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‘A Universidade me engajou para a luta’, conta Fred Zero Quatro

27/04/2018 às 16:05, por Alexandre de Melo Edição: Renata Bars.


Músico participou do debate sobre cultura na etapa pernambucana da UNE Volante

Fred Rodrigues Montenegro, conhecido como Fred Zero Quatro, vocalista do Mundo Livre S/A, é um ícone da cultura brasileira. Nascido em Jaboatão dos Guararapes (PE), em 1965, Fred largou a carreira de jornalista e junto de uma turma da periferia do Recife criou o manifesto Caranguejos com Cérebro, pontapé inicial do Movimento Mangue Beat que mostrou ao mundo grupos como Chico Science & Nação Zumbi e Sheik Tosado, além de trazer uma nova estética musical que misturava maracatus, xotes, repentes e cirandas com música pop rock.

Fred participou do debate“O Papel Estratégico da Universidade na Elaboração de Políticas de Cultura”, na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e conversou com a reportagem da UNE Volante sobre movimento estudantil, militância, a fase de jornalista combativo e a preparação do novo álbum do Mundo Livre S/A com participação de estudantes da UFPE.

Como a Universidade contribuiu para a sua militância e a sua arte?

A Universidade me engajou para a luta. Eu me formei em Comunicação na UFPE. Na época não tinha DA, mas a gente se mobilizava contra o regime militar. O clima era tenso, os funcionários orientavam para ter cuidado com quem a gente falava. Depois, o DA nasceu e eu me tornei Diretor de Imprensa. Eu editava um jornalzinho mimeografado. Tinha crônica, artigo, poesia e a gente fazia festa para que o jornal “A Brecha” saísse. Nesse período me convidaram para participar do MR8, mas eu recusei. Eu disse que estava em outra organização chamada Rock ‘n’ roll (risos). Já naquela época a gente lutava pelo Ensino Público e a volta da democracia.

O estudante engajado seguiu no Jornalismo?

Por um tempo, sim. Primeiro eu fui repórter na rádio e depois repórter de TV. Durante os anos 90, eu estava na TV Jornal durante uma Copa das Confederações ou Copa do Mundo, não lembro ao certo, e fizemos uma greve histórica. Unimos Gráficos, Radialistas e Jornalistas e no meio da Copa não tinha notícias. Só editorial. Agitamos a coisa.

Fred Zero Quatro: ”A Universidade ajudou a me engajar’. Crédito: Bárbara Marreiros

Como você avalia o posicionamento político dos artistas e do Movimento Estudantil em tempos de Golpe?

Ah, véio. Eu vejo muita omissão, muito isentão. Muito nego acovardado. Ainda mais com o clima de intolerância desde 2013. Virou ódio. Mas eu consigo entender a lógica dessa omissão, não é difícil entender. Vivemos uma guerra branca, um jornalismo de guerra. O artista que tem  convicção sobre o País pensa mil vezes antes de se expor porque tem a patrulha ferrenha de movimentos como o MBL, Vem Pra Rua e grupos que tem uma visibilidade absurda nas mídias sociais e são  financiados sei lá por quem. Quando a gente se posiciona paga um preço alto. Quanto mais alternativo, mais o artista depende da imprensa. Teve um disco nosso, o “Novas Lendas da Etnia Toshi Babaa”, lançado em 2012 que é um bom exemplo. Ganhamos o Prêmio da Música Brasileira e tudo. Aí os nossos fãs em São Paulo nem souberam que o disco saiu, acredita? A imprensa do ‘Tucanistão’ me ligava dizendo que adorou o disco, mas não saiu uma linha pra falar do álbum. Foi totalmente boicotado. Você tá me entendendo?

Os estudantes da UFPE vão participar do novo álbum do Mundo Livre S/A?

Sim. Já estamos começando a mixar. Sei lá, a gente percebeu que disco independente não tem pressão de prazo, sabe? Rolou assim: eu sou muito influenciado pelo álbum ‘Tábua de Esmeralda’ do Jorge Ben que foi concebido nessa pegada experimental. Quando eu conheci o Jorge e participamos de vários festivais, eu peguei amizade para perguntar sobre o processo dele nesse disco. Ele me contou que os arranjadores na parte de cordas, de harmonias eruditas e tal, eram sempre músicos de estúdio. Aí o produtor dele pediu para que eles experimentassem uma galera crua que ainda não tinha gravado com ninguém para dar um toque diferente do que já foi registrado por aí. E foi isso mesmo que aconteceu. O Tábua de Esmeralda tem uma atmosfera totalmente de novidade, experimentação, frescor.

Aí eu encontrei por acaso um amigo que está com um estúdio novo aqui na federal. O Zé Guilherme é coordenador do estúdio, concursado e tal.  Eu vi uma oportunidade. Peguei algumas faixas do disco que acredito que tenham essa pegada mais experimental e fui trocar ideia com uma turma boa de cordas, de trombones. O álbum chama ‘A Dança dos Não Famosos’ e vai sair pelo selo Monstro de Goiás. Tem dois clipes produzidos aqui e espero surpreender muita gente.Eu estou super realizado artística e esteticamente.

Como você avalia a importância da UNE Volante, caravana de mobilização pelo ensino gratuito e democracia?

Em tempos de internet, as pessoas querem resolver tudo do sofá. E tem essa história de Ensino à Distância. Aí você não tem mais uma turma e você esvazia a militância, o movimento. A  gente precisa reagir na prática e reverter essa situação absurda que o Brasil está inserido. A UNE Volante é mais do que oportuna porque olha nos olhos de cada um e vai na contramão dessa ideia de esvaziar os encontros.

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