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Fogo na bomba e paz na quebrada

31/01/2017 às 14:02, por Cristiane Tada.

Encontro da 10ª Bienal da UNE discute drogas, encarceramento e formas de combate ao racismo

A recente tragédia nos presídios brasileiros se fez urgente nas discussões da 10ª Bienal da UNE. Na tarde desta segunda-feira (30) uma das atividades autogestionadas mais prestigiadas do encontro foi a que falou sobre política de drogas, encarceramento e combate ao racismo. Dados do “Mapa do Encarceramento: os jovens do Brasil” mostram que em cinco anos – 2007 a 2012 -, a população carcerária entre 18 e 29 anos dobrou no Ceará, ao passar de 3.643 para 7.316. Esse foi o quinto maior aumento no Brasil, atrás de Espírito Santo, Alagoas, Amazonas e Sergipe.

“Saímos dos bairros mais violentos da cidade, resistimos, estamos na universidade, na UNE e no debate político”, ressaltou o diretor de Combate ao Racismo da entidade, Rodger Richer.

As convidadas Natália Oliveira e Juliana Borges são da Iniciativa Negra por uma nova política sobre drogas. Elas explicaram que a iniciativa nasceu dentro do Conselho Nacional de Juventude (Conjuve) com o objetivo de ser um elemento propulsor e provocador de uma nova formulação de política sobre drogas.

Elas defenderam que não é a política sobre drogas que inventa o racismo, ela perpetua e reforça o genocídio da juventude negra. “A política de drogas está sempre na dimensão de diminuição de direitos e é isso que permite o estado de exceção”, afirmou Natália.

Para ela o assunto envolve ainda a democratização do judiciário e uma atualização das políticas de segurança pública. “O comércio de uma substância que é internacional não parte dos nossos guetos”, afirmou.

Já Nádia Carvalho, da Rede Nacional de Feministas Antiproibicionista, destacou que fazer o debate intersecional sobre esse tema é fundamental. “É bem importante estar aqui para pensar de que forma podemos fazer um debate intersecional pensando no combate ao racismo e como essa política de drogas afeta as mulheres”, afirmou.

Ela criticou a postura da mídia que incentiva o genocídio dentro dos presídios. “Não podemos naturalizar o discurso da mídia que coloca o que está acontecendo nos presídios como natural. Somos a 4ª maior população encarcerada do mundo, uma das maiores causa do encarceramento é o tráfico de drogas”, ressaltou.

O jornalista do portal Alma Preta, Pedro Borges, também falou sobre a mídia. Mas ele alertou que como um aparato de sustentação ideológica do Estado, a mídia, representa o capital cultural do Brasil, e deve ser disputado. “Ele é o capital que permite o questionamento para os demais capitais, não é a toa houve uma barreira e ainda há pra entrada de negros e das periferias nas universidades porque esse é espaço de produção de conhecimento e disputa de narrativas assim como a comunicação”.

Tamara Silva, da Marcha da Maconha Ceará, desmistificou a ideia do usuário de drogas. Ela afirmou que mesmo quem não faz uso de uma droga ilícita pode ser um drogado porque deve fazer uma consumo de alguma substância que faz com que o organismo mude, segundo a definição da Organização Mundial de Saúde. “ A proibição nasce no mundo todo motivada por questões econômicas e raciais. Todas as questões de proibição relacionada ao uso de drogas nunca tiveram a ver de fato com a saúde das pessoas que consomem e sim com quem eram essa pessoas”.

Já Carol Lima, da Unegro Ceará, deu boas-vindas aos convidados e chamou de propícia a discussão na terra do Dragão do Mar, o Chico da Matilde, lendário abolicionista cearense. Ela lembrou a demora da punição – apenas um ano depois – dos policiais responsáveis pela chacina do Curió, em Messejana, bairro periférico de grande população negra. “Não é só camburão que tem um pouco de navio negreiro não, são as delegacias e todos os presídios”, criticou.

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