jornalistas tem um papel muito importante, mas eu acredito que eles cometem um erro quando não reconhecem o autônomo e o midialivrista. Esses atores da comunicação têm uma influencia mil vezes maior do que os jornalistas. Eu defendo que esses sindicatos regulamentem os não profissionais porque estamos em um período de reconfiguração da comunicação. Precisamos transformar o trabalho de comunicação que está precarizado em um movimento com força e, sim, garantir seguridade e todos os direitos. Isso não é necessariamente feito por uma carteira de jornalista.

O lado “Black Mirror” dessa produção de comunicação feita por todos é a possibilidade de desconstrução de reputações como tentaram com a Marielle ou em “caça às bruxas” como aconteceu no Queermuseu. Hoje, a comunicação  é feita por muitos, desde o “tio do churrasco” passando fake news no Whatsapp ao ativista que reúne milhares de pessoas nas mídias sociais. No entanto, quem produz ódio é o conservadorismo, não são as redes sociais.

Qual é o papel da mídia independente nesse ambiente de trabalho precarizado diante do golpe e com relação as mídias tradicionais?

Vivemos uma crise de desinformação. No entanto, fake news não são novidades. Há mentiras sendo contadas há muito tempo, inclusive pela chamada grande mídia. Não se pode associar fake news à mídia independente e a multidão que produz comunicação.  A notícia de qualidade pode vir da mídia preta, LGBT, da Mídia Ninja. A Agência Pública é um exemplo de Jornalismo bem feito, na minha opinião. E essas mídias independentes tem um engajamento muito maior do que o Jornal Nacional ou a Veja.

O golpe jurídico e midiático se deu criminalizando a esquerda e por meio de uma construção do ódio a política com a participação da imprensa estabelecida. Por isso, é fundamental disputarmos as narrativas e transformarmos esse ecossistema midiático que vem transformando o jurídico e Sergio Moro em heróis. Acredito na postura pró-ativa, utilizando memes e bom humor. Quanto ao golpe, eu acredito que a mídia independente reagiu e fez sua parte, mas o Temer é o nosso exterminador do futuro. O Congresso que o sustenta e ele próprio não temem a reação da opinião pública. Afinal, Temer não é candidato a nada. Ele não tem nada a temer.

Qual o papel da universidade diante das transformações na comunicação?

A Universidade deve tratar comunicação como política pública. Mesmo com tantos avanços nos últimos anos, fomos derrotados na narrativa. As transformações aconteceram em vários campos, mas talvez a gente não tenha conseguido comunicar ao povo.

Muitos direitos conquistados foram vendidos pelos conservadores como privilégios. Como se cotas e bolsas não fossem obrigações. Olha que distorção…


O modelo de ensino e os currículos estão obsoletos nas Universidades?

Todos nós estamos reaprendendo. Eu voltei à direção da Escola de Comunicação da UFRJ repensando totalmente o Jornalismo. Hoje precisamos pensar em Jornalismo de Dados, por exemplo. Como detectar quando a opinião pública é formada por robôs?

Além disso, estamos repensando como ensinar os valores de mídia por meio da mídia da diversidade, da mídia preta, da mídia feminista, da mídia de matriz-africana. A Universidade pública pode reafirmar paradigmas e sempre fez. Aqui nós temos todos os sotaques. Antes, tínhamos uma escola branca elitizada. Isso vem mudando e, sem dúvida, essa mudança do perfil dos alunos influencia no que é ensinado e no que é produzido na Universidade.

 

 

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